Direto da Sacristia
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Sobre as pias de água benta (II)

Postado em 17 Maio 2012por E. Marçal

Depois de longo atraso devido a problemas de acesso aos arquivos salvos no notebook, publicamos a segunda e última parte do artigo sobre a origem e evolução das pias de água benta.

Vimos que, originalmente, a água depositada nelas não recebia qualquer bênção litúrgica e servia mais para procedimentos higiênicos, tal como as abluções judaicas. Aos poucos, depois de tornar-se sacramental, a água passa a ser conservada em pias que variavam do mármore até ao vidro, da argila ao bronze; de grandes dimensões à redução a conchas suspendidas por uma coluna.

* * *

Já vimos a água do cantharus não recebia nenhuma bênção litúrgica pelo menos nos primeiros séculos, e a razão é óbvia. Sabe-se, com efeito, que o cântaro era abastecido de água corrente ou, pelo menos, renovada frequentemente. É claro que sendo isto assim, a água não podia comportar a bênção. O costume que os fiéis haviam tomado de lavar os pés, mãos e rosto, continuou mesmo depois da substituição do átrio pelo pórtico. Porém, o incômodo total e a estreiteza deste contribuíram muito para o abandono total desta prática tão bela e tão simbólica. A rotina e o escrúpulo introduziram-se também nesta piedosa cerimônia e, pouco a pouco, os fiéis simularam as antigas abluções, molhando as extremidades dos dedos e traçando o sinal da cruz. Este novo hábito enraizou-se de tal modo que se tornou um ato de piedade. Então a Igreja, para dar a esta crença um fundamento real, introduziu a bênção da água. A pia começou desde então a ocupar o lugar que atualmente ocupa nas nossas igrejas – à entrada da parte de dentro, sustentada por uma coluna ou introduzida, como dissemos, na parede da igreja.

Seria, pois, para desejar que não se utilizassem pias de água benta de certas igrejas, suportadas por gênios pagãos, como tantas vezes tivemos ocasião de ver; nem sequer por pretendidos anjos entrelaçados, de pescoço, braços e pernas nuas, afetando atitudes indecorosas. Evitemos essas profanações da arte e da santidade! Queremos ser cristãos, sejamo-lo em tudo. Já se tem feito muito pela restauração do espírito da Liturgia católica, mas é preciso envidar todas as energias para o restabelecer em todas as suas manifestações, única maneira de em tudo ser Deus glorificado e o próximo, edificado.

Tenham os párocos a peito a limpeza das pias de suas igrejas e recomendem muitas vezes aos fiéis aquela prática tão salutar de terem em suas casas uma pequena cápsula de água benta. Se percorremos a história, vemos que antigamente não se encontrava na Europa católica uma só casa, rica ou pobre, da cidade ou do campo, que não possuísse água benta.

Em casa, o lugar próprio da pia da água benta é o quarto de dormir, ao lado da cama. É ali, com efeito, que o cristão adormece, depois dos rudes trabalhos e fadigas do dia; é ali que acorda, com novas forças para servir a Deus com mais constância; e… é talvez ali que há de morrer. Mas não se esqueça: também que é ali que o inimigo incansável, justamente chamado na Sagrada Escritura (Carta de Pedro, cap. 5) leão sempre a rugir: “tanquam leo rugiens circuit quaerens quem devoret”, procura perturbá-lo com seus ataques noturnos e surpreender o seu último suspiro.

“Todos tenham, pois, em casa à cabeceira da cama, uma porção de água benta, numa cápsula tão elegante e bela quanto possível” para deste modo afugentar o inimigo da salvação e atraírem as bênçãos de Deus.

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