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7ª Congregação Geral: Língua litúrgica

Postado em 31 outubro 2012 by E. Marçal

Continuaram esta manhã os trabalhos conciliares. Celebrou a Santa Missa Mons. Deodato Yougbare, Bispo de Koupela, Alto Volta. A oração do “Adsumus” foi recitada pelo Cardeal Frings, Arcebispo de Colônia, Presidente da Sétima Congregação Geral.

Estavam presentes 2.323 Padres. Notar-se-á que o número dos Padres presentes diminuirá regularmente nas próximas Congregações Gerais […]. Motivos: logo no início foi comunicado que os Bispos auxiliares não tinham obrigação de permanecer caso houvesse necessidade pastoral; e mesmo os diocesanos que precisassem voltar, poderiam obter licença; também os Núncios e Delegados Apostólicos deviam retornar aos seus postos. Além disso, os velhos, os doentes, os gripados, os impedidos por força maior. […] Aliás, foi notável e mesmo surpreendente a assiduidade com que todas as manhãs compareciam regularmente mais de dois mil Bispos. A entrada deles na Aula Conciliar e a saída constituíam sempre espetáculos para os turistas de Roma e mesmo para os romanos.

Posições defensivas e acusativas ao uso do latim, presente nos textos do Missal de onde Bento XVI reza na foto

Entronizado o Evangelho, desta vez por Mons. Guilherme Kempf (um dos Subsecretários), continuaram as intervenções no debate sobre a Sagrada Escritura. Seguindo as normas do art. 33 do Regulamento, cada um, depois de ter falado, entrega ao Secretário-geral suas observações e propostas por escrito. Apresentaram-se hoje vários Abades Gerais beneditinos. Os filhos de São Bento, com efeito, notabilizaram-se pelo amor com que, a exemplo de seu Santo Fundador, cultivam os estudos da Liturgia, transformando não poucas vezes suas Abadias em exuberantes centro de vida litúrgica.

Os Padres que hoje falaram tocaram um pouco em todos os artigos da Constituição agora em estudo. […] Outra questão discutida esta manhã foi a da língua a ser usada na Liturgia. Há certamente razões que militam em favor do latim, não apenas como língua tradicional, mas também por sua função unitária. A precisão lógica e concisão jurídica torna o latim particularmente idôneo para fins teológicos e dogmáticos. Mas devemos reconhecer também os motivos que recomendam o uso do vernáculo nas funções litúrgicas. […] O uso de várias línguas mostra quase visivelmente a catolicidade do Cristianismo, isto é, sua capacidade de adaptação às tradições e aos valores dos povos de todas as latitudes e de todos os tempos, ontem, hoje, como amanhã. Discutem os Padres sobre estes assuntos aportando cada um a contribuição da sua erudição e experiência. Não se trata de posições contrastantes, mas busca comum e fraterna. […]

Falaram hoje, entre outros:

Benedikt Reetz, Abade Geral da Congregação Beneditina de Beuron, na Alemanha:
recomenda o uso moderado do vernáculo.

Clemente Isnard, Bispo de Nova Friburgo, no Brasil.
(sem referências de sua intervenção)

 Frei Boaventura Kloppenburg, teólogo conciliar

6ª Congregação Geral: Primeiros fins da reforma litúrgica

Postado em 24 outubro 2012 by E. Marçal

[24 outubro 2012]

Fouad Twal, Patriarca latino de Jerusalém, durante missa em rito greco-melquita
tal como foi a Divina Liturgia hoje no Concílio 

O sacrifício eucarístico desta manhã, com o qual começou a sexta Congregação Geral do XXI Concílio Ecumênico, foi oficiado por Mons. Filipe Nabaa, Arcebispo de Beirute e Gibail para os Melquitas e que é um dos cinco Subsecretários do Concílio. Em termos mais exatos, tratou-se de uma concelebração em rito greco-melquita.

Presidiu a Congregação Geral de hoje o Em.mo Sr. Cardeal Henrique Pla y Deniel, Arcebispo de Toledo.

A entronização do livro dos Evangelhos em forma solene, como ontem, foi feita por Mons. Joseph Krol, Arcebispo de Filadélfia, nos Estados Unidos. Estavam presentes na Aula 2.337 Padres.

Terminada a invocação do “Adsumus”, o Secretário-geral comunicou aos Padres a morte de Mons. Aston Chichester, Arcebispo titular de Velebusto, que havia expirado uma hora antes, acometido de um mal súbito, no adro da Basília. Todos os Padres Conciliares recitaram juntos o “De Profundis”.

Foi distribuído então o calendário dos trabalhos conciliares do mês de novembro, que prevê a suspensão das sessões para os primeiros quatro dias do mês. A partir do dia 05 de novembro, haverá sessões todos os dias, menos às quintas-feiras e aos domingos.

Continuaram depois as intervenções dos Padres, ainda sobre o Proêmio e o Primeiro Capítulo do projeto de constituição sobre a Sagrada Liturgia. O Proêmio, depois de lembrar que a tarefa de favorecer e promover a Liturgia entra nas finalidades do Concílio, sublinha que não se trata de fazer novos pronunciamentos dogmáticos, mas de fixar alguns princípios e normais gerais, deixando então aos Peritos estudar as aplicações concretas. Com este fim, se chama a atenção para a necessidade de acentuar sobretudo a natureza teândrica (n.e. relativo a Deus feito homem) da Liturgia, seu duplo caráter divino e humano, invisível e visível, espiritual e jurídico, escatológico e administrativo. Sublinha-se particularmente a oportunidade de reconhecer, honrar e favorecer todos os ritos atualmente vigentes na Igreja Católica.

O Primeiro Capítulo da Constituição, sobre os princípios gerais da Liturgia, abre com um parágrafo [onde] é definida a natureza da Liturgia. A obra da Redenção, anunciada no Antigo Testamento, é continuada pela Igreja através dos séculos, não apenas mediante a pregação do Evangelho, mas também por meio dos Sacramentos, para os quais se ordena toda a Liturgia. Em cada ação litúrgica, em cada gesto visível e externo que a Igreja exerce para administrar os Sacramentos está presente Cristo que opera a salvação e confere a graça.

Intervieram esta manhã os seguintes Padres:

Cardeal Eugène Tisserant, Decano do Sacro Colégio:
totalmente favorável ao uso do vernáculo na Liturgia.
(como também falou o Arcebispo Joseph Descuffi, de Esmirna, Turquia)

Cardeal Valeriano Gracias, Arcebispo de Bombay, na Índia:
defendeu o uso do vernáculo em todas as partes litúrgicas destinadas ao povo.
Declarou não ser possível continuar sempre “sicut erat in principio et nunc et semper”
(tal como pensa o Cardeal Bea, Presidente do Secretariado para a  União dos Cristãos).

Cardeal Antonio Bacci, da Cúria Romana:
defendeu o latim. Para a instrução do povo, basta a homilia e o catecismo;
as orações litúrgicas sejam feitas em latim.

Frei Boaventura Kloppenburg, teólogo conciliar

O latim deve ou não continuar?

Postado em 23 outubro 2012 by E. Marçal

[23 outubro 1962]

A quinta Congregação Geral iniciou esta manhã, no horário de sempre, como a Santa Missa celebrada por Mons. John Krol, Arcebispo de Filadélfia, nos Estados Unidos.

Ocupou em seguida a Presidência o Em.mo Cardeal Francis Spellman, Arcebispo de Nova York.

Segundo os cálculos fornecidos pelo Centro Mecanográfico, estavam presentes 2.363 Padres Conciliares.

Particular solenidade foi dada hoje à entronização do Evangelho: partindo da estátua de São Pedro, junto à qual está a mesa do Conselho de Presidência, Mons. Jean-Marie Villot, Arcebispo Coadjutor de Lyon e um dos cinco Subsecretários do Concílio, levou solenemente o livro dos Evangelhos por toda a nave central, antes de colocá-lo sobre o altar, enquanto a Assembleia cantava o salmo “Laudate Dominum”, alternando com o verso “Christus vincit”. […]

Continuou-se a seguir no debate, iniciado ontem, sobre a Sagrada Liturgia. As primeiras intervenções referiam-se ainda ao projeto de Constituição em geral. Houve, como ontem, pareceres diferentes, nos quais se refletem escolas, experiências e problemas diversos que, porém, revelam também identidade de desejo de afirmar o valor intrínseco da Liturgia para torná-la expressão viva e real do culto que a Igreja universal presta a Deus.

A meta prefixada pelos Padres, com o debate sobre o tema central da Liturgia, é a de favorecer sempre mais, mormente nos sacerdotes e, depois, nos fiéis, uma educação para a autêntica piedade litúrgica, a fim de que a Liturgia possa ser de fato fonte de graça e meio de salvação. O problema litúrgico está hoje no centro de uma atenção cada vez mais vasta e sensível.

Nem sequer faltam pedidos de reformas mais ou menos acentuadas, provindos de setores diferentes. A este propósito, já a Encíclica Mediator Dei distinguia na Liturgia entre elementos de origem divina e os de determinação humana: os elementos instituídos pelo Divino Redentor não podem, é claro, ser modificados pelos homens; mas os elementos humanos estão sujeitos a modificações, sempre aprovadas pela Sagrada Hierarquia, segundo as exigências dos tempos, das coisas e das almas.

Na discussão desta manhã, intervieram, [n.e. entre outros]:

Cardeal Alfredo Ottaviani, Secretário da Sagrada Congregação do Santo Ofício:
criticou a parte doutrinária do projeto, denunciando não poucas inexatidões.
Propõe que o texto seja revisto por uma comissão de teólogos.


Mons. Jacinto Argaya, Bispo de Mondoñedo-Ferrol, na Espanha:
é pela renovação litúrgica;
elimine-se o que com o tempo se acumulou
e hoje já não tem mais significado para nós;
acentue-se mais o essencial e menos o acidental;
é preciso voltar à simplicidade evangélica.

Terminadas as intervenções de ordem geral sobre o projeto, iniciaram-se os debates sobre o proêmio e o capítulo primeiro:

Cardeal Ernesto Ruffini, Arcebispo de Palermo, na Itália:
fez uma série de pequenas observações e correções ao texto.
Insistiu no latim como “signum unitatis”.

Patriarca Maximos IV Saigh, para os melquitas de Antioquia:

falou em francês. Disse que o uso do latim, no valor quase absoluto que lhe é dado na Igreja ocidental, parece a eles, do Oriente, coisa anormal.
Cristo mesmo falou a língua de seus contemporâneos.
Os Apóstolos e discípulos fizeram o mesmo. Jamais teriam tido a ideia de,
numa reunião da comunidade cristã, ler trechos da Sagrada Escritura,
cantar os salmos e fazer a fração do pão numa língua diferente
da usada pela própria comunidade reunida.
Lembrou então a palavra do Apóstolo São Paulo aos coríntios:
“Se dizes um louvor em espírito, como poderá o não iniciado dizer
o amém à tua ação de graças? Pois  que ele não sabe o que dizes.
Tu darás muito bem graças, porém o outro não se edifica.
Dou graças a Deus que falo em línguas mais do que todos vós;
porém, na igreja, prefiro falar dez palavras com sentido para instruir outros,
a dizer dez mil palavras em línguas” (1Cor 14, 16-19). […].
Lembrou, a seguir, o exemplo da própria Igreja de Roma,
que até meados do século III usou o grego na Liturgia,
simplesmente porque era então a língua usada pelos fiéis;
e quando começaram a falar em latim, também a Liturgia de Roma introduziu o latim.
E pergunta: “Por que hoje ela deixou de adotar este mesmo princípio?”
Declara também que cada língua é litúrgica, pois diz o salmista: “Louvai ao Senhor todos os povos”.