Direto da Sacristia
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Sobre as pias de água benta (I)

Postado em 22 Março 2012por E. Marçal

Quem nunca mergulhou os dedos numa pia de água benta, ao entrar numa igreja, e fez sobre si o sinal-da-cruz?! Bem, ainda pode-se fazer isso naquelas igrejas que conservam esse venerável e antiquíssimo costume. Infelizmente, poucas mantêm isso. Neste artigo, disposto em duas partes, conheceremos a origem das pias de água benta e a sua evolução ao longo dos anos e, mais uma vez, nos convenceremos como a Igreja é uma mãe que dispõe de tudo para a salvação de seus filhos e só quer a sua felicidade, como o disse o Cardeal Rainer Woelki, Arcebispo de Berlim.

* * *

Capítulo I – Origem e matéria 

Autor desconhecido

À entrada dos templos do paganismo e no átrio das casas romanas, havia grandes recipientes de água; ali para os sacerdotes se purificarem antes dos sacrifícios; aqui para os hóspedes se lavarem à chegada à casa.

Mar de Bronze do Templo de Jerusalém
Os judeus faziam seu uso para se limparem antes de entrarem no Templo 

No capítulo XXX do Êxodo, o Senhor prescreve a Moisés que coloque um vaso de bronze entre o tabernáculo do Testemunho e o altar. Antes de se aproximarem do Tabernáculo ou do altar, os sacerdotes deviam lavar as mãos e os pés e, só depois, é que estavam aptos para oferecer os perfumes ao Senhor. Mais tarde, Salomão mandou construir no adro do Templo de Jerusalém um vasto e magnífico tanque de água, chamado Mar de bronze – Mare Æneum, onde os judeus deviam lavar-se antes de penetrarem no Templo.

A Igreja, depositária de todas as grandes tradições, teve a peito conservar também este costume que São Paulo já recomendava ao seu caro discípulo Timóteo e, na pessoa dele, a todos os fiéis: “Quero que em toda parte se ore com as mãos puras” (I Carta a Timóteo, 2, 8).

Fonte em Hagia Sophia, Istambul, Turquia

Muitos Santos Padres referem-se nas suas obras a esta prática. Não menos explícitos São Tertuliano, São Cirilo de Jerusalém e muitos outros. São Paulino de Nola chama canthari aos vasos em que os cristãos “lavavam as mãos e outras partes do corpo”.

Dom Leclercq [n.e. monge beneditino falecido em 1993] refere-se ao cantharus aquarum colocado no centro da basílica de São Paulo na Via Ostiense.

Podemos, pois, afirmar sem medo de errar que estas pias estiveram em uso corrente entre os primeiros cristãos logo desde a fundação da Igreja, como diz Eusébio [n.e. em sua História Eclesiástica].


Fonte em
Hagia Sophia ainda usada para abluções

Dada a paz à Igreja (313), esta começou a edificar publicamente majestosos templos em cujos átrios aparecem fontes destinadas às abluções. Estas fontes, pias ou piscinas, em que se purificavam o corpo, recordavam a limpeza e santidade interior, necessária para se poder transpor o limiar santo da casa de Deus. Eram também uma lembrança e imagem do batismo, como diz Eusébio: “Que estas fontes representam o banho do santo Batismo”.

Mas então a água ainda não era dotada de virtude sobrenatural, pois só mais tarde é que a Igreja introduziu a benção que fez dela um sacramental. E assim a Igreja, como a mais carinhosa das mães, substituiu às fontes primitivas as pias da água benta colocadas à entrada das nossas igrejas; eleva a água a sacramental e enriquece-a de indulgências.

Uma reminiscência desses canthari são ainda as fontes e os chafarizes dos claustros e pátios dos mosteiros e catedrais.

E na mesma linha da tradição, se encontram as piscinas, como as célebres de Lourdes, e em Portugal as de Fátima, onde, por intercessão de Maria, opera Deus tantos prodígios.

Pia batismal, ano 700, na Catedral anglicana de Wells, Inglaterra
A igreja era católica, mas foi confiscada na Reforma Anglicana 

Quantas recordações de fé e de devoção deveria suscitar em nós essa pia de água benta, adornada ou simples, de mármore ou louça, que nos espera à porta das grandiosas igrejas da cidade ou das humildes capelinhas do campo! Alfredo de Musset (n.e. dramaturgo francês do século XIX) dizia: “Quão agradável me é contemplar a cruz branca e a pia de água benta ali à entrada do austero mosteiro”.

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Vejamos agora a matéria de que eram feitos esses vasos.

As muitas escavações que se têm levado a efeito, permitem supor que era muito frequente o emprego de pedra porosa. Mas esta não era a única matéria de que deitavam mãos os primeiros cristãos. Boldetti, explorador das Catacumbas, diz ter encontrado pias de água benta, umas de mármore – sobretudo branco – outras de argila e finalmente outras de vidro.

Fonte de chumbo, ano 1140, na entrada da Capela da Virgem da Catedral anglicana de Gloucester, Inglaterra
Esta igreja também era católica, mas foi confiscada por Henrique VIII quando de sua apostasia

Sabe-se também que o metal, sobretudo o bronze, era muito empregado para construções desse gênero.


Em geral, essas pias eram de forma redonda, havendo-as, contudo, de outras formas. Só muito mais tarde é que começaram a tomar a forma de concha como se vê em muitas igrejas atuais.

A dimensão das antigas pias era considerável, como se pode julgar por vários canthari, entre os quais se destaca um encontrado em Constantinopla. Nem é para admirar que assim fosse, pois, como já dissemos os primeiros cristãos tinham de lavar neles a face, mãos e pés. Mais tarde, quando foi introduzida a bênção da água, esta dimensão tornou-se mais reduzida; porquanto há notícia de os fiéis levarem para suas casas em pequenas cápsulas água benta.

Numerosos adornos e inscrições davam um novo valor a essas obras de arte em si já tão importantes. Um desses adornos, talvez aquele que se preferia a qualquer outro, era Cruz. E ele tem-se conservado através de todos os tempos. O modo de gravar a cruz nas sobreditas pias varia de umas terras para outras. Numas, a cruz era talhada na pedra que se elevava a formar o dorso da pia; noutras, era gravada na frente, na borda. É raro encontrar-se a cruz nas pias que têm a forma de concha.

Serviam de ponto de apoio às pias ricas colunas: é o caso do cântaro, já acima mencionado da basílica do Vaticano, da de Salerno, de Ravena etc. E em muitas das nossas igrejas atuais se nota o mesmo, bem que em muitas delas a pia esteja introduzida na própria parede do tempo.

Esta redução da pia da água benta é devida, sobretudo, ao fato do atrium das antigas igrejas irem decrescendo sempre a ponto de desaparecerem por completo em muitas igrejas.

Continua…

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