'

Sobre o confessionário – Parte I

Postado em 24 maio 2012 by E. Marçal

Em tempos em que muitas igrejas e muitos sacerdotes esquecem o confessionário como lugar da administração do sacramento da Penitência, e escolhem salas com ar condicionado, com duas cadeiras postas uma frente à outra, e [quando muito!] um crucifixo para assistir ao ato; ou, quando nem isso, o Sacramento é administrado em qualquer parte da igreja, interna ou externa – usando como motivo para isto a desde sempre infundada e hoje empoeirada desculpa de que o Sacramento, com a “renovação” da Igreja nas últimas décadas, não pode mais se prender a um objeto “frio” e ultrapassado, com grades, e que não expressa o sentido de reconciliação para o qual os termos “penitência” e “confissão” deram seu lugar. Mas, há situações extraordinárias, como a indisponibilidade de confessionário, que realmente não permitem o seu uso.

Mas, engana-se quem pensa assim. Todos os sacramentos têm o local próprio para a sua administração. É tanto, que o Papa Bento XVI exortou sobre o retorno ao confessionário quando discursou à Penintenciária Apostólica em 11 março de 2010: “Retornar para o confessionário, como lugar no qual celebrar o Sacramento da Reconciliação, mas também como lugar em que ‘habitar’ com mais frequência, para que o fiel possa encontrar misericórdia, conselho e conforto, sentir-se amado e compreendido por Deus e experimentar a presença da Misericórdia Divina, ao lado da Presença real na Eucaristia”. E ainda, definiu que a confissão sacramental, no confessionário!, é o caminho para a nova evangelização, que nasce da santidade dos filhos da Igreja (Discurso aos participantes do Curso de Foro Interno, da Penitenciária Apostólica, 09 março 2012).

Portanto, conheçamos mais a origem e a evolução do uso do confessionário. Veremos que ele é mais recente do que o Sacramento como o conhecemos hoje, apesar de que “teólogos” brasileiros, que nos envergonham, falarem que a confissão sacramental não existe, e deve ser aplicada, literalmente, o mandato “confessai-vos uns aos outros”, e isso, para eles, seria válido!

* * *

O confessionário
Parte I

Da publicação da confissão sacramental
aos primeiros indícios de um local específico para ouvi-la

O confessionário data, segundo vários autores, do século XVI. Primitivamente, a confissão era pública, pelo menos nalgumas igrejas; por isso era desnecessário o confessionário. Contudo, depressa foi abolido este costume e já nos séculos II e III a confissão dos pecados recomendada pelos Sumos Pontífices, pelos bispos e sacerdotes, era a confissão secreta como podemos observar neste Decreto atribuído a Santo Evaristo: “Ut Presbyteri de occultis peccatis, jussione episcopi, poenitentes reconcilient, et sicut supra descripsimus, infirmantes absolvant et communicent”.

Um grave escândalo motivado pela confissão pública de uma nobre senhora de Constantinopla foi a causa de que, desde o ano 396, se generalizasse a prática da confissão secreta, recomendada depois explicitamente pelo Papa São Leão Magno, no século V.

Mas, mesmo para a confissão secreta, não foi requerido durante muitos séculos o confessionário ou coisa semelhante. Teodulfo, bispo de Orleans [n.e. na França], no século VIII, observa que no sacramento da Penitência, o sacerdote e o penitente se conservavam de joelhos diante de Deus.

Segundo o Ordo romanus X e o livro “De divinis Officiis”, atribuído ao grande Alcuíno, o penitente aproximava-se do ministro e, inclinando-se profundamente, recebia a sua bênção; depois sentava-se ao lado deste e confessava as suas faltas e escutava as admoestações do sacerdote.

Nos estatutos sinodais de Liége do ano de 1288, lemos o seguinte: “… Para ouvir as confissões, os sacerdotes escolherão na igreja um lugar público, bem patente… Ordenamos que o sacerdote conserve nas confissões um exterior reservado e os olhos modestamente baixos e não esteja frente a frente com o penitente, sobretudo se este é de diferente sexo. As mulheres confessam-se com o pescoço e a cabeça cobertos.

Todas estas prescrições, e principalmente a última, indicam suficientemente que nos catorze ou quinze primeiros séculos do Cristianismo, foi desconhecido o confessionário.

Papa João Paulo II ouve a confissão de um penitente.
Detalhe para a ponta da estola deixada para fora do confessionário
permitindo que o penitente, depois de absolvido, oscule-a indulgente, segundo o costume

No século XVI, São Carlos Borromeu proibiu a confissão de mulheres fora do confessionário, no qual existiria uma peça de madeira de separação entre o ministro e o penitente: “Extra sedem confessionalem et nisi médio inter cum et mulierem intercepto”. De onde se entende que até então o confessionário seria simplesmente uma cadeira como as descobertas nas catacumbas que, pela sua forma e posição nas capelas, mostram que serviram de confessionários.

Dom José Kreps, monge beneditino da Abadia de Louvain, em um artigo sobre a Penitência na antiga Liturgia de Liége, escreveu: “O confessionário como existe hoje ainda não era usado no ano de 1592. O Ritual de 1701 é o primeiro que o prescreve: ‘habeat in ecclesia sedem confessionalem, apto conspicuoque loco positam et crate perforata instructam’”. O de 1744 prova que o confessionário não era ainda nesta data de uso geral porque manda que as confissões das mulheres não sejam ouvidas “nonnisi a latere et per cratex interpositam”.

Continua…

Sobre as pias de água benta (II)

Postado em 17 maio 2012 by E. Marçal

Depois de longo atraso devido a problemas de acesso aos arquivos salvos no notebook, publicamos a segunda e última parte do artigo sobre a origem e evolução das pias de água benta.

Vimos que, originalmente, a água depositada nelas não recebia qualquer bênção litúrgica e servia mais para procedimentos higiênicos, tal como as abluções judaicas. Aos poucos, depois de tornar-se sacramental, a água passa a ser conservada em pias que variavam do mármore até ao vidro, da argila ao bronze; de grandes dimensões à redução a conchas suspendidas por uma coluna.

* * *

Já vimos a água do cantharus não recebia nenhuma bênção litúrgica pelo menos nos primeiros séculos, e a razão é óbvia. Sabe-se, com efeito, que o cântaro era abastecido de água corrente ou, pelo menos, renovada frequentemente. É claro que sendo isto assim, a água não podia comportar a bênção. O costume que os fiéis haviam tomado de lavar os pés, mãos e rosto, continuou mesmo depois da substituição do átrio pelo pórtico. Porém, o incômodo total e a estreiteza deste contribuíram muito para o abandono total desta prática tão bela e tão simbólica. A rotina e o escrúpulo introduziram-se também nesta piedosa cerimônia e, pouco a pouco, os fiéis simularam as antigas abluções, molhando as extremidades dos dedos e traçando o sinal da cruz. Este novo hábito enraizou-se de tal modo que se tornou um ato de piedade. Então a Igreja, para dar a esta crença um fundamento real, introduziu a bênção da água. A pia começou desde então a ocupar o lugar que atualmente ocupa nas nossas igrejas – à entrada da parte de dentro, sustentada por uma coluna ou introduzida, como dissemos, na parede da igreja.

Seria, pois, para desejar que não se utilizassem pias de água benta de certas igrejas, suportadas por gênios pagãos, como tantas vezes tivemos ocasião de ver; nem sequer por pretendidos anjos entrelaçados, de pescoço, braços e pernas nuas, afetando atitudes indecorosas. Evitemos essas profanações da arte e da santidade! Queremos ser cristãos, sejamo-lo em tudo. Já se tem feito muito pela restauração do espírito da Liturgia católica, mas é preciso envidar todas as energias para o restabelecer em todas as suas manifestações, única maneira de em tudo ser Deus glorificado e o próximo, edificado.

Tenham os párocos a peito a limpeza das pias de suas igrejas e recomendem muitas vezes aos fiéis aquela prática tão salutar de terem em suas casas uma pequena cápsula de água benta. Se percorremos a história, vemos que antigamente não se encontrava na Europa católica uma só casa, rica ou pobre, da cidade ou do campo, que não possuísse água benta.

Em casa, o lugar próprio da pia da água benta é o quarto de dormir, ao lado da cama. É ali, com efeito, que o cristão adormece, depois dos rudes trabalhos e fadigas do dia; é ali que acorda, com novas forças para servir a Deus com mais constância; e… é talvez ali que há de morrer. Mas não se esqueça: também que é ali que o inimigo incansável, justamente chamado na Sagrada Escritura (Carta de Pedro, cap. 5) leão sempre a rugir: “tanquam leo rugiens circuit quaerens quem devoret”, procura perturbá-lo com seus ataques noturnos e surpreender o seu último suspiro.

“Todos tenham, pois, em casa à cabeceira da cama, uma porção de água benta, numa cápsula tão elegante e bela quanto possível” para deste modo afugentar o inimigo da salvação e atraírem as bênçãos de Deus.

Sobre as pias de água benta (I)

Postado em 22 março 2012 by E. Marçal

Quem nunca mergulhou os dedos numa pia de água benta, ao entrar numa igreja, e fez sobre si o sinal-da-cruz?! Bem, ainda pode-se fazer isso naquelas igrejas que conservam esse venerável e antiquíssimo costume. Infelizmente, poucas mantêm isso. Neste artigo, disposto em duas partes, conheceremos a origem das pias de água benta e a sua evolução ao longo dos anos e, mais uma vez, nos convenceremos como a Igreja é uma mãe que dispõe de tudo para a salvação de seus filhos e só quer a sua felicidade, como o disse o Cardeal Rainer Woelki, Arcebispo de Berlim.

* * *

Capítulo I – Origem e matéria 

Autor desconhecido

À entrada dos templos do paganismo e no átrio das casas romanas, havia grandes recipientes de água; ali para os sacerdotes se purificarem antes dos sacrifícios; aqui para os hóspedes se lavarem à chegada à casa.

Mar de Bronze do Templo de Jerusalém
Os judeus faziam seu uso para se limparem antes de entrarem no Templo 

No capítulo XXX do Êxodo, o Senhor prescreve a Moisés que coloque um vaso de bronze entre o tabernáculo do Testemunho e o altar. Antes de se aproximarem do Tabernáculo ou do altar, os sacerdotes deviam lavar as mãos e os pés e, só depois, é que estavam aptos para oferecer os perfumes ao Senhor. Mais tarde, Salomão mandou construir no adro do Templo de Jerusalém um vasto e magnífico tanque de água, chamado Mar de bronze – Mare Æneum, onde os judeus deviam lavar-se antes de penetrarem no Templo.

A Igreja, depositária de todas as grandes tradições, teve a peito conservar também este costume que São Paulo já recomendava ao seu caro discípulo Timóteo e, na pessoa dele, a todos os fiéis: “Quero que em toda parte se ore com as mãos puras” (I Carta a Timóteo, 2, 8).

Fonte em Hagia Sophia, Istambul, Turquia

Muitos Santos Padres referem-se nas suas obras a esta prática. Não menos explícitos São Tertuliano, São Cirilo de Jerusalém e muitos outros. São Paulino de Nola chama canthari aos vasos em que os cristãos “lavavam as mãos e outras partes do corpo”.

Dom Leclercq [n.e. monge beneditino falecido em 1993] refere-se ao cantharus aquarum colocado no centro da basílica de São Paulo na Via Ostiense.

Podemos, pois, afirmar sem medo de errar que estas pias estiveram em uso corrente entre os primeiros cristãos logo desde a fundação da Igreja, como diz Eusébio [n.e. em sua História Eclesiástica].


Fonte em
Hagia Sophia ainda usada para abluções

Dada a paz à Igreja (313), esta começou a edificar publicamente majestosos templos em cujos átrios aparecem fontes destinadas às abluções. Estas fontes, pias ou piscinas, em que se purificavam o corpo, recordavam a limpeza e santidade interior, necessária para se poder transpor o limiar santo da casa de Deus. Eram também uma lembrança e imagem do batismo, como diz Eusébio: “Que estas fontes representam o banho do santo Batismo”.

Mas então a água ainda não era dotada de virtude sobrenatural, pois só mais tarde é que a Igreja introduziu a benção que fez dela um sacramental. E assim a Igreja, como a mais carinhosa das mães, substituiu às fontes primitivas as pias da água benta colocadas à entrada das nossas igrejas; eleva a água a sacramental e enriquece-a de indulgências.

Uma reminiscência desses canthari são ainda as fontes e os chafarizes dos claustros e pátios dos mosteiros e catedrais.

E na mesma linha da tradição, se encontram as piscinas, como as célebres de Lourdes, e em Portugal as de Fátima, onde, por intercessão de Maria, opera Deus tantos prodígios.

Pia batismal, ano 700, na Catedral anglicana de Wells, Inglaterra
A igreja era católica, mas foi confiscada na Reforma Anglicana 

Quantas recordações de fé e de devoção deveria suscitar em nós essa pia de água benta, adornada ou simples, de mármore ou louça, que nos espera à porta das grandiosas igrejas da cidade ou das humildes capelinhas do campo! Alfredo de Musset (n.e. dramaturgo francês do século XIX) dizia: “Quão agradável me é contemplar a cruz branca e a pia de água benta ali à entrada do austero mosteiro”.

* * *

Vejamos agora a matéria de que eram feitos esses vasos.

As muitas escavações que se têm levado a efeito, permitem supor que era muito frequente o emprego de pedra porosa. Mas esta não era a única matéria de que deitavam mãos os primeiros cristãos. Boldetti, explorador das Catacumbas, diz ter encontrado pias de água benta, umas de mármore – sobretudo branco – outras de argila e finalmente outras de vidro.

Fonte de chumbo, ano 1140, na entrada da Capela da Virgem da Catedral anglicana de Gloucester, Inglaterra
Esta igreja também era católica, mas foi confiscada por Henrique VIII quando de sua apostasia

Sabe-se também que o metal, sobretudo o bronze, era muito empregado para construções desse gênero.


Em geral, essas pias eram de forma redonda, havendo-as, contudo, de outras formas. Só muito mais tarde é que começaram a tomar a forma de concha como se vê em muitas igrejas atuais.

A dimensão das antigas pias era considerável, como se pode julgar por vários canthari, entre os quais se destaca um encontrado em Constantinopla. Nem é para admirar que assim fosse, pois, como já dissemos os primeiros cristãos tinham de lavar neles a face, mãos e pés. Mais tarde, quando foi introduzida a bênção da água, esta dimensão tornou-se mais reduzida; porquanto há notícia de os fiéis levarem para suas casas em pequenas cápsulas água benta.

Numerosos adornos e inscrições davam um novo valor a essas obras de arte em si já tão importantes. Um desses adornos, talvez aquele que se preferia a qualquer outro, era Cruz. E ele tem-se conservado através de todos os tempos. O modo de gravar a cruz nas sobreditas pias varia de umas terras para outras. Numas, a cruz era talhada na pedra que se elevava a formar o dorso da pia; noutras, era gravada na frente, na borda. É raro encontrar-se a cruz nas pias que têm a forma de concha.

Serviam de ponto de apoio às pias ricas colunas: é o caso do cântaro, já acima mencionado da basílica do Vaticano, da de Salerno, de Ravena etc. E em muitas das nossas igrejas atuais se nota o mesmo, bem que em muitas delas a pia esteja introduzida na própria parede do tempo.

Esta redução da pia da água benta é devida, sobretudo, ao fato do atrium das antigas igrejas irem decrescendo sempre a ponto de desaparecerem por completo em muitas igrejas.

Continua…