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Como abençoar na Missa?

Postado em 30 novembro 2014 by E. Marçal

Após mais de 16 séculos de evolução litúrgica, não se pode dizer que algo na Liturgia é simples obra do acaso, sem sentido ou sem história. Qualquer item nela tem um início, evolução, significado e explicação teológica. Nada é ex nihilo, nada na Liturgia nasceu do nada, isto é, ex nihilo nihil fit.

Sacerdote beija o altar durante a oração do Cânon da Missa, segundo o rito antigo
Imagem: Corpus Christi Watershed

Com a promessa de Cristo de que estaria com a Igreja até ao fim do mundo e de que enviaria o Seu Espírito e Ele revelaria toda a verdade, é religiosamente impossível acreditar, por exemlo, que a Missa ainda se chamaria “Fração do Pão”, sem desenvolvimento nos ritos que surgiu com o passar do tempo. Isto aconteceu de forma às vezes gradual e natural, segundo as exigências da espiritualidade de cada período.

Ainda vivemos em tempo recente da redescoberta e nova valorização das antigas tradições litúrgicas e até mesmo teológicas, que, em grande parte, ajudam-se na Liturgia. As rubricas não devem ser meras execuções de atos e palavras, sem exprimir, formando a espiritualidade de quem celebra e participa, os sentimentos espirituais de cada um. Para tanto, o seu estudo é algo indispensável. A nova valorização do grande patrimônio litúrgico da Igreja é recente porque saímos de uma forte geração que, em sua maioria, viu no Concílio Vaticano II uma inédita ruptura com o passado recente e pretendeu uma aleatória descoberta dos primórdios, esquecendo-se do que a Igreja conquistou nos últimos cinco séculos. Claro que a Tradição é uma só e não pode ser quebrada, mas não só a Igreja nascente tem valores, como o desenvolvimento litúrgico na Idade Média também. Hoje ainda é insuficiente a formação que muitos seminaristas recebem e que muitos Sacerdotes, de ordenação relativamente recente, receberam. Tentam compensar isto apenas imitando o que se tem feito como correto em certas circunstâncias ou interpretando por si mesmos o que acreditamo ser correto. Mas isto é perigoso. Por exemplo, surgimento de orações previstas e compiladas num livro, o Missal, quis manter a ortodoxia da doutrina celebrada nos ritos e evitar a criatividade dos ministros, de modo que em qualquer lugar que a Liturgia fosse celebrada estivesse de acordo com a fé católica, sem excedentes nem supressões.

Hoje ainda assistimos a fatos que demonstram claro desconhecimento ou até intenção desvirtuada da correta aplicação das normas litúrgicas, tais como:

1. Sacerdotes usando casula e dalmática (ou alternando o uso destes paramentos na Missa da Ceia do Senhor, ao depor a casula no rito do lava-pés), como se fossem Bispos ou Abades.

2. Sacerdotes e Diáconos usando solidéus pretos, numa pretensa valorização de direitos antigos, pensando que este item é de uso previsto a todos os clérigos, apesar mudando a cor, de acordo com sua dignidade. Contudo, isto nunca aconteceu na Igreja (http://diretodasacristia.com/home/heri-et-hodie/todos-podem-usar-solideu/)

A bênção na Missa

Como falávamos, os ritos evoluíram com o passar do tempo e o estudo de liturgistas e teólogos, com a aprovação oficial da Igreja, antes ou depois do surgimento de novos costumes. Inicialmente, a Missa não tinha bênção final, mas somente o Bispo saía da igreja abençoando a todos. Melhor dizendo, todas as bênçãos eram reservadas ao Bispo, como verdadeiro pastor da Igreja local. Mas o rito galicano do século VII introduziu o costume de sacerdote dar uma bênção ao povo após o Pai nosso da Missa.

Celebrante incensa durante a Missa na Catedral de Notre-Dame, de Paris, em comemoração dos 850 anos da dedicação da igreja
Imagem: Gonzague Bridault

A pura liturgia romana foi influenciada principalmente pelo rito galicano, trazido à Roma pelo imperador, resultando principalmente séculos depois na liturgia tridentina, da qual a forma ordinária hoje tem alguns resquícios. O rito galicano inaugurou um número maior de ritos (o da paramentação antes da Missa, por exemplo), mais solenidade (era própria da corte imperial) e enobreceu a simples liturgia romana. Portanto, começaram a aparecer nos posteriores sacramentários formulários que prescreviam ao Sacerdote uma oração de bênção super populum (tal como aquela da Celebração da Sexta-feira Santa), ao fim mesmo da Missa, precedida de um convite formal, tal como o conhecido “Inclinai-vos para receber a bênção”. Isto melhorou o costume galicano, preocupando-se que, se a bênção fosse depois do Pai nosso, como originalmente, o povo iria embora do templo.

A partir do século XII a bênção, também em Roma, passa a ser dada ainda no altar, depois do fim da Missa. A fórmula simples atual Benedicat vos omnipotens Deus Pater et Filius et Spiritus Sanctus aparece no Sínodo de Albi, em 1230. Contudo, em algumas ocasiões trataram de ornar com maior solenidade a bênção final sacerdotal, com elementos:

Ou em desuso hoje: acompanhar as palavras da bênção com um quádruplo sinal da cruz, na direção dos quatro pontos cardeais.
Ou hoje restritos aos Bispos, desde o século XIII: anteceder a bênção com os versículos Sit nomen Domini benedictum Adjutorium nostrum in nomine Domini e traçar três vezes o sinal da cruz.

A Idade Média, por fim, viu as Missas possuírem bênção final de seu Celebrante, mas foi preocupação estabelecer a diferença entre o poder da bênção episcopal e da sacerdotal. Portanto, o Bispo continuou a concedê-la simplesmente com a mão, mas o sacerdote deveu servir-se de um objeto sagrado como meio de abençoar. Deste modo, estão usadas relíquias (cujas bênçãos já era comuns desde o século XI) dos Santos ou da Cruz, a patena, o cálice, o corporal ou um crucifixo (como é visto em ritos orientais).

Os atuais gestos da bênção da Missa e das Laudes e Vésperas do Ofício Divino

Bênção-final.jpgNão é por acaso que a cruz está após o “Filho” nos textos de bênção gerais, não exclusivamente dos Bispos,
que abençoam com tríplice cruz, à esquerda, ao meio e à direita.

Alguns costumes desapareceram da bênção final, mas foram preservadas particularidades que exprimem conceitos evangélicos e genericamente teológicos. O Evangelho de São Lucas descreve que Nosso Senhor, antes de ascender aos céus, abençoou Seus discípulos elevatis manibus, erguendo as mãos (24, 50).  Portanto, desenvolveu-se o rito seguidamente descrito:

1. O Celebrante diz Dominus vobiscum com as mãos postas.
2. Às palavras Benedicat vos omnipotens Deus abre e eleva as mãos até a largura dos ombros e à altura de sua cabeça.
3. Antes de dizer Pater junta novamente as mãos.
4. Traça uma cruz grega (de 4 traços iguais) ao pronunciar et Filius.
5. Volta a juntar as mãos novamente ao dizer et Spiritus Sanctus.

O Bispo, como dissemos, desde o século XIII, ajunta antes da bênção os versículos Sit nomen Domini benedictum (fazendo uma cruz sobre o peito) e Adjutorium nostrum in nomine Domini (fazendo o sinal da cruz sobre si mesmo). Além disso, o Prelado traça, à menção de cada Santíssima Pessoa, uma cruz, primeiro à sua esquerda, depois ao meio e à sua direita. Isto continua prescrito na forma ordinária, de acordo com Cerimonial dos Bispos (nº 1120), nas Missas e nas Laudes e Vésperas Solenes do Ofício Divino. Senão, o Bispo concede uma bênção simples. Na forma ordinária, inclusive, se o Bispo for pronunciar a fórmula de bênção solene prevista para algumas ocasiões, diz o Dominus vobiscum e, omitindo os 2 versículos, pronuncia a fórmula solene e abençoa os presentes com os gestos descritos. Observem tudo isto no curto vídeo acima.

Já os Sacerdotes não devem, ao pronunciar o nome de cada uma das Santíssimas Pessoas, “pontuar” a cruz grega que traçam como sinal da bênção. Ou seja, não devem traçar a cruz enquanto dizem a fórmula completa da bênção final, pronunciando Pater e traçando a primeira metade da linha vertical da cruz; et Filius e traçando a segunda metade da linha vertical; et Spiritus Sanctus e traçando a linha horizontal completa da cruz grega. A teologia litúrgica diz que, quando o ministro pronuncia a bênção final de algum rito — que não seja solene como a Missa e as Laudes e as Vésperas do Ofício Divino —, mesmo o Bispo, o sinal da cruz deve acompanhar unicamente a menção do nome do Filho, uma vez que foi por Ele que fomos salvos no sacrifício cruente e perfeito da cruz. É por Ele que a cruz é sinal de salvação e é usada para abençoar. Isto é ainda mais confirmado quando vemos as cruzes presentes nos textos das Orações Eucarísticas, indicando ao Celebrante que, naquele instante, deve traçar o sinal da cruz sobre as ofertas. Observem como faz o Sacerdote no vídeo acima.

Portanto, o correto também é não “pontuar” o traço da cruz grega, seja em qualquer bênção, mas fazer um gesto contínuo.

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Fonte bibliográfica: JUNGMANN, Josef Andreas. Missarum Sollemnia. Paulus. 5ª edição. 2009.

Em Pentecostes, falou-se na “língua dos anjos”?

Postado em 09 junho 2014 by E. Marçal

Existe mesmo a chamada “oração em línguas”, que, curiosamente, é comum lamentavelmente assistirmos em encontros da Renovação Carismática Católica?

Desde agora, separamos 2 pontos: a Igreja aprovar o movimento e os erros que muito são praticados pela maior parte. São pontos distintos. Portanto, embora a Igreja reconheça a RCC, não aprova o raríssimo “dom de línguas”, que não é o mesmo de Pentecostes, ainda que o movimento carismática faça algum bem aos católicos. O bem não justifica os erros.

 

Alguns cristãos acreditam no “dom de línguas” como sinal do batismo do Espírito Santo

Análise de Daniel Bosqued, espanhol,
Doutor em Teologia e Pastor Adventista

Há quem acredite que isto provém do céu, talvez. A não ser que, na verdade, o pronunciar de sílabas que não se compreendem nem mesmo quem as pronuncia não parece representar bem a presença de Deus.

E se realmente isso não é certo? E se a Bíblia não ensina isso?

Se isto é um fenômeno de autossugestão aprendido e imitado por milhares de cristãos, então este é um dos maiores enganos da história.

Jan Joest van Kalkar“O dom de línguas, os Apóstolos o receberam para serem entendidos por todos os que os ouviam.
Assim, nos Atos dos Apóstolos, se conta que São Pedro, no dia de Pentecostes,
falou a uma multidão de pessoas de raças e línguas diferentes, e todos o entenderam”
Jan Joest van Kalkar, Pentecostes (1505-1508), Igreja de São Nicolau

1. Em todo o Novo Testamento, os dons dados à Igreja são para cumprir uma função. Jesus ordenou pregar o Evangelho a todo o mundo, mas os discípulos sabiam um ou dois idiomas. Por isso foi feito o milagre. Em Atos 2, o verdadeiro dom não foi glossolalia (dom das línguas), e sim falar um idioma que não sabia antes.

2. Em Atos 10, 19 ocorrem casos similares: era um símbolo útil para os não-crentes. Mas o capítulo 4, 8 e 9 dizem que se derramou o Espírito Santo e não houve dom de línguas. Por que? Porque não havia estrangeiros, então não havia necessidade.

3. A Bíblia não ensina que falar em línguas seria o único símbolo do Espírito comum a todos os crentes. Alguns afirmam que o dom consiste em orar em idiomas angélicos desconhecidos. Dizem que se pode praticar relaxando a boca e se deixando levar pela euforia. Mas falam assim os anjos?

Anjos ápteros
Santo Tomás de Aquino diz que nem Deus nem mesmo os anjos falam,
mas se comunicam por iluminação: um ilumina a inteligência do outro e comunica o que se quer


4. Na Universidade da Pensilvânia demonstrou-se que ao falar essas línguas não se ativam as áreas cerebrais da linguagem. O motivo é simples: não há nenhuma forma de comunicação.

5. Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 14. Como se explica: desde o capítulo 13, a Igreja estava repleta de problemas espirituais, contendas e disseções. Em Corinto havia a tradição de rituais nos quais se falavam a língua dos deuses. Ao mesclar o dom real com crenças pagãs, ele tentava definir o problema da Igreja, mesmo à distância. Como julgar se alguém diz orar a Deus em idioma desconhecido? Paulo sabiamente assina a crença dos coríntios, debatendo com lógicas do seu ponto de vista. Mas ele encerrar o caso com versículo 28: “Se não interpreta, cale-se”. Porque, se é um idioma real, poderá ser interpretado sempre. Paulo reduz ao particular uma experiência subjetiva e identificável para proteger a Igreja. E disse no versículo 13: “Se alguém fala em línguas, peça para interpretá-la”. Se isso não ocorre, não está orando com sua mente. E isso não serve para nada. Todos que balbuciam estas supostas línguas sempre a traduzem? Estão violando um importante mandamento bíblico. Porque um dom verdadeiro sempre edifica a Igreja e se não faz, é falso.

Por certo, Cristo nunca falou em línguas.

 

O renascimento católico, segundo Dom Henrique Soares

Postado em 14 setembro 2013 by E. Marçal

Essa entrevista fora marcada 3 semanas antes. Dom Henrique gentilmente nos atendeu e prontamente aceitou o convite. Marcamos para conversar antes da celebração do dia 13 de julho de 2012 da Novena de Nossa Senhora do Carmo do Recife, na qual ele pregaria.

No dia marcado, chegamos ao Convento do Carmo. Ainda não conhecíamos pessoalmente aquele sábio bispo. Encontramo-lo sentado na recepção, conversando com uma religiosa. Após alguns minutos de espera e a nossa apresentação, dirigimo-nos para a sala-de-estar situada no segundo andar do centenário prédio no centro da capital pernambucana. Era nossa primeira entrevista e, além disso, a famosa figura de nosso convidado não nos permitia a calma necessária para a gravação de tudo. Devido a isso, nem notamos a baixa luminosidade da sala nem a pressa como fazíamos as perguntas (risos), as quais ele pediu para ouvir antes e, depois de pouco tempo, já estávamos gravando. O problema da iluminação não nos permitiu muito ser corrigido: por ele repetidas vezes pedimos desculpas e prometemos corrigi-lo nas próximas entrevistas. E quanto ao estado nervoso de nosso entrevistador (risos), julgamos por bem substituir as perguntas mal feitas e com voz trêmula, por textos exibindo o resumo delas.

Afinal, temos um áudio compreensível e um vídeo onde podemos assistir à explicação do Bispo sobre assuntos ainda atuais. Por isso que não desistimos da ideia de publicarmos esta entrevista mesmo após mais de 1 ano de sua gravação. Veremos como ele nos fala de seus anos de formação sacerdotal em tempos mais difíceis do que os nossos, durante o nascimento e o rápido apogeu da “Teologia” da Libertação. Também esclarece os objetivos e a reta intenção do Concílio Vaticano II e de seus documentos, onde está, inclusive, exposto o “sensus fidelium”, o reconhecimento dos fiéis do que é e do não é católico. Assim ele determina que o “renascimento litúrgico”, iniciado e insistentemente defendido pelo então Papa Bento XVI, é genuinamente católico e legítimo, uma resposta para os tempos atuais. Por fim, interpreta a Igreja no Brasil hoje.

Os seus 49 anos de idade e pouco mais de 3 anos de sua sagração episcopal não o impediram de se desenhar no episcopado brasileiro como uma nova voz para os tempos atuais. Expõe seu pensamento e a doutrina da Igreja em homilias comuns, além de fazê-lo em pregações e palestras onde quer que o convidem. Nas comemorações do segundo aniversário do blog “Direto da Sacristia”, conversamos com o Bispo Auxiliar de Aracaju, Dom Henrique Soares da Costa.

 

1. Excelência, assim como o mundo, a Igreja também passou por transformações. E o fato de não observar um rumo certo para acompanhar essas mudanças, foi uma das causas da crise religiosa que igualmente é vista dentro da Igreja. Vossa Excelência vive a diferença de dois períodos históricos: hoje já não vive o Papa de anos atrás, Vossa Excelência já não é mais seminarista, mas um bispo, e vivemos em outra época. Qual realidade a Igreja vivia em seus anos de formação sacerdotal e o que isso provocou hoje no cenário religioso brasileiro?

Primeiramente, eu não diria que a Igreja não seguiu um rumo certo. É preciso que compreendamos o tempo de hoje olhando toda a história da Igreja. Nós ainda estamos no período pós-conciliar. Todas as vezes que houve na Igreja um concílio de grande porte, o período depois do concílio sempre foi turbulento; sempre, isso é normal. É um período, é como um terremoto, uma “rearrumação” do terreno. Então, é o que nós estamos vivendo.

Muitos acusam o Concílio Vaticano II, o veem como um mal. Isso é um engano. Era necessário um Concílio Vaticano II. O problema não está no Concílio; o problema está nas interpretações que se fizeram do Concílio, no famoso e maldito “espírito do Concílio”. O “espírito do Concílio” é um fantasma, é um demônio que deve ser exorcizado. Porque o verdadeiro “espírito do Concílio” só se encontra no texto do Concílio. Se você pega o texto do Concílio Vaticano II, por exemplo, o texto da Sacrossanctum Concilium, o texto da Lumen Gentium, toma-se um susto: “mas, meu Deus, o Concílio prega isso? Então, não prega essas loucuras que se dizem, que se fazem?” Então, a Igreja não tomou um rumo errado. A Igreja percebeu que era preciso realmente se reorganizar, porque estamos numa revolução social como nunca tivemos antes. Pela primeira vez a maioria da população mundial é urbana; os meios de comunicação, que são um fenômeno novo, fizeram com que a família já não tenha quase nenhuma incidência sobre as pessoas. Antigamente, as pessoas nasciam dentro de uma tradição, e, a partir dessa tradição, elas se compreendiam, elas assumiam os valores dessa tradição e [a tradição] formava a vida delas. Hoje não é mais assim. Hoje, cada pessoa parece que começa do zero a sua vida, já não é mais o meu ambiente, já não é mais a minha família que me introduz nos amores da vida, mas os meios de comunicação. Então, a Igreja teve que se – eu vou usar uma palavra que não gosto – modernizar – mas, com bem aspas – para poder continuar cumprindo a missão dela. Então, o Concílio Vaticano II – eu repito – é uma bênção para a Igreja. O uso que fizeram do Concílio tem sido ainda muito confuso.

Você me perguntou pelo o meu tempo de seminário. Eu peguei sim ainda o pontificado de João Paulo II todo no seminário e, meu Deus, como era confuso! Como era pior do que hoje! Contraposições tremendas, a Teologia da Libertação na sua época mais virulenta. E a Teologia da Libertação – e é preciso que se diga, muitos não gostam quando dizem – mas, ela fez mais mal do que bem à Igreja. A preocupação social é um bem, a percepção que existe um pecado não só pessoal, mas um pecado social é verdadeira, é um bem, mas fazer, como a Teologia da Libertação fez, instrumentalizou a fé em função da questão social, usou análise marxista muitas vezes – algumas vezes explicitamente, outras vezes implicitamente –, mas usou e ninguém pode negar isso. Além de causar, como o próprio Santo Padre Bento XVI disse a um grupo de bispos brasileiros na visita ad limina, que causou muito mal, muita insubordinação e esvaziou muito da sacralidade e da fé de tantos do clero, de tantos da vida religiosa. E estamos vendo o resultado aí: nós estamos num período de crise na Igreja, e essa crise atual é fruto da crise plantada nos anos 60 e 70 e primeira metade dos anos 80. João Paulo II começou a reordenar, a redirecionar o modo de se viver, de se compreender o Vaticano II, e agora o Santo Padre Bento XVI continua esse trabalho com a famosa expressão “hermenêutica da continuidade”.

Hoje existe menos contraposição na Igreja, existe menos polarização. Graças a Deus! Mas, infelizmente, esse processo de dessacralização, esse processo, essa crise de fé na Igreja, ainda está muito presente. Mas, existem já indícios que nos fazem ter esperança. Agora, é importante entender uma coisa: a Igreja não é nossa, é de Cristo. É Ele quem a guia. Ele sabe, Ele não nos abandonou. Ele sabe o que quer e por onde está guiando a Igreja. Quem perseverar até o fim, quem for fiel vai resistir, vai permanecer até o fim.

2. Mesmo com a resistência de alguns, a Igreja vive o que podemos chamar de um renascimento católico. Há discussões mais sérias e observações fiéis da Teologia, Liturgia e do nosso patrimônio espiritual. Isso a que assistimos é um processo – digamos – natural depois de anos difíceis ou começa a ser o resultado do esforço de muitos que já não toleraram o cenário teologicamente heterodoxo do qual a Igreja foi muitas vezes palco nas 4 últimas décadas?

As duas coisas. Primeiro, é uma reação aos exageros de antes. É preciso entender: por exemplo, quando você diz “renascimento católico”, é que na verdade as gerações jovens estão cansadas da secularização, estão cansadas dos relativismos teológicos, que levam ao relativismo moral, estão cansadas de católicos, de padres, de religiosos que escondem a identidade em nome de um diálogo com o mundo. É um diálogo mentiroso; um diálogo que nega a identidade não é diálogo, é simplesmente rendição. Nós dialogamos quando mantemos a nossa identidade, aí o diálogo é verdadeiro. Respeito a identidade do outro e mantenho a própria identidade. Então, existe já um cansaço desse modelo de um diálogo com o mundo sem critério, de um diálogo com o mundo que na verdade mascara a nossa identidade.

Graças a Deus há uma geração jovem sim e que incomoda muito, incomoda e assusta. E, a mim mesmo, me alegra muito, porque é o futuro da Igreja. Entende? Uma geração jovem que quer seriedade. Temos que entender que o jovem de hoje não é o dos anos 60. O jovem dos anos 60 contestava; o jovem cristão de hoje quer redescobrir suas raízes. Em geral, se diz assim: são doentes, têm saudade do que não viveram. Essa afirmação é falsa. Eles são sadios, eles têm neles o “DNA católico”. Aquilo que o Concílio Vaticano chamou de sensus fidelium, o instinto que os fiéis têm para as coisas de Deus, o instinto que o Espírito Santo – isso é Vaticano II puro – suscita na Igreja para que o povo de Deus distinga instintivamente o que é e o que não é católico. Então, os que os jovens de hoje têm é saudade, não é do que não viveram, das suas raízes católicas. Agora, é claro, nos compete educar essa saudade. Porque, se não educar, se torna uma coisa artificial. Por exemplo, o interesse pela Liturgia pode degenerar em esteticismo, entende?, em “pastoral de paninho”, e não é essa a questão! O problema é que a juventude vê aqueles valores que muitas vezes foram negados e quer voltar a eles, mas não sabe como; quer recuperá-los, esse recuperar não pode ser simplesmente voltar – o tempo não anda para trás – Cristo nos espera na frente, mas é exatamente o que o Santo Padre Bento XVI disse: uma “hermenêutica de continuidade”; ou seja, o homem sábio tira do seu tesouro, como diz Jesus, coisas novas e velhas. Então, exatamente como o Santo Padre Bento XVI propõe: nem mais nem menos. Caminhar para frente, não para trás, sem negar o futuro.

Agora sabendo distinguir, porque, por exemplo, às vezes eu vejo uns discursos – sobretudo, nos ambientes mais tradicionalistas – que são insustentáveis hoje. Por exemplo, sobre a liberdade religiosa: a questão do reino de Cristo na terra, o reino social de Cristo. Não adianta, esse discurso hoje em dia não faz parte da fé da Igreja, esse discurso era um modo de interpretar uma realidade numa conjuntura em que existia uma sociedade ainda cristã. Hoje a sociedade não é cristã. Hoje, Cristianismo voltou a ser uma religião de minoria. Então, nós temos que distinguir o que é essencial do que é conjuntural, do que é próprio do contexto de uma época. Isso ainda temos que aprender muito, a discernir em que progredir e o que conservar de um modo sadio. Mas, vamos adiante. Há sinais de esperança na Igreja e o Santo Padre Bento XVI nisso é um referencial indispensável.

3. Com isso, o que podemos esperar do futuro do ensinamento, da vida e da atuação da Igreja? Como o clero brasileiro é formado atualmente? O que ainda é necessário mudar?

Essa pergunta é muito complexa. Existem sinais de esperança, como eu já disse: existem muitos, muitos jovens que desejam uma Igreja mais focada na pregação do evangelho, uma Igreja que recupere os valores do sacro na Liturgia, e eu aplaudo e apoio esses jovens e entendo perfeitamente o desejo deles. Perfeitamente. Como eu digo, é preciso purificar para não ficar uma coisa folclórica, uma “pastoral de paninho”, uma busca não inteligente de passado, porque temos que entender isso, volto a dizer, a questão da “hermenêutica da continuidade”: vai-se para frente, recuperando, conservando aquilo que é importante.

Uma outra coisa: quanto à formação hoje nos seminários e nas casas religiosas; eu vejo com preocupação o seguinte: estão se formando dois tipos bem diferentes de religiosos e de padres: uns ainda segundo aquela mentalidade dos anos 60, 70, de secularização, de descaracterização do próprio a nível religioso; mas, por outro lado, vai crescendo, aos pouquinhos, mas de modo constante, uma busca de resgatar os valores que foram perdidos. Estamos hoje assim. Com duas, não se contrapõem, não há uma guerra, mas há estão no ar essas duas. Eu tenho medo que no futuro isso gere um choque muito grande, quase como se fossem duas Igrejas.

É preciso enfrentar com mais seriedade, com mais calma, essa questão da formação: “que tipo de formação nós queremos?” Mas, nós em comunhão com o Santo Padre, nós como a Igreja orienta: “que tipo de formação a Igreja gostaria para os seus padres, para os seus religiosos?”. Escutar mais Roma – isso é uma palavra maldita para muita gente. Mas, Roma! Cristo confiou a Pedro o pastoreio da sua Igreja. Claro, aos bispos também, em comunhão com Pedro. A referência deve ser Roma, deve ser o Magistério do Santo Padre. Então, acho que se levarmos mais a sério isso, conseguiremos uma formação do clero, dos religiosos mais – como eu diria? – mais equilibrada e sempre nessa linha, a continuidade, na evolução, a continuidade caminhando para frente.

É um desafio. Nós estamos ainda numa época de transição; é preciso esperar um pouquinho para ver. Mas, há sinais de esperança em toda essa crise. E as vocações aumentam naqueles ambientes onde essa dessacralização tem diminuído. Quanto mais dessacralizar, mais haverá crise de vocação e outras crises mais. Então, isso já está claro. Falamos tanto em ver os sinais dos tempos. Os sinais estão aí. Não vê quem não quer.