'

A Sala Conciliar na Basílica Vaticana

Postado em 13 outubro 2012 by E. Marçal

A cena da Ressurreição, um dos 10 tapetes de Arras que ornamentam os arcos da Basílica durante o Concílio

A preparação da Aula (Sala) Conciliar levou em conta dois dados fundamentais: as sessões conciliares deverão realizar-se na Basílica de São Pedro; o número dos Padres Conciliares que tomarão parte nas reuniões pode ser de cerca de 2.500. Óbvias necessidades de espaço sugeriram que se utilizasse a nave central da Basílica, desde a porta da entrada até ao Altar da Confissão (n.e. altar-mor sobre o túmulo do Apostólo). O trono do Sumo Pontífice foi colocado junto ao Altar da Confissão e os lugares dos Padres Conciliares, ao longo dos dois lados da nave, distribuídos em escadarias para permitir a completa visibilidade da Sala, de todas as partes. Os trabalhos tiveram início em 15 de maio passado. Construídas as escadarias, em estrutura metálica, com quilômetros de tubos, dezenas de milhares de ligações e centenas de metros cúbicos de madeira, foram instalados os lugares dos Padres Conciliares. Cada um deles conta uma cadeira, revestida de verde, uma escrivaninha e um genuflexório. Por cima das escadarias, nos espaços dos oito grandes arcos da nave central, foram construídas as tribunas para os teólogos e demais peritos. Estruturas metálicas com quase 20 metros de altura, por cima das tribunas, sustentam cortinados de damasco que servem de fundo a grandes tapetes de Arras (n.e. cidade francesa que se destaca na indústria têxtil). Três mil metros de damasco, dois mil metros de veludos, centenas e centenas de metros de franjas e guarnições douradas foram necessários para realizar esta obra.

A Aula Conciliar foi ornamentada com 10 grandes e preciosíssimos tapetes de Arras. Pertencem a uma das mais interessantes coleções dos museus do Vaticano. Geralmente são conhecidos como tapetes de Arras “da nova escola de Rafael”. Foram confeccionados em Bruxelas, na Bélgica, em 1520, por conta da corte papal, sob o pontificado de Clemente VII, por Peter van Emghen e Bernardo van Orley. Os 10 preciosos tapetes escaparam intactos ao saqueio de Roma, em 1527. Mas, dois séculos depois, durante a Revolução Francesa, foram roubados e desapareceram por completo. Identificados mais tarde, foram comprados por comerciantes franceses e expostos no Museu do Louvre. Em 188, foram restituídos ao Papa Pio VII. Em 1934, foram colocados com modernas iniciativas técnicas na galerias dos Arras, no Museu do Vaticano, onde permaneceram até poucos meses atrás. Atualmente, acham-se ao longo das paredes da Aula Conciliar, por cima das grandes tribunas montadas nos vãos das arcadas da Basílica do Vaticano. São tecidos em lã, sede e ouro. Representam episódios da vida de Jesus Cristo, como a adoração dos pastores, a adoração dos Magos, a apresentação no Templo, a matança dos inocentes, a ressurreição, a aparição de Jesus a Maria Madalena, a ceia em Emaús, a Ascensão e a descida do Espírito Santo. Do cimo da grande sala do Concílio parecem dizer que o objetivo principal da grande assembleia ecumênica é a renovação espiritual da Igreja.

Domina o conjunto a esplêndida arquitetura da Basílica que só por si revela a grandiosidade e majestade da Aula Conciliar. Para facilitar o trabalho da grande assembleia, foram instalados na Basílica aparelhos de sonorização: 30 alto-falantes e cerca de 40 microfones, todos coligados com uma sala de controle geral; uma central telefônica interna, com cerca de 40 aparelhos telefônicos que permitem um contato imediato com os diversos setores da Aula Conciliar; uma instalação de iluminação, independente da iluminação da Basílica, com 40 projetores, instalados na grande área superior dos arcos da nave, e numeroso outros aparelhos para iluminar os lugares mais escuros da Basílica. uma instalação de gravações com cabinas especiais e 4 grandes aparelhos para gravar em fita magnética o que for dito durante as sessões. um centro mecanográfico para a rápida apuração das votações; instalações para televisão e rádio a serem utilizadas nas sessões e cerimônias públicas.

Um exemplar das cédulas de votação do Vaticano II. À direita, as três opções de votação
Esta cédula, como podemos ver na parte superior, é do Cardeal Albareda, OSB Bibliotecário da Santa Igreja

Entre os serviços técnicos modernos utilizados no Concílio, têm particular importância os centros mecanográficos Foram instalados dois destes centros: um na sede da Secretaria-geral do Concílio, outro na nave direita da Basílica de São Pedro, junto do altar de Gregório XVI. O centro mecanográfico da Secretaria-geral do Concílio tem a missão de fornecer listas dos Padres Conciliares com os respectivos dados e na ordem desejadas: alfabética, geográfica, de antiguidade, de dignidade, de nacionalidade etc. […] O da Basílica de São Pedro tem por objetivo principal anotar a presença dos Padres Conciliares nas reuniões e apurar os votos. Para a anotação das presenças, é entregue a cada Padre uma ficha com todos os dados que lhe dizem respeito. Com um lápis especial contendo uma carga magnética, os Padres apontarão os dados requeridos, como, por exemplo, a própria assinatura no espaço onde se encontra a palavra “adsum“. As fichas, uma vez recolhidas, serão introduzidas no aparelho eletrônico de leitura magnética que transformará o sinal gráfica da assinatura num furo. As fichas perfuradas são depois elaboradas pelo tabulador que imprimirá nelas o plano completo e as calculará. Para a apuração dos votos, é entregue a cada Padre uma ficha-voto com três quadrados. Neles estão indicadas as três possibilidades de voto: placet (n.e. aprovado), non-placet (não aprovado) e placet iuxta modum (aprovado de uma maneira). No momento da votação, cada Padre faz um sinal num dos três quadrados, segundo o próprio voto. Logo depois, as fichas são recolhidas e entram no aparelho de leitura magnética que transforma os vários pareceres manifestados em furos, eliminando os votos nulos e as fichas em branco. Por fim, o tabulador calcula os votos e imprime o folheto oferecendo os resultados totais das votações.

Acima das cadeiras dos Padres Conciliares, vemos a tribuna dos teólogos e outros peritos,
e, sobre eles, as cortinas onde se sustentam os tapetes de Arras

Trinta radiocronistas e vinte telecronistas dos mais diversos países comentaram a cerimônia da solene abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II. As imagens televisivas do histórico acontecimento foram transmitidas para o continente americano por meio do satélite artificial Telstar. […] Ao longo de todo o perímetro inferior da Basílica e em várias zonas da Cidade do Vaticano, foram estendidos cabos televisivos para tornar possível às câmeras de televisão a escolha das posições mais oportunas. […]

Frei Boaventura Kloppenburg, teólogo conciliar

1 Comments For This Post

  1. Lázaro Claudemberg Says:

    Perfeito compreendimento sobre o assunto!
    Gostei!

Leave a Reply

%d blogueiros gostam disto: