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E veio a férula de Paulo VI

Postado em 14 abril 2013 by E. Marçal

Pope Paul Vi Between 1975 -1978

O que conhecemos como “férula de Paulo VI” é, na verdade, o terceiro e último modelo da insígnia usado por ele:
Não temos data da primeira foto. A segunda é novembro 1970, em Missa na Catedral de Sydney.
A terceira é no Domingo de Ramos de 1974

No artigo anterior sobre a férula papal, vimos a sua origem e razão e a restrição de seu uso que com o passar do tempo começou a existir. Numa foto, é possível ver João XXIII usando a férula na bênção final da Missa de abertura do Concílio Vaticano II – eram as primícias da restauração do uso integral da férula, com as mesmas cerimônias do báculo episcopal, que atingiu a plenitude com Paulo VI. Ainda na missa de sua coroação pontifícia, em 30 junho 1963, a insígnia não foi usada como o seria a partir de 08 dezembro 1965, encerramento do Concílio Vaticano II, quando pela primeira vez Paulo VI usou a férula desenhada e fundida pelo escultor napolitano Lello Scorzelli. O novo desenho, em prata, apresenta o Cristo numa cruz de braços encurvados, lembrando o báculo dos bispos orientais, e em superfície fosca.

João Paulo II pluvial férula 3 barras abertura Ano Redenção 25 março 1983

João Paulo II com a milenar férulas de 3 barras, conhecida por “hierofante”, do grego, “o alto demonstrador da sacralidade”
O número de barras tem a ver com o triregnum:
indicador do poder temporal, da plenitude do poder eclesiástico e jurisdição sobre a Igreja universal
Na foto, abertura da Porta Santa por ocasião do Ano da Redenção de 1983

João Paulo I não quis ser coroado, como o foi Paulo VI, mas adotou a mesma férula. João Paulo II fez o mesmo. Contudo, por razões desconhecidas dada a raridade do fato, na abertura da Porta Santa do Ano da Redenção em 25 março 1983, ele usou a milenar férula de três barras. Mas, foi a única vez que vimos um Papa usando esse modelo de férula. Bento XVI ainda fez uso da férula de Paulo VI nos 3 primeiros anos de seu pontificado; no Domingo de Ramos de 2008, a trocou pela de Pio IX, lhe presenteada em 1877 pelo Círculo de São Pedro por ocasião do 50º aniversário de sua sagração episcopal. Na celebração das Primeiras Vésperas do Advento de 2009, 28 novembro, Bento XVI começou a usar uma férula feita para ele e doada pelo mesmo Círculo de São Pedro, dourada, similar à de Pio IX.

Portrait of Pope Paul VI

Sabe-se que nos tempos de João Paulo II, existiam 3 férulas no modelo de Paulo VI – uma que era a original e outras 2 feitas ao longo do pontificado do papa polonês, em pesos menores devido a sua debilidade física. Portanto, é uma dessas 3 conhecidas que o Papa Francisco tem usado desde 07 abril 2013, quando na Missa de posse da Cátedra Romana, abandonou a férula de Bento XVI.

São Silvestre I

Papa Silvestre I representado com a férula de três barras

Sobre a férula papal

Postado em 11 abril 2013 by E. Marçal

A História Eclesiástica, mais precisamente na categoria litúrgica, indica como já houve concessão ou restrição de insígnias e paramentos entre membros da hierarquia da Igreja – entre sacerdotes e bispos e entre prelados e papas. Entre aqueles, por exemplo, sabemos do uso difundido de dalmática sob a casula em tempos imemoriais da Igreja, mas que posteriormente foi restringido aos bispos e abades. Entre prelados e papas, temos notícia da concessão destes do pálio pastoral aos arcebispos, do tabarro vermelho a alguns bispos, da falda, tiara e sédia ao Patriarca de Lisboa, entre outros. De qualquer modo, mesmo na concessão de insígnias ou paramentos, os papas permaneceram com alguma distinção, como acontece ao seu pálio pastoral que é o único a possuir as cruzes vermelhas. Algo parecido acontece entre o báculo pastoral dos bispos e a férula pontifícia:

Com informações do historiador da Igreja italiano Alberto Melloni, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera em 08 fevereiro 20

Coroação Napoleão Bonaparte Josefina Jacques Louis David - detalhe
No detalhe acima da bela e detalhada pintura de Jacques Louis David, vemos à direita o Papa Pio VII,
enquanto um Bispo porta uma cruz processional, ao centro da imagem.
Diz-se Napoleão Bonaparte de ter arrancado a coroa imperial de suas mãos e ter-se coroado a si mesmo e depois feito o mesmo
à imperatriz Josefina, 
momento retratado na cena e acontecido na Catedral de Notre-Dame em 02 dezembro 1804.
Contudo, como quem celebrou a Missa da coroação foi o próprio Papa, ele seria o que está de pálio pastoral atrás do Imperador.

Desde as miniaturas do 18º Concílio de Toledo em 702, e depois na arte sacra, nota-se a diferença entre o pastoral usado pelos bispos e o usado pelo Papa: aquele tem uma volta na extremidade superior e este, termina com uma cruz sem o Crucificado. Mas, somente no século XIII, com a forma monárquica dada ao papado por Inocêncio III e a defesa teológica apresentada por São Tomás de Aquino, foi confirmado que o pastoral dos bispos deveria se curvar com a sua dependência hierárquica à férula da plenitude do poder papal.

Papas Pio XI Pio XII João XXIII férula

Nas fotos, da esquerda para a direita, Papas usando a férula em cerimônias anteriores ao Vaticano II e à inédita de Paulo VI:
Pio XI abre a Porta Santa do Jubileu de 1925, Pio XII em alguma cerimônia e João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II

Se o Papa não é um bispo como outros, mas é a cabeça do episcopado, ele também passa a receber, junto com o pálio pastoral, o Anel do Pescador e o triregnum, a férula com uma oração do Arcipreste da Basílica de São Lourenço Fora-dos-muros, igreja romana que até a metade do século XIX gozava do título de “patriarcal” – status equivalente a “Maior” desde que Bento XVI em 2005 renunciou a se declarar como “Patriarca do Ocidente”. A partir do século XVI, porém, a insígnia é usada em circunstâncias muito raras, apesar de, dever possuir as mesmas cerimônias do báculo a um bispo: ser usado enquanto se desloca de um lugar a outro, na administração dos Sacramentos, na homilia etc. O Papa Paulo VI, ao passo que determinava e promulgava a reforma litúrgica depois do Concílio Vaticano II, restaurou o uso original da férula no dia da conclusão do mesmo Concílio, inaugurando a férula de traços modernos e curvos e com o inédito Crucificado, de autoria do escultor napolitano Lello Scorzelli (1921-1997). Os Papas posteriores a usaram, mas isto é assunto para outro artigo.