Direto da Sacristia
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Sobre os sinos (III)

Postado em 16 Março 2012por E. Marçal

Como um atraso ocasionado por um imprevisto no acesso a este texto, publicamos a última parte deste artigo sobre os sinos. No artigo anterior, vimos a origem e a evolução da bênção desses vasos sagrados. O rito começa com a recitação de 7 salmos penintenciais, que são concluídos com uma oração sobre a água que evoca poderes ao sino sobre as instabilidades da natureza, a ação dos demônios, à convocação dos fiéis e dos anjos para o culto sagrado. O Bispo inicia a ablução do vaso, que é prosseguida e terminada pelos ministros, enquanto o Bispo e os demais presentes rezam outros dois salmos laudatórios. Já aqui podemos nos lembrar da cerimônia de batismo.

O Bispo unge o sino com o Óleo dos Enfermos, e em seguida reza a Deus para que, como as trombetas do povo judeu que convocavam o povo, também esse vaso convoque os fiéis com o único e perfeito sacrifício que é maior do que todos os outros; e ainda reforça o pedido de que a natureza seja governada ao seu toque. É recitado um salmo que apresenta o seu som como a voz de Deus  instruindo os homens.

Para exorcizar o vaso, mas ao mesmo tempo fortalecê-lo como aos doentes, o Bispo unge-o externamente com 7 cruzes feitas com o Óleo dos Enfermos, seguidas de 4 cruzes, em sua parte interna, com o Santo Crisma, que o santifica e o consagra. A unção crismal e esta sendo feita em nome da Santíssima Trindade, lembram-nos a cerimônia da Confirmação dos fiéis, fato que ainda mais cerca essa bênção de um sentido particularíssimo. Pararelamente à unção, o Bispo dedica o vaso a um santo.

Nesta última parte do artigo, saberemos a origem da atribuição do sino ao nome de um santo e veremos numa oração que o Bispo mais uma vez pede que as calamidades meteorológicas sejam dissipadas pelo seu toque sonoro (talvez esse grande medo deva-se à incapacidade humana tanto de prever como de minimizar as vicissitudes climáticas à época em que os textos rituais foram redigidos) e que os fiéis congregados pelo som do sino nunca abandonem a fé que lhes foi dada pela Igreja.

Ainda saberemos da belíssima cerimônia do uso do incenso, de uma última oração que resume as atribuições do sino, da participação no rito da madrinha ou do padrinho do sino. O rico e memorável ritual é concluído com a leitura do Evangelho da visita de nosso Senhor à casa de Maria e Marta, uso do qual é explicado mais adiante. 

 * * *

OS SINOS
Capítulo II – “Batismo” ou Bênção dos Sinos
Parte II
(publicado originalmente na edição de maio-julho 1932)

Pe. Thomás Gonçalinho

Dá-se ao sino o nome de um santo ou de uma santa. Este costume data do século X. No ano de 968, o Papa João XIII benzeu um grande sino que mandou colocar na igreja de Latrão e ao qual deu o nome de João Batista, titular da igreja2. Este uso, segundo alguns autores, deve-se à necessidade que havia de distinguir os sinos uns dos outros e também ao desejo de excitar nos fiéis a pontualidade em acorrer aos ofícios divinos, fazendo-lhes ver que não são chamados apenas por um instrumento inanimado, mas pela voz de um santo. Não contribuiria pouco para isto o desejo de tornar a bênção dos sinos com o Batismo.

O Bispo pede que, semelhantemente às trombetas usadas pelos judeus,
os sinos também vençam os inimigos das almas dos fiéis

Depois disto, o Bispo diz a seguinte oração:

Onipotente e sempiterno Deus, que diante da Arca da Aliança, fizeste cair, ao som das trombetas os muros de pedra que protegiam o exército inimigo, derramai sobre este sino a bênção celeste, para que diante de seu som fujam para longe os dardos inflamados do inimigo, o golpe do raio, o choque das pedras, os estragos das tempestades; para que, à interrogação profética: “que tens, ó mar, porque fugiste? retrocedendo os seus movimentos como a corrente do Jordão”, respondam: “Diante da face do Deus de Jacó, o qual converteu a pedra em tanques de água e fez sair do rochedo fontes de água”. Dai glória não a nós, mas ao Vosso Nome, fazendo brilhar sobre nós a Vossa misericórdia para que, sendo este vaso, como os outros vasos do altar, tocado pelo sagrado Crisma, ungido do Óleo santo, todos aqueles que ao som dele se reunirem, livres de todas as tentações do inimigo, sigam sempre os ensinamentos da fé católica. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que Convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo de Deus, por todos os séculos dos séculos.

Dita esta oração, o Pontífice impõe num turíbulo thymiama, incenso e mirra, e coloca-o debaixo do sino de modo que este receba todo o fumo. Cerimônia de um tocante simbolismo. Deus serviu-se do fumo do fígado de um peixe para afugentar o demônio da habitação de Sara e Tobias (cf. Tobias VIII, 2s).

 

O Bispo deita incenso no turíbulo que estará sob o sino, para que a fumaça perfumada preencha o seu interior,
em alusão à fumaça usada por Tobias para afugentar os demônios e como sendo o incenso queimado a voz humana em oração.
Na foto, o Cardeal Rodé impõe incenso sob o altar recém-consagrada na dedicação da primeira igreja dos Arautos do Evangelho
24 feveiro 2008

Do mesmo modo se serve do fumo destes perfumes para afugentar os espíritos infernais que vagueiam pelos ares. Mas tem ainda outro significado. A voz do sino é a voz do homem que se eleva como volutas de incenso até ao trono de Deus em humilde oração, segundo aquelas palavras do Salmista: Dirigatur, Domine, oratio mea, sicut incensum in conspectu tuo (Salmo CXL, 2). Simboliza também as graças de Deus que o som do sino chama sobre os mortais; pois quando o sino toca, o Senhor recorda-Se das orações que a Igreja nesta bênção faz subir até Ele e que Ele não pode deixar de atender, como fazia outrora com o Povo escolhido quando, nos combates, ressoava o som estridente das trombetas sacerdotais (cf. Números X, 9).

Durante esta cerimônia, a schola canta o salmo 76, desde o versículo 17: Viderunt te aquae, Deus, até ao fim, com a antífona: Ó Deus, os vossos caminhos são santos; qual é o Deus tão grande como o nosso Deus?

A última oração do rito pede que o Senhor conceda ao sino aquele poder de acalmar a fúria da natureza
que Ele mesmo manifestou em um episódio evangélico

Depois disto, o Pontífice diz a seguinte oração:

Onipotente dominador Jesus Cristo, que estando Vós a dormir no navio conforme as necessidades da natureza que assumistes, tendo-se levantado no mar uma tempestade, a dissipastes com as Vossas ordens apenas acordado, socorrei pela Vossa bondade às necessidades do Vosso povo; cobri este sino com o rocio do Espírito Santo, para que ao seu som fuja sempre para longe o inimigo dos bons; o povo cristão seja convidado à fé; o exército inimigo seja aterrado; o Vosso povo por ele convocado seja fortalecido no Senhor, e o Espírito Santo, encantado com o seu somo como outrora com o som da harpa de Davi, desça sobre ele; e assim como quando Samuel oferecia em holocausto um terno cordeiro, o fragor dos ventos repeliu a turba inimiga, assim, quando o som deste sino ecoar nas nuvens, as mãos dos Anjos protejam a assembleia da Vossa Igreja e a Vossa sempiterna proteção salve as messes dos fiéis, bem com as suas almas e os seus corpos. Por vós, Jesus Cristo, que viveis e reinais com Deus Pai, etc.

Semelhantemente a um recém-batizado, o sino consagrado é revestido com um pano branco
Na foto, neófita ajoelhada durante a Missa da Vigília Pascal do ano passado presidida pelo Papa Bento XVI
Créditos de imagem a Stefano Spaziani

 

O Pontifical não faz menção do padrinho e madrinha do sino, nem do pano branco em que ele é envolvido; são costumes locais que mais profundamente gravam no espírito dos fiéis a ideia de Batismo. Não, este rito não é um batismo, como também não é uma simples bênção, mas sim uma consagração; e é com este nome que ainda hoje é designado no Direito Canônico3. O sino é consagrado, como são consagradas as igrejas, os altares, os cálices, as patenas. O sino é um vaso sagrado que deve ser tratado com todo o respeito como os vasos do altar, pois, como eles, foi ungido do Santo Crisma. Este respeito para com o sino era muito grande nos tempos passados e tanto assim que só o podia tocar um ministro para isso delegado pela Santa Igreja – o porteiro ou ostiário [n.e. uma das ordens menores que foram supressas pela reforma litúrgica, mas que continuam válidas, sob indulto papal, para aqueles institutos ligados ao rito antigo]; e é por isto que este ainda hoje na sua ordenação toca o sino ou uma campainha.

Não me quero estender mais em considerações sobre os sinos. Muitas e muito úteis se poderiam tirar deste admirável conjunto de ritos e fórmulas; mas, porque este artigo já vai muito longo, fica esse trabalho ao cuidado dos leitores.

Esta tão encantadora cerimônia termina pelo canto de um trecho do Evangelho de São Lucas (X, 38-42), em que se nos fala da visita de Jesus à casa de Maria4. Marta é a imagem daqueles que se entregam à vida ativa. Maria é o tipo dos contemplativos. Àqueles, o sino dirige aquela amorosa repreensão do Divino Mestre: “Por que vos afanais tanto com as coisas terrenas e caducas, com prejuízo da salvação da vossa alma? E, todavia, é isto a única coisa necessária”. O sino incita-nos a trabalhar neste único necessário de muitas maneiras. Aviva em nossas almas a fé nos mistérios de nossa santa religião, quando nos dias das grandes solenidades se ouve o seu repicar alegre. Em dias de luto, com o seu badalar lúgubre, recorda-nos que a nossa pátria não é neste mundo e que devemos caminhar para uma vida melhor. Recomenda-nos a santidade da alma e a pureza do coração, quando ecoa pelos ares o seu toque festivo em dias de um batizado ou de uma profissão de fé (comunhão solene). Chama-nos à igreja para aí cumprirmos os nossos mais sagrados deveres de religião, para aí ouvirmos a palavra de Deus, para aí trabalharmos mais diretamente na salvação da nossa alma. Abramos docilmente os nossos corações à voz do sino, como Maria [n.e. o autor do texto refere-se, porém, à Maria Madalena] às palavras do Salvador, e aproveitemos a melhor parte – “Maria optiman partem elegit”.

* * *

Depois de conhecermos a riqueza teológica que permeia o uso dos sinos na Igreja, resgatemos em nós a importância que eles têm para a nossa vida espiritual e o valor que eles significam. Hoje, com o esquecimento dos valores cristãos e o crescente desejo que apagar os sinais da fé, muitas igrejas não podem repicar os seus sinos a fim de não incomodar os incomodados vizinhos seus que não permitem sequer uma bela tradição que lhes precede na história e que não. Assim, em muitas grandes cidades, o único sino que é escutado é o da campainha, durante as cerimônias – se é que esse sinal sonoro não foi totalmente abafados pelas músicas que em muitas igrejas se cantam durante os momentos de adoração à Eucaristia.

Como fruto de nosso estudo e como modo de lembrarmo-nos da beleza do toque desse vaso sagrado, assistamos nos seguintes vídeos o seu toque em dois momentos bem diferentes: no primeiro, o sinal fúnebre de um sino do Vaticano anunciando a morte do Papa João Paulo II, em 02 abril 2005; no segundo, o seu repique festivo pela eleição pontifícia do Papa Bento XVI (especificamente, a partir do ponto 5’54”).

 

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2 Treiner, autor desta informação, parece afirmar que foi João XIII quem introduziu a bênção dos sinos. Os documentos que citamos acima provam que ela é muito mais antiga.

3 Além desta bênção solene ou consagração que se encontra no Pontifical Romana e que é reservada ao Bispo, não podendo dá-la a um simples sacerdote sem indulto apostólico, há outra mais simples, aprovada pela Sacra Congregação dos Ritos em 22 de janeiro de 1908, que vem no Ritual Romano e pode ser dada pelo Ordinário ou por sacerdotes por ele delegados. É [n.e. o era naquela época, mas ainda deve ser observado quanto ao uso desta bênção] desejo da Sacra Congregação para os Ritos que na bênção dos sinos de uma igreja consagrada, se observe a fórmula do Pontifical, que também se pode seguir quanto aos sinos das outras igrejas.

4 O canto do Evangelho foi introduzido provavelmente no século XIII.

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