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Tradição e Liturgia, por Dom Fernando Guimarães

Postado em 12 fevereiro 2014 by E. Marçal

Dom Fernando Guimarães é religioso redentorista e nasceu na Cidade do Recife (Pernambuco). Após quase 3 décadas trabalhando na Cúria Romana, auxiliando em algumas questões particulares os Papas João Paulo II e Bento XVI, testemunhando a ação do Espírito Santo em tantos assuntos e fatos, mas também julgando situações delicadas como dispensa do ministério sacerdotal, foi nomeado Bispo e assim retornou ao seu país natal com vasta experiência eclesial e grande visão sobre as transformações pelas quais a Igreja passou no longo pontificado do papa polonês e os primeiros passos próprios de Bento XVI em seu papado.

Sua Excelência nos recebeu numa sala do segundo andar do Convento do Carmo do Recife, minutos antes de presidir Missa Pontifical na Basílica do Carmo, por ocasião da titular da igreja e Padroeira secundária da Cidade do Recife, na manhã do dia 16 de julho de 2012. Em vista da data um tanto já distante — ainda mais pelas surpresas na Igreja em 2013 —, alguns pontos de suas respostas devem irrevogavelmente serem contextualizados para não perderem o sentido com que foram falados à época. No mais, suas palavras ainda são atuais e válidas como, por exemplo, a necessidade de uma sólida e definida formação sacerdotal nos seminários e a seriedade do movimento litúrgico iniciado por Bento XVI.

[youtube http://youtu.be/nSJHVCKzaTw]

Vinte e sete anos trabalhando em vários cargos na Cúria Romana lhe conquistaram uma rara experiência e visão sobre importantes assuntos da Igreja, que seriam praticamente impossíveis de adquirir senão estando no coração espiritual e administrativo da Igreja. Depois de ser chefe de gabinete da Congregação para o Clero, ter ensinado o Papa João Paulo II a falar português, e permanecendo consultor da Congregação para a Causa dos Santos, em 2008 foi eleito pelo Papa Bento XVI Bispo de Garanhuns, cargo que até hoje desempenha.

Conversamos com Dom Fernando Guimarães.

1. Excelência, o fato de trabalhar na Cúria da Arquidiocese do Rio de Janeiro contribuiu para a sua indicação como professor de idioma do Papa João Paulo II? Explico-me: o Cardeal Eugênio Sales, recentemente falecido, de quem Vossa Excelência era assessor na década de 80, na época era Arcebispo do Rio de Janeiro e muito próximo ao Pontífice.

Sim, eu trabalhei na Cidade do Rio de Janeiro até o ano 1972 – fui ordenado padre em 1971, na cidade de Campos, no convento dos Redentoristas, Congregação à qual eu pertenço. Dom Eugênio chegou ao Rio em 1971. Um ano depois, eu fui transferido para o Rio de Janeiro e comecei a trabalhar com ele, inicialmente na Pastoral da Juventude e, logo depois, fui assumindo funções na coordenação do secretariado da Pastoral da Arquidiocese e de assessoria pessoal ao Cardeal. Por uma grande afinidade, Dom Eugênio tornou-se para mim mestre de vida, meu pai no sacerdócio, com quem eu aprendi imensamente como se serve à Igreja e como se é padre segundo o coração de Deus. Mas nesta função no Rio de Janeiro, eu tinha muito contato com o então Núncio Apostólico, que era o italiano – de Nápoles, terra de Santo Afonso, nosso fundador – chamado Dom Carmine Rouco. Sempre que Dom Rouco vinha ao Rio de Janeiro – todo mês – normalmente era eu que ia buscá-lo no aeroporto, eu o levava para o Palácio São Joaquim, no Rio, e, portanto, ele me conhecia, conhecia a minha facilidade para algumas línguas. Quando, em 1980, no início do ano, se decidiu a viagem do Papa João Paulo II ao Brasil, em julho – terceira viagem de seu pontificado –, viu-se a necessidade de um padre no Vaticano que pudesse se ocupar da parte concreta da organização dessa viagem. Na época, o Vaticano não possuía padres brasileiros. Havia o Cardeal Agnelo Rossi e havia o então Bispo Dom Lucas Moreira Neves. Não havia padre. Pediram um padre ao Núncio Apostólico. Curiosamente não foi Dom Eugênio que me indicou, foi o Núncio de então. Como eles precisavam de um padre com rapidez e não era possível fazer normalmente as pesquisas que são feitas quando se chama um padre para trabalhar no Vaticano, a chave que serviu para a minha nomeação foi “é o homem de confiança do Cardeal Dom Eugênio”. Dom Eugênio, na época, tinha um grande peso na Cúria Romana e o fato de eu ser de confiança dele, fez com que eu fosse chamado em fevereiro de 1980 para prestar o meu serviço na Secretaria de Estado, preparando a primeira viagem de João Paulo II ao Brasil.

2. O que merece destaque no ensino do português a João Paulo II e o seu aprendizado? Houve nervosismo em ensiná-lo a falar na língua do país de Vossa Excelência e, depois, vê-lo se expressando graças, em muita parte, ao seu trabalho?

pa João Paulo II beija o chão em sua chegada ao Brasil. São Paulo, 12 de outubro de 1991.
João Paulo II beija o chão chegando ao Brasil. São Paulo, 12 de outubro de 1991

Nervosismo eu não digo porque João Paulo II tinha uma grande qualidade de colocar imediatamente a pessoa que se aproximava dele com muita serenidade, com muito afeto, com muita afabilidade. No meu primeiro encontro com o Papa, eu me ajoelhei – eu era um jovem padre – para beijar a sua mão e ele, com aquelas mãos fortes, segurou nos meus dois cotovelos, me levantou do chão e, com o estilo polonês, me beijou nos dois lados. Imediatamente, passou o braço no meu e, batendo, disse: “Vamos almoçar porque eu vou te dar muito trabalho nestes dias”. Então, diante de uma situação dessa, evidentemente se perdia a timidez. Para mim foi uma grande surpresa! Eu fui pego de surpresa. Dois dias depois, eu estava no Vaticano. Com mais dois dias no Vaticano, eu estava sendo recebido pelo Santo Padre e almoçando com ele. Então, para um padre que nunca tinha pensado numa situação dessa, tratou-se realmente de uma grande emoção. Mas confesso que desde o início, com essa atitude do Papa, nos sentíamos em relação a um pai: portanto, sem medo. O ensino do Português se deu praticamente 3 vezes por semana – de fevereiro até julho, quando viemos ao Brasil. Três vezes por semana nos encontrávamos na capela particular do Papa, no seu apartamento, para a celebração da Missa em português. Todas as freiras brasileiras que estavam em Roma naquele período, em pequenos grupos, eram convidadas para a Missa e elas cantavam em português, se faziam as leituras em português. O Santo Padre lia e celebrava em português. Depois da Missa, um rápido encontro com as religiosas para um agradecimento e íamos para o café da manhã. Durante este, trabalhava-se com pequenas fichas e nesses meses poucos eu tentei passar para o Santo Padre o conhecimento básico da língua. Facilitou muito o fato de ele manejava bastante bem o espanhol, porque, como padre jovem, sua tese de Doutorado foi sobre a fé em São João da Cruz. Para a tese de Doutorado, ele teve que aprender o espanhol para ler São João da Cruz no original. Portanto, a partir do espanhol, foi mais fácil trabalhar com ele. Ele tinha uma facilidade enorme para absorver. Naquele período, estava havendo a visita Ad Limina dos Bispos brasileiros. Portanto, durante todo o ano o Papa recebeu os quase 300 Bispos então do Brasil. E eu insistia para que os Bispos falassem com o Santo Padre em português. Num dia, ele brincou comigo, de manhã, dizendo: “Padre Fernando, os Bispos do Brasil não querem que o Papa fale português. E eu disse: “Por que, Santo Padre?”. Ele era muito brincalhão. Ele disse: “Porque os Bispos chegam aqui, falam italiano, falam francês, tem até quem fale polonês! – havia muitos Bispos – Só não falam português! Como eu posso praticar?”. Então, eu avisei o Colégio Pio Brasileiro, dizendo: “Por favor, os Bispos falem português. Se o Papa não entender, ele pergunta”. E, com tudo isso, ele absorveu o português de uma maneira muito rápida. Ele tinha um dom, ele tinha uma facilidade enorme para línguas. Eu às vezes costumo contar esse episódio: num dia, conversando durante o café, eu usei uma palavra – não me lembro mais qual – e o Papa não entendeu. Ele perguntou: “O que quer dizer?”. Eu disse, traduzi em italiano. Dois dias depois, eu voltei e, de repente, o Papa cria uma frase em que usava aquela palavra. Quando ele usou a palavra, de maneira perfeita, própria, ele parou, olhou para mim, franziu os olhos – era a maneira que ele tinha quando queria brincar – e ficou olhando para mim assim com meio sorriso, esperando para ver o que eu ia dizer. Ele não disse nada, disse: “Usei, aprendi”. Então, era uma grandíssima facilidade que o Santo Padre tinha, de modo que foi um aprendizado baseado no essencial, para o manejo da língua. Mas que o Santo Padre conservou depois pelo resto da vida, até os últimos dias da sua vida.

3. Após a primeira viagem apostólica do Papa João Paulo II ao Brasil, Vossa Excelência continuou trabalhando na Secretaria de Estado ou já foi transferido para a Congregação para o Clero?

Após a viagem, eu ainda passei 1 ano e meio na Secretaria de Estado. Eu não era como eles chamam lá de ruolo, era Oficial, eu era contratado por horas. Continuei na Secretaria porque tinha-se que publicar o texto oficial dos discursos, no Acta Apostolica Sedis, que é uma espécie de Diário Oficial do Vaticano. Tinha-se que se responder todas as cartas, os agradecimentos. Eu fiquei ainda praticamente quase 2 anos na Secretaria de Estado, para terminar esse trabalho. Depois disso, eu aproveitei que estava em Roma para fazer o meu Doutorado em Teologia Moral e em Direito Canônico. Não dava para continuar na Secretaria de Estado. Dom Lucas Moreira Neves, então Secretário da Congregação para os Bispos, pediu que eu continuasse colaborando na Congregação para os Bispos, estudando os relatórios das visitas Ad Limina do episcopado brasileiro. Fiquei mais alguns anos até terminar o Doutorado, quando então passei para a Congregação para o Clero, aí já como Oficial da própria Congregação, onde fiquei até a minha eleição ao episcopado, em 2008.

4. Com quais casos, que podem ser mencionados, Vossa Excelência lidou ou tomou conhecimento na Congregação para o Clero?

A Congregação para o Clero funciona como um ministério de Estado que ajuda o Santo Padre em tudo aquilo que diz respeito aos padres – ministério, vida, disciplina –, às paróquias, aos santuários e aos bens patrimoniais que pertencem à Igreja, bens de dioceses e paróquias. Portanto, ao longo desses anos, muitas questões disciplinares. Então, nesse sentido o meu trabalho bastante perto com o Cardeal Ratzinger, porque por parte da Congregação para o Clero acompanhei também com ele, que então presidia a Congregação para a Doutrina da Fé, toda a dolorosa questão da pedofilia, inicialmente nos países de língua inglesa, na época. Tratei, já como responsável pelo setor da Congregação, a nova constituição jurídica do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, no México. Também a nova constituição jurídica do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal. E, nos últimos anos, quando o Papa Bento XVI passou para a Congregação para o Clero a questão das dispensas dos padres, eu fiquei encarregado também desse setor. Então, tratei de todos os casos de abandono de sacerdócio no mundo inteiro, que é uma competência exclusiva, que diz respeito às Igrejas Orientais e Ocidentais de todos os continentes. Tratei, portanto, nos últimos anos da situação das crises sacerdotais e dos abandonos.

Muitas ultimamente?

Têm diminuído ao passar dos anos. Aliás, as estatísticas se encontram todas no site da Congregação para o Clero: www.clerus.org. Nós temos lá um setor de estatística, onde todas as estatísticas são apresentadas de maneira muito clara, de maneira muito aberta. O número tem diminuído nos últimos anos ou, estatisticamente, tem aumentado o número de ordenações sacerdotais dos padres diocesanos, enquanto que, infelizmente, no clero religioso continua ainda a queda estatística, que é bastante acentuada, embora em um ou outro lugar do mundo já se nota uma pequena recuperação. No clero diocesano, essa recuperação, com raríssimas exceções – que eu costumo chamar “alguns buracos negros” – o centro da Europa, os Estados Unidos, mas que agora parece estar revertendo a situação. Mas no resto do mundo, o número do clero diocesano tem aumentado, o que significa que, numa projeção estatística para os próximos anos, a médio prazo, teremos, evidentemente diminuindo o número de mortes e de abandonos, aumentando o número de ordenações, uma baixa na idade média do clero, em geral, e também o número dos padres que são ordenados daqui a alguns anos será superior ao número dos padres que morrem e que abandonam. É a nossa esperança e a necessidade dos Bispos trabalharem com entusiasmo, com coragem, com audácia na pastoral vocacional nas próprias dioceses.

5. Vossa Excelência, vivendo no Brasil até o ano de 1980, viu de perto as desastrosas consequências provocadas por quem entendeu mal o Concílio Vaticano II e o aplicou segundo suas erradas concepções: uma crise religiosa e relativismo tanto por parte dos leigos quanto do considerável parte do clero. O que fez com que nascesse uma nova, embora ainda pouco numerosa, geração de padres e bispos, não só no Brasil, mas em toda a Igreja? Corre-se o risco de alguns deles serem apenas envolvidos de vaidade ou levados por uma “moda”?

Em primeiro lugar, o que contribui sempre para que a Igreja supere suas crises é a ação do Espírito Santo. A Igreja é divina na sua instituição e na sua essência, embora formada por seres humanos e, portanto, falíveis. Esta oposição entre o lado humano da Igreja e a sua realidade divina existe desde o primeiro século. Quando lemos a História da Igreja, ao longo dos séculos, sempre percebemos esses altos e baixos. Evidentemente, após o Concílio Vaticano II – Concílio legítimo da Igreja, convocado pela assistência do Espírito Santo, mas um Concílio que quis ser pastoral e não necessariamente dogmático, tudo aquilo que foi estudado – a sua interpretação gerou evidentemente alguns abusos que se espalharam. Hoje, depois de 50 anos, estamos agora retomando a celebração do Concílio Vaticano II com o Ano da Fé, que é uma ocasião especial que o Papa [então Bento XVI] está proporcionando para que retomemos o legítimo Concílio Vaticano II. Fala-se de um “espírito”… não existe um “espírito”! Existe o Vaticano II! O que os Padres votaram e ensinaram e é este texto que nós devemos retomar, meditar, estudar, aprofundar e viver a prática. Portanto, eu creio que a própria História, o próprio desenvolvimento dessa História e a assistência do Espírito Santo foram levando a uma reconsideração, não para negar, mas para purificar esta geração nova que não viveu a passagem do antigo para a renovação – é uma geração menos imbuída de preconceito. No meu tempo de professor, quando dava aula de Teologia, podia perceber isto: como eles descobrem admirados a riqueza tanto do texto do Concílio Vaticano II, como dos Concílios anteriores e do Magistério da Igreja. Uma função providencial de Bento XVI tem sido essa, é lembrar que o Concílio deve ser lido e vivido em continuidade com a toda a Tradição da Igreja. A Igreja não nasceu no Vaticano II. O Vaticano II é uma etapa dessa Igreja. A Igreja nasceu do coração aberto de Cristo na cruz. É para isto que nós temos que voltar.

6. Sendo muito próximo de padres e fiéis liturgicamente sensíveis ao imenso tesouro espiritual do rito antigo, Vossa Excelência percebe a impressionante e irreprimível ascensão da busca por aquilo que nunca deixou próprio do culto católico: beleza, sobriedade e sacralidade, e em latim e tudo aquilo que podemos ver também na missa tridentina. Como pode ser explicado esse fenômeno, tão recente, mas tão forte? Processo natural após anos difíceis ou resultado do esforço de muitos?

Bento XVI bênção Evangeliário casula fano pálio cravos Anel Pescador
Bento XVI abençoa a todos com o Evangeliário
Missa da Noite de Natal, 24 de dezembro de 2012

Mais uma vez, eu creio que é a ação do Espírito Santo, presente na Igreja. Em segundo lugar, é uma reação natural do povo, a alma essencialmente católica, uma reação aos inumeráveis e absurdos abusos que se cometem por aí afora, em nome de uma falsa reforma litúrgica e esvaziaram a liturgia romana da sua riqueza, como você mencionava. Em terceiro lugar, é a ação extraordinária de poucos grupos que entraram nesta luta, nesse esforço para salvaguardar o patrimônio da Igreja, como foi reconhecido já pelo Papa João Paulo II e atualmente pelo Papa Bento XVI. O Motu Proprio Summorum Pontificum, no qual o Papa abriu a possibilidade, o direito dos padres e fiéis de terem também a Missa celebrada segundo o rito que durante 2 mil anos foi o rito da Igreja Católica, está garantindo, ao meu ver, uma nova visão, uma nova perspectiva deformação na Liturgia. Eu diria que não se trata de uma volta nostálgica ao passado, não se trata – como pretendem alguns muito mal informados – de uma abertura do “museu”, mas se trata de perceber a alma católica da Liturgia. Eu creio na intenção do Papa Bento XVI: as duas formas – a forma ordinária e a forma extraordinária – vão se ajudar mutuamente. É a experiência que eu tenho com padres jovens, por exemplo, que não aprenderam latim, não conhecem a forma extraordinária, mas quando vão fazer retiro, por exemplo, na Administração Apostólica, em Campos; padres que vão fazer retiro em algumas abadias beneditinas da França – eu conheço bem – que conservam o rito antigo; padres meus, da minha Diocese, que participaram desses encontros sobre o rito, que após assistirem à celebração da Missa, disseram: “Dom Fernando, eu aprendi a celebrar melhor no nosso rito ordinário”. Eu creio que isto está contribuindo e vai contribuir muito, apesar de todas as resistências que ainda existem. Essas resistências vão cair.

7. Em novos tempos, onde discursos de fé manipulada, politizada e recheada de marxismo já não convencem e não respondem à realidade e aos anseios dos fiéis, qual o futuro da Igreja e as diretrizes mais eficazes para que nem os fiéis se sintam abandonados, nem haja sacerdotes sem uma identidade que lhes é própria, como no passado?

Young priests wait for Pope Benedict XVI's arrival to attend a meeting at the Romano Maggiore seminary in Rome
Seminaristas reunidos na Capela Principal do Seminário Maior Romano
Visita de Bento XVI por ocasião da Festa de Nossa Senhora da Confiança, 12 de fevereiro de 2010
© Imagem: Alessia Pierdomenico

Veja: quando o Santo Padre São Pio X tornou-se Papa, uma das primeiras preocupações dele – e é um trabalho extraordinário, eu vi teses doutorais e livros publicados sobre isso – foi a reforma dos seminários. Eu creio que um trabalho essencial no momento é a formação da nova geração de padres. Formação integral, formação explícita para o padre que a Igreja precisa e que a Igreja quer! A superação do subjetivismo para uma redescoberta alegre e feliz da grande disciplina da Igreja. Portanto, o investimento na formação é essencial. A promoção do laicato como está sendo feita, na medida em que esses leigos engajados encontram padres que são autênticos pastores segundo o coração de Deus: a comunidade inteira cresce! Em terceiro lugar, o cuidado com a Liturgia, que também o Santo Padre Bento XVI tem dado um exemplo extraordinário, tem atraído e arrastado com seu exemplo. Eu creio que estamos vivendo um momento de graça na Igreja. Levará tempo sim: todas as grandes mudanças, sobretudo as mudanças profundas, elas são feitas também com o passar do tempo. Mas o caminho hoje é um caminho irreversível e claro: todas as ideologias, todas as vãs preocupações até então – por você mencionadas – hoje elas se esvanecem como fumo, poucas pessoas ainda perseguem esse tipo de coisa. A própria história comprovou! Eu creio que a Igreja é chamada a retomar com entusiasmo, com fé a sua identidade.

8. Sabemos que a Igreja nunca esteve livre de desafios, até mesmo em seu seio, entre aqueles que deveriam ser mais fiéis a Ele. Porém, quais são os sinais de esperança que vemos hoje, de que a Igreja não se esquece do que é, de sacerdotes que não se esquecem do que são, do culto do Senhor, da cura dos fiéis e da assistência espiritual e humana, enfim, tudo o que é próprio daqueles que decidiram por seguir a vocação sacerdotal?

Eu creio que esse blog é um dos sinais de esperança mostrando que uma nova geração está surgindo na Igreja. Na grande Festa do Carmo do Recife – é a segunda vez que tenho o privilégio, a graça de presidir o Pontifical das 10 horas – a quantidade de jovens religiosos que vemos, a fé do povo simples, essa fé profunda que nós encontramos ainda em tanta gente, apesar de todos os problemas que a Igreja enfrenta, são sinais que um tempo novo está sendo gerado. E eu só posso pedir que Maria Santíssima ajude, como Mãe, esta nova caminhada da Igreja.

Agradecemos a Vossa Excelência essas palavras, nas quais foi possível descobrirmos o seu trabalho no Vaticano, a sua contribuição e agora, como Bispo de Garanhuns, com mais instrumentos para ajudar para o bem da Igreja. E pedimos que suas orações nos coloque, como também colocaremos Vossa Excelência, que daqui a pouco – como foi falado – celebrará um solene Pontifical em honra de Nossa Senhora do Carmo. E também rezaremos pela passagem do seu aniversário de ordenação presbiteral, agora em agosto, para que Deus sempre o torne mais fiel a essa Igreja à qual o senhor se consagrou e que possa ajudar ainda mais os fiéis a serem conduzidos a Cristo e a ajuda a sua Diocese também.

Eu agradeço de coração e desejo que todos possam viver a alegria da fé, nesta Ano da Fé que estamos para iniciar. Abençoe-vos o Deus Todo-Poderoso Pai, Filho e Espírito Santo.

O renascimento católico, segundo Dom Henrique Soares

Postado em 14 setembro 2013 by E. Marçal

Essa entrevista fora marcada 3 semanas antes. Dom Henrique gentilmente nos atendeu e prontamente aceitou o convite. Marcamos para conversar antes da celebração do dia 13 de julho de 2012 da Novena de Nossa Senhora do Carmo do Recife, na qual ele pregaria.

No dia marcado, chegamos ao Convento do Carmo. Ainda não conhecíamos pessoalmente aquele sábio bispo. Encontramo-lo sentado na recepção, conversando com uma religiosa. Após alguns minutos de espera e a nossa apresentação, dirigimo-nos para a sala-de-estar situada no segundo andar do centenário prédio no centro da capital pernambucana. Era nossa primeira entrevista e, além disso, a famosa figura de nosso convidado não nos permitia a calma necessária para a gravação de tudo. Devido a isso, nem notamos a baixa luminosidade da sala nem a pressa como fazíamos as perguntas (risos), as quais ele pediu para ouvir antes e, depois de pouco tempo, já estávamos gravando. O problema da iluminação não nos permitiu muito ser corrigido: por ele repetidas vezes pedimos desculpas e prometemos corrigi-lo nas próximas entrevistas. E quanto ao estado nervoso de nosso entrevistador (risos), julgamos por bem substituir as perguntas mal feitas e com voz trêmula, por textos exibindo o resumo delas.

Afinal, temos um áudio compreensível e um vídeo onde podemos assistir à explicação do Bispo sobre assuntos ainda atuais. Por isso que não desistimos da ideia de publicarmos esta entrevista mesmo após mais de 1 ano de sua gravação. Veremos como ele nos fala de seus anos de formação sacerdotal em tempos mais difíceis do que os nossos, durante o nascimento e o rápido apogeu da “Teologia” da Libertação. Também esclarece os objetivos e a reta intenção do Concílio Vaticano II e de seus documentos, onde está, inclusive, exposto o “sensus fidelium”, o reconhecimento dos fiéis do que é e do não é católico. Assim ele determina que o “renascimento litúrgico”, iniciado e insistentemente defendido pelo então Papa Bento XVI, é genuinamente católico e legítimo, uma resposta para os tempos atuais. Por fim, interpreta a Igreja no Brasil hoje.

Os seus 49 anos de idade e pouco mais de 3 anos de sua sagração episcopal não o impediram de se desenhar no episcopado brasileiro como uma nova voz para os tempos atuais. Expõe seu pensamento e a doutrina da Igreja em homilias comuns, além de fazê-lo em pregações e palestras onde quer que o convidem. Nas comemorações do segundo aniversário do blog “Direto da Sacristia”, conversamos com o Bispo Auxiliar de Aracaju, Dom Henrique Soares da Costa.

 

1. Excelência, assim como o mundo, a Igreja também passou por transformações. E o fato de não observar um rumo certo para acompanhar essas mudanças, foi uma das causas da crise religiosa que igualmente é vista dentro da Igreja. Vossa Excelência vive a diferença de dois períodos históricos: hoje já não vive o Papa de anos atrás, Vossa Excelência já não é mais seminarista, mas um bispo, e vivemos em outra época. Qual realidade a Igreja vivia em seus anos de formação sacerdotal e o que isso provocou hoje no cenário religioso brasileiro?

Primeiramente, eu não diria que a Igreja não seguiu um rumo certo. É preciso que compreendamos o tempo de hoje olhando toda a história da Igreja. Nós ainda estamos no período pós-conciliar. Todas as vezes que houve na Igreja um concílio de grande porte, o período depois do concílio sempre foi turbulento; sempre, isso é normal. É um período, é como um terremoto, uma “rearrumação” do terreno. Então, é o que nós estamos vivendo.

Muitos acusam o Concílio Vaticano II, o veem como um mal. Isso é um engano. Era necessário um Concílio Vaticano II. O problema não está no Concílio; o problema está nas interpretações que se fizeram do Concílio, no famoso e maldito “espírito do Concílio”. O “espírito do Concílio” é um fantasma, é um demônio que deve ser exorcizado. Porque o verdadeiro “espírito do Concílio” só se encontra no texto do Concílio. Se você pega o texto do Concílio Vaticano II, por exemplo, o texto da Sacrossanctum Concilium, o texto da Lumen Gentium, toma-se um susto: “mas, meu Deus, o Concílio prega isso? Então, não prega essas loucuras que se dizem, que se fazem?” Então, a Igreja não tomou um rumo errado. A Igreja percebeu que era preciso realmente se reorganizar, porque estamos numa revolução social como nunca tivemos antes. Pela primeira vez a maioria da população mundial é urbana; os meios de comunicação, que são um fenômeno novo, fizeram com que a família já não tenha quase nenhuma incidência sobre as pessoas. Antigamente, as pessoas nasciam dentro de uma tradição, e, a partir dessa tradição, elas se compreendiam, elas assumiam os valores dessa tradição e [a tradição] formava a vida delas. Hoje não é mais assim. Hoje, cada pessoa parece que começa do zero a sua vida, já não é mais o meu ambiente, já não é mais a minha família que me introduz nos amores da vida, mas os meios de comunicação. Então, a Igreja teve que se – eu vou usar uma palavra que não gosto – modernizar – mas, com bem aspas – para poder continuar cumprindo a missão dela. Então, o Concílio Vaticano II – eu repito – é uma bênção para a Igreja. O uso que fizeram do Concílio tem sido ainda muito confuso.

Você me perguntou pelo o meu tempo de seminário. Eu peguei sim ainda o pontificado de João Paulo II todo no seminário e, meu Deus, como era confuso! Como era pior do que hoje! Contraposições tremendas, a Teologia da Libertação na sua época mais virulenta. E a Teologia da Libertação – e é preciso que se diga, muitos não gostam quando dizem – mas, ela fez mais mal do que bem à Igreja. A preocupação social é um bem, a percepção que existe um pecado não só pessoal, mas um pecado social é verdadeira, é um bem, mas fazer, como a Teologia da Libertação fez, instrumentalizou a fé em função da questão social, usou análise marxista muitas vezes – algumas vezes explicitamente, outras vezes implicitamente –, mas usou e ninguém pode negar isso. Além de causar, como o próprio Santo Padre Bento XVI disse a um grupo de bispos brasileiros na visita ad limina, que causou muito mal, muita insubordinação e esvaziou muito da sacralidade e da fé de tantos do clero, de tantos da vida religiosa. E estamos vendo o resultado aí: nós estamos num período de crise na Igreja, e essa crise atual é fruto da crise plantada nos anos 60 e 70 e primeira metade dos anos 80. João Paulo II começou a reordenar, a redirecionar o modo de se viver, de se compreender o Vaticano II, e agora o Santo Padre Bento XVI continua esse trabalho com a famosa expressão “hermenêutica da continuidade”.

Hoje existe menos contraposição na Igreja, existe menos polarização. Graças a Deus! Mas, infelizmente, esse processo de dessacralização, esse processo, essa crise de fé na Igreja, ainda está muito presente. Mas, existem já indícios que nos fazem ter esperança. Agora, é importante entender uma coisa: a Igreja não é nossa, é de Cristo. É Ele quem a guia. Ele sabe, Ele não nos abandonou. Ele sabe o que quer e por onde está guiando a Igreja. Quem perseverar até o fim, quem for fiel vai resistir, vai permanecer até o fim.

2. Mesmo com a resistência de alguns, a Igreja vive o que podemos chamar de um renascimento católico. Há discussões mais sérias e observações fiéis da Teologia, Liturgia e do nosso patrimônio espiritual. Isso a que assistimos é um processo – digamos – natural depois de anos difíceis ou começa a ser o resultado do esforço de muitos que já não toleraram o cenário teologicamente heterodoxo do qual a Igreja foi muitas vezes palco nas 4 últimas décadas?

As duas coisas. Primeiro, é uma reação aos exageros de antes. É preciso entender: por exemplo, quando você diz “renascimento católico”, é que na verdade as gerações jovens estão cansadas da secularização, estão cansadas dos relativismos teológicos, que levam ao relativismo moral, estão cansadas de católicos, de padres, de religiosos que escondem a identidade em nome de um diálogo com o mundo. É um diálogo mentiroso; um diálogo que nega a identidade não é diálogo, é simplesmente rendição. Nós dialogamos quando mantemos a nossa identidade, aí o diálogo é verdadeiro. Respeito a identidade do outro e mantenho a própria identidade. Então, existe já um cansaço desse modelo de um diálogo com o mundo sem critério, de um diálogo com o mundo que na verdade mascara a nossa identidade.

Graças a Deus há uma geração jovem sim e que incomoda muito, incomoda e assusta. E, a mim mesmo, me alegra muito, porque é o futuro da Igreja. Entende? Uma geração jovem que quer seriedade. Temos que entender que o jovem de hoje não é o dos anos 60. O jovem dos anos 60 contestava; o jovem cristão de hoje quer redescobrir suas raízes. Em geral, se diz assim: são doentes, têm saudade do que não viveram. Essa afirmação é falsa. Eles são sadios, eles têm neles o “DNA católico”. Aquilo que o Concílio Vaticano chamou de sensus fidelium, o instinto que os fiéis têm para as coisas de Deus, o instinto que o Espírito Santo – isso é Vaticano II puro – suscita na Igreja para que o povo de Deus distinga instintivamente o que é e o que não é católico. Então, os que os jovens de hoje têm é saudade, não é do que não viveram, das suas raízes católicas. Agora, é claro, nos compete educar essa saudade. Porque, se não educar, se torna uma coisa artificial. Por exemplo, o interesse pela Liturgia pode degenerar em esteticismo, entende?, em “pastoral de paninho”, e não é essa a questão! O problema é que a juventude vê aqueles valores que muitas vezes foram negados e quer voltar a eles, mas não sabe como; quer recuperá-los, esse recuperar não pode ser simplesmente voltar – o tempo não anda para trás – Cristo nos espera na frente, mas é exatamente o que o Santo Padre Bento XVI disse: uma “hermenêutica de continuidade”; ou seja, o homem sábio tira do seu tesouro, como diz Jesus, coisas novas e velhas. Então, exatamente como o Santo Padre Bento XVI propõe: nem mais nem menos. Caminhar para frente, não para trás, sem negar o futuro.

Agora sabendo distinguir, porque, por exemplo, às vezes eu vejo uns discursos – sobretudo, nos ambientes mais tradicionalistas – que são insustentáveis hoje. Por exemplo, sobre a liberdade religiosa: a questão do reino de Cristo na terra, o reino social de Cristo. Não adianta, esse discurso hoje em dia não faz parte da fé da Igreja, esse discurso era um modo de interpretar uma realidade numa conjuntura em que existia uma sociedade ainda cristã. Hoje a sociedade não é cristã. Hoje, Cristianismo voltou a ser uma religião de minoria. Então, nós temos que distinguir o que é essencial do que é conjuntural, do que é próprio do contexto de uma época. Isso ainda temos que aprender muito, a discernir em que progredir e o que conservar de um modo sadio. Mas, vamos adiante. Há sinais de esperança na Igreja e o Santo Padre Bento XVI nisso é um referencial indispensável.

3. Com isso, o que podemos esperar do futuro do ensinamento, da vida e da atuação da Igreja? Como o clero brasileiro é formado atualmente? O que ainda é necessário mudar?

Essa pergunta é muito complexa. Existem sinais de esperança, como eu já disse: existem muitos, muitos jovens que desejam uma Igreja mais focada na pregação do evangelho, uma Igreja que recupere os valores do sacro na Liturgia, e eu aplaudo e apoio esses jovens e entendo perfeitamente o desejo deles. Perfeitamente. Como eu digo, é preciso purificar para não ficar uma coisa folclórica, uma “pastoral de paninho”, uma busca não inteligente de passado, porque temos que entender isso, volto a dizer, a questão da “hermenêutica da continuidade”: vai-se para frente, recuperando, conservando aquilo que é importante.

Uma outra coisa: quanto à formação hoje nos seminários e nas casas religiosas; eu vejo com preocupação o seguinte: estão se formando dois tipos bem diferentes de religiosos e de padres: uns ainda segundo aquela mentalidade dos anos 60, 70, de secularização, de descaracterização do próprio a nível religioso; mas, por outro lado, vai crescendo, aos pouquinhos, mas de modo constante, uma busca de resgatar os valores que foram perdidos. Estamos hoje assim. Com duas, não se contrapõem, não há uma guerra, mas há estão no ar essas duas. Eu tenho medo que no futuro isso gere um choque muito grande, quase como se fossem duas Igrejas.

É preciso enfrentar com mais seriedade, com mais calma, essa questão da formação: “que tipo de formação nós queremos?” Mas, nós em comunhão com o Santo Padre, nós como a Igreja orienta: “que tipo de formação a Igreja gostaria para os seus padres, para os seus religiosos?”. Escutar mais Roma – isso é uma palavra maldita para muita gente. Mas, Roma! Cristo confiou a Pedro o pastoreio da sua Igreja. Claro, aos bispos também, em comunhão com Pedro. A referência deve ser Roma, deve ser o Magistério do Santo Padre. Então, acho que se levarmos mais a sério isso, conseguiremos uma formação do clero, dos religiosos mais – como eu diria? – mais equilibrada e sempre nessa linha, a continuidade, na evolução, a continuidade caminhando para frente.

É um desafio. Nós estamos ainda numa época de transição; é preciso esperar um pouquinho para ver. Mas, há sinais de esperança em toda essa crise. E as vocações aumentam naqueles ambientes onde essa dessacralização tem diminuído. Quanto mais dessacralizar, mais haverá crise de vocação e outras crises mais. Então, isso já está claro. Falamos tanto em ver os sinais dos tempos. Os sinais estão aí. Não vê quem não quer.

“O vinho derramou-se”. O que fazer?

Postado em 01 setembro 2013 by E. Marçal

Podem acontecer acidentes durante a Missa, tais como cair um inseto dentro do vinho consagrado ou o Celebrante passar mal. Apesar de serem detalhe e raridade, são situações que acontecem e devem ser objeto de preocupação sobre o modo de corretamente proceder em suas ocorrências. Para isto, recorremos ao Missal antigo, visto que o Missal de Paulo VI não dispõe dessas orientações práticas e, assim, é enriquecido com resoluções centenárias e eficientes. Certamente não será bobagem ou preocupação desnecessária àqueles que se preocupam com a Santíssima Eucaristia e com a dignidade do culto. Imaginamos que todos se preocupam.

Canto apropriado para ser ouvido durante a leitura
 

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Canon Missa rito ambrosiano casula romana dourada missal

1. A igreja ou o lugar onde é celebrada a Missa é profanado

Se se deu antes da Oração Eucarística, o Celebrante retira-se do altar; se foi durante a Oração Eucarística, continua a Missa.

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2. Ocorre algo que impeça a celebração naquele momento, tal como inundação, ataque ou desabamento

O Celebrante, se ainda não consagrou [as duas Espécies], retira-se; se já tiver consagrado, pode comungar imediatamente e omitir as restantes cerimônias.

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3. O Celebrante ou morreu ou subitamente fica enfermo, de modo que não pode mais concluir o Sacrifício

Se isto lhe sucedeu entre a consagração da Primeira Espécie e a Comunhão, a Missa deve ser continuada por outro sacerdote a partir do lugar em que foi interrompida. Se não se sabe onde se parou a celebração, julga-se pela posição do Missal, da hóstia etc. Se se duvida se tinha feito a Consagração, repete-se a Consagração sob condição [desta não ter ocorrido], sobre a mesma ou nova matéria.

Se o acidente aconteceu quando o Celebrante estiver a meio da fórmula da Primeira Consagração, não é necessário continuar a Missa. Se, porém, aconteceu em meio à fórmula da Segunda Consagração, o Sacerdote que continua a Missa repete a fórmula da Consagração a partir do “Do mesmo modo…”, ou sobre o mesmo cálice ou sobre outro oferecido (refere-se a um cálice com novos vinho e água e com a oração do ofertório) mentalmente, e, neste caso, toma o vinho do primeiro cálice depois de comungar o Preciosíssimo Sangue, antes das purificações ao fim da Comunhão.

Se o Sacerdote que adoeceu pode comungar, o Sacerdote que continua a Missa dá-lhe a comungar.

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4. Um inseto ou qualquer impureza cai dentro do cálice antes da Consagração

O Celebrante depõe aquele vinho num vaso que depois da Missa esvaziará segundo uma purificação digna; coloca no cálice outro vinho e água, oferece-o (segundo a oração do ofertório) mentalmente e continua a Missa.

Se foi depois da Consagração e pode tomar sem repugnância aquela impureza juntamente com o Preciosíssimo Sangue, continua a Missa sem se perturbar.

Se sente repugnância, extrai a impureza, põe-na num vaso, purifica-a com vinho (se for inseto e ele ainda estiver vivo, se tenha cuidado de não perdê-lo de vista), e continua a Missa. Depois da Missa, queima aquela impureza e dispõe a cinza junto à purificação que é feito às alfaias depois da Missa.

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Diácono água vinho cálice Missa
“Da nobis per huius aquae et vini mysterium, eius divinitatis esse consortes, qui humanitatis”
“Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade do Vosso Filho…”

5. Cai no cálice algo venenoso ou que provoca vômito

Se isso acontece antes da Consagração, o Celebrante procede  como no número 4.

Se acontece depois da Consagração ou, se tendo caído antes e só for notada depois da Consagração, o Celebrante coloca o vinho consagrado em outro cálice, prepara novo vinho para a Missa, oferece-o, consagra-o e continua a Missa. Depois desta, molha um pano de linho com o Preciosíssimo Sangue e põe no sacrário até que a Espécie do vinho estar inteiramente seca. Queima o tecido e dispõe a cinza dignamente.

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6. Algo venenoso toca na hóstia consagrada

Põe-na em outra patena ou num cálice para guardá-la no sacrário até se corromper, e continua a Missa depois de ter oferecido e consagrado outra hóstia. Depois de corrompida, dá-lhe destino digno.

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7. Fica dentro do cálice a partícula da hóstia consagrada e misturada ao Sangue no Rito da Comunhão

Isso pode acontece quando o Celebrante vai comungar do Sangue. Ele a traz com o indicador até a borda do cálice e a toma antes da purificação deste, ou coloca um pouco de vinho no cálice e toma-a quando beber o líquido.

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8. A hóstia aparece partida ou cortada

Se foi antes do ofertório, o Celebrante põe-na à parte e pega outra hóstia, a não ser que tenha de esperar muito.

Se foi depois do ofertório e antes da Primeira Consagração, o Celebrante deve consagrá-la.

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9. Por descuido ou acidente, a hóstia consagrada cai dentro do cálice

Se só parte da hóstia caiu, o Celebrante continua a Missa, fazendo todas as cerimônias, se for possível, com a outra parte da hóstia.

Se caiu no cálice a hóstia inteira, o Celebrante não a retira, mas omite na continuação da Missa todas as cerimônias que devia fazer com ela. Toma juntamente o Corpo e o Sangue de Jesus, dizendo: “O Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo me guardem para a vida eterna”.

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LISA JOHNSTON | lisa@aeternus.com  lisajohnston@archstl.org  His Eminence Raymond Cardinal Leo Burke | Prefect of the Apostolic Signatura | Archbishop Emeritus of St. Louis in front of the shrine to the Sacred Heart of Jesus in the Cathedral Basilica of S
Cardeal Burke mantém os dedos indicadores e polegares junto durante o Cânon
em Missa celebrada nos EUA em agosto de 2013
(Copyright Lisa Johnston)

10. Num frio intenso, o vinho consagrado se congela

O Celebrante cerca o cálice de panos quentes ou, se for preciso, mergulha-o com cuidado num vaso com água quente, junto do altar, até a Espécie se liquefazer novamente.

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11. Alguma gota do Preciosíssimo Sangue cai 

Se caiu no pavimento ou num lugar de madeira, o Celebrante recolhe-a, se possível, com a língua, senão com um pano de linho; em seguida, raspa a madeira, deixa enxugar as raspas e o pano e queima tudo e se desfaz da cinza dignamente, bem como purifica assim o instrumento com o qual se serviu para raspar.

Se caiu na pedra do altar ou na patena ou no pé do cálice, recolhe-a como dito anteriormente, lava esse lugar e se desfaz dignamente da água de purificação.

Se caiu no corporal, nas toalhas, nos paramentos ou no tapete, lava por três vezes o dito lugar e se desfaz dignamente da água de purificação.

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12. Todo o vinho consagrado se derrama

Se sobraram apenas algumas gotas no cálice, toma estas na Comunhão e, quanto à parte derramada, procede como nos números anteriores sobre isto.

Se não ficou nada no cálice, prepara, oferece e consagra um novo vinho com água.

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13. O Celebrante vomita todas as Espécies que comungou

Se recebê-las de novo causaria repugnância, deve retirá-las e pô-las num vaso no Sacrário até ficarem corrompidas, desfazendo-se dignamente delas depois.

Se, por não se distinguirem as Espécies, elas não possam ser novamente comungadas pelo Celebrante, este embebe o vômito em pano de linho e o queima e se desfaz da cinza.

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14. Uma hóstia ou fragmento cai

Se foi no chão, recolhe-se com reverência, lava-se o lugar, raspa-se e destas se desfaz dignamente.

Se foi numa toalha ou em qualquer outro pano, lava-se o lugar com todo o cuidado e se desfaz dignamente da água de purificação.

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15. Encontra-se uma hóstia sobre o altar, na patena ou num vaso

Se há dúvida se foi consagrada, guarda-se no sacrário, mas não no cibório, para ser consumida na Missa depois da Comunhão do cálice.

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A solução destes casos inspirará ao Celebrante como ele poderá resolver qualquer outro imprevisto que possa acontecer, sempre tendo como regra a prudência e o bom senso, com a reverência devida a tão augusto Mistério.