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Preceitos dominical e natalício feitos numa só Missa?

Postado em 24 dezembro 2017 by E. Marçal

No dia 24 de dezembro deste ano acontece como algumas vezes: um Domingo do Advento coincidir com a véspera de Natal. Maior e mais confusa do que a dúvida de quando e qual Missa ser celebrada é a dúvida se deve-se participar de 1 ou 2 dessas Missas, uma vez que tanto o domingo quanto o Natal são dias de preceito: todo católico, livre de verdadeiro e duradouro impedimento, deve participar da Missa, sob risco de pecado mortal se não o fizer.

Quanto à qual Missa ser celebrada

Esta resposta é única e mais fácil. A Liturgia das Horas divide o dia em 6 partes de horas específicas para a oração, número que é maior nos mosteiros, como o exercício do “eterno louvor” (laus perennis, em latim), isto é, com maior tempo de oração. Assim, santifica o homem no dia e não o contrário. Dessas horas, uma é o limite litúrgico nos dias mais festivos.

As solenidades têm sua celebração antecipada para a tarde do dia anterior, tamanho é o valor do que é festejado. Aliás, não somente as solenidades anuais, mas a semanal, o domingo. Também os judeus antecipavam para a tarda da sexta-feira as obrigações do sábado.

Mas como saber qual a hora de antecipação?

Nessas ocasiões, a primeira celebração são as Primeiras Vésperas. Ora, as Vésperas na Liturgia das Horas são celebradas sempre após a liturgia da Hora Nona, ou seja, as 15 horas da tarde. Logo após esta hora ou a celebração da Hora Nona ocorrem as Vésperas.

Ainda para complementar este pensamento é necessário recorrer à Tabela de Precedência Litúrgica, presente nas primeiras páginas do Missal Romano. É um guia quanto à sobreposição de dias e celebrações para quando o tempo cronológico produz alguma dúvida, coincidindo 2 ou mais ofícios; ali, por exemplo, é informado se o padroeiro de um lugar é celebrado em tal domingo: se não for domingo do Advento, Natal, Páscoa, Pentecostes ou de outra solenidade universal, o santo local é celebrado, senão, não. A mesma Tabela começa acima de tudo o Tríduo Pascal, seguido, cronologicamente, do Natal e do Tempo Pascal.

Portanto, já que na Tabela o Natal do Senhor é sobreposto ao Domingo do Advento, quando chegar a hora da escolha entre as duas celebrações, a primeira tem privilégio.

Por fim, respondendo à primeira pergunta, após a Hora Nona (15h) deste III Domingo do Advento serão as Primeiras Vésperas da solenidade seguinte.

Sobre a quantas Missas para 2 preceitos juntos

A liturgia dos dias 24 e 25 de dezembro de 2017 tem 5 missas, uma ainda do Advento e quatro do Natal, a saber: 1 do IV Domingo do Advento até as 15h; e 4 do Natal (Vésperas, Noite, Aurora e Dia).

No fim da tarde do dia 24 aparentemente 2 ofícios litúrgicos se coincidirão: o do Advento e o do Natal. Mas, como dissemos há pouco, o último sobrepõe-se ao primeiro por precedência.

O domingo é naturalmente dia de preceito, como também o Natal. Portanto, ainda resta a dúvida de que para satisfazer o livre e salutar cumprimento do preceito de cada liturgia é necessário participar de cada uma das Missas ou se participar, por exemplo, da Missa da Noite (a mais comum e mais participada) do Natal, cronológica e liturgicamente entre o domingo e o Natal, é suficiente para o cumprimento dos 2 preceitos.

Sim e não. Depende, como apreciam dizer os teólogos, presumindo uma reflexão aprofundada.

Em resposta direta, simples e genérica (para todos, sem especificidades), uma só Missa não pode satisfazer 2 preceitos distintos. Diferentemente de solenidades sem Missa de Primeiras Vésperas ou de Vigília, é uma concessão que no dia anterior já seja celebrada a Missa própria. Por exemplo, não é obrigatório que no fim da tarde ou na noite do sábado do Tempo Comum o Celebrante reze a Missa própria do domingo. De qualquer modo, o ofício litúrgico celebrado não interfere no cumprimento de um preceito – e esta é uma questão ainda não resolvida entre canonistas e liturgistas: os primeiros mantêm o que acabamos de afirmar; os últimos dizem que, por exemplo, a Missa própria do Sacramento da Crisma interfere na plena celebração do mistério dominical para aqueles que não tem obrigações com aquela Crisma, como crismandos e padrinhos. Porém, à parte de opiniões e interpretações pessoais, é plenamente cumprido o preceito dominical se, por motivo pastoral ou outro sério, na Missa é celebrado o ofício próprio de um Batismo, de Primeira Comunhão, de Matrimônio, de Ordenação etc.

Dizemos tudo isso para a resposta SIM porque o preceito dominical não é prejudicado em seu cumprimento por causa da celebração da Noite de Natal.

Mas é mais clara, certa e sem dúvidas a resposta NÃO, concordando com os liturgistas. A própria Missa, por si só, é um mistério, de Sacramento que atualiza o sacrifício da cruz e a nossa redenção. E, a propósito do assunto tratado, nela são inseridos os Mistérios da páscoa semanal e do Natal de Nosso Senhor. Embora interligados e sem confusão alguma, cada um é independente e com frutos próprios. Por isso que é importante e indispensável a participação na Missa própria dominical do Advento e na Missa própria do Natal, em qualquer uma daquelas quatro que mencionamos pouco acima. É para não favorecer ou concordar com o “minima minimorum“, o mínimo dos mínimos, o pouco do que já é pouco, tal como a obrigação mínima de confessar-se e comungar ao menos 1 vez por ano: é o mínimo de um católico, pois ainda que não possa comungar por falta de estado de graça, é necessário participar das Missas durante os domingos e os outros dias santos.

Por fim, É POSSÍVEL SIM cumprir 2 preceitos com a participação em uma única missa, desde a o ofício do dia seguinte seja celebrado na véspera do dia de preceito. Isto se deve a 2 fatos: a regra (cânon 1248) do Código de Direito Canônico sobre o assunto não restringe a possibilidade de 2 preceitos em 1 Missa e é obrigatório celebrar a liturgia própria do Natal na noite do dia 24; e, reforçando a ideia anterior, ainda não há uma definição clara da autoridade competente (o Papa, clareando o que diz o cânon 1248) sobre o assunto, deixando à consciência pessoal o bom senso para agir da melhor forma, como a possibilidade verdadeira de participar ou não de 2 missas de ofícios diferentes.

Com contribuição do excelente artigo de Vítor P

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