Direto da Sacristia
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A FSSPX compara o seu caso ao acordo China-Vaticano

Postado em 14 fevereiro 2026por Redação

Como sabemos, no dia 12 de fevereiro, o superior-geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Pe. Davide Pagliarani, encontrou-se com o Cardeal Víctor Fernández, prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé, no Palácio do Santo Ofício.

O encontro foi pedido pelo próprio Vaticano, representado pelo prefeito da Doutrina da Fé, após o anúncio feito pela própria FSSPX sobre as ordenações episcopais sem mandato pontifício, que eles pretendem proceder no dia 1° de julho. A preocupação do Vaticano é pelo ato que automaticamente provocará excomunhão automática aos bispos ordenantes e aos bispos ordenados, cuja remissão dependerá única e exclusivamente do Papa, e que poderá abrir um cisma na Igreja, se ao ato se seguir a adesão das centenas de sacerdotes, religiosos e seminaristas que possuem, sem falar dos milhares de fiéis em todo o mundo assistidos pelos seus apostolados; estima-se que sejam cerca de 500.000 pessoas. Do outro lado, a FSSPX reclama para si novos bispos que permitam a continuidade da obra de Dom Marcel Lefebvre, pois, sem eles não há novos sacerdotes e, consequentemente, os sacramentos não podem ser administrados aos seus fiéis. Além disso, continuam as suas críticas e a sua resistência a temas doutrinais ensinados pelo Concílio Vaticano II, tais como a liberdade religiosa, a liberdade de consciência, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso e, de modo particular, a reforma litúrgica. E não apenas isso: nos últimos anos entrou na mira da FSSPX a Declaração sobre a Fraternidade Humana, assinada em 2019 pelo Papa Francisco e o grande imã Ahmad Al-Tayyeb, que afirma ser vontade divina a diversidade e o pluralismo de religiões, assim como a diversidade de cor, sexo, raça e língua; também esse foi um dos temas discutidos no encontro.

O cenário chinês

Agora, após os comunicados oficiais de cada parte, pouco a pouco começam as reações públicas, mais espontâneas e menos institucionais, principalmente da parte da FSSPX: em texto publicado no seu site oficial comenta-se sobre a Igreja na China, com cujo governo em 2018 o Vaticano assinou um acordo para a nomeação de novos bispos. Segundo o tratado, do qual o conteúdo nunca foi publicado, o governo participa no processo de escolha e aprovação seja dos novos bispos, seja na transferência de um bispo para outra diocese. Como se não bastasse a difícil situação dos católicos no país, dividindo-se entre a Igreja clandestina e a Igreja patriótica (controlada pelo governo), desde a sua assinatura, o acordo foi algumas vezes violado pela China, nomeando bispos sem o aval do Vaticano e sequer sem avisá-lo previamente. Mesmo assim e sem entrar em muitos detalhes, publicando comunicados ou falando por meio de autoridades eclesiásticas em entrevistas, o Vaticano afirma que, por enquanto, o acordo oferece a melhor possibilidade para a Igreja no país e na sua colaboração com o governo local.

A eles sim, a nós não

Entre o anúncio das possíveis ordenações episcopais e os comunicados do Vaticano e da FSSPX, não demorou muito para que as pessoas estabelecessem um paralelo entre o cenário da FSSPX e o da Igreja na China. No mencionado texto no seu site oficial, a Fraternidade afirma:

“A comparação com a situação da Fraternidade São Pio X não é difícil: os ‘clandestinos’, que se recusam a aderir às novidades consideradas nocivas provenientes de um partido modernista atualmente dominante, não podem receber um bispo e são instados com insistência a juntar-se a esse partido liberal que, segundo essa visão, subverte a Igreja. Caso contrário, são ameaçados com penas severas e exclusão”.

Para a FSSPX, a Igreja na China reflete de dois modos a sua recente situação com o Vaticano: uma vez que ainda não são canonicamente reconhecidos pelo Vaticano, eles são como os católicos chineses clandestinos, sofrendo pela sua fidelidade, sendo perseguidos e ameaçados com excomunhões e cisma; de outra forma, o governo chinês obtém que sejam nomeados bispos quem, como e quando quer, tudo o que a Fraternidade pediu em 1988 e pede agora e não conseguiu. De fato, o anúncio em 02 de fevereiro passado sobre as futuras ordenações episcopais aconteceu depois da frustração nos pedidos sobre o futuro da FSSPX e de serem ouvidos também pelo Papa em pessoa.

Aguardar os próximos meses

O Cardeal Fernández pediu ao Pe. Pagliarani que ele apresentasse ao seu Conselho e discutisse com ele as medidas exigidas pelo Vaticano para a continuidade do diálogo: a adesão de temas pontuais da doutrina e o cancelamento das ordenações episcopais. Da parte da Fraternidade existem pontos que colidem diretamente e desde sempre com o Vaticano, somados a alguns novos.

Em 1988, o Papa e a Cúria Romana eram outros, mas o que não mudou para a FSSPX é o evocado estado de necessidade para que o seu ministério pastoral não esteja ameaçado, dado que os 2 bispos já têm idade avançada, tal como à época Dom Marcel Lefebvre era idoso. O que é diferente hoje é a adição de um novo assunto como precedente, o cenário chinês, mas aparentemente o Vaticano não está disposto a fazer uma concessão semelhante e, nem muito menos, a modificar o conteúdo do acordo com a China. Mas é uma nova carta da FSSPX sobre a mesa: se a um governo civil é possível conceder privilégios, por que a nós o Papa não permite que escolhamos os nossos bispos e os ordenemos, sem, consequentemente, pairar a ameaça da excomunhão e do cisma?

 

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Na imagem, peregrinação da FSSPX à Roma em agosto de 2025, durante o Jubileu do Ano Santo. Diante do altar papal da Basílica de São Pedro, o superior-geral Pe. Davide Pagliarani é ladeado pelos bispos Dom Bernard Fellay e Dom Alfonso de Galarreta.

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