'

Como um padre é nomeado Bispo em Roma?

Postado em 14 junho 2016 by E. Marçal

Há uma diferença sim: se o nomeado não é residente na Cidade Eterna, normalmente, o Núncio Apostólico comunica-lhe a nomeação por telefone ou pessoalmente. Nem sempre é uma sugestão, mas a comunicação que o Papa precisa dele como Bispo. Então, geralmente, já aceitando a decisão, o nomeado diz ao Núncio em qual dia deseja que a nomeação seja oficialmente publicado, e até lá é proibido falar a alguém, a não ser o próprio confessor ou diretor espiritual, que mantém sigilo.

Frei Francisco de Sales Alencar, carmelita brasileiro de 48 anos, até agora Secretário-Geral da Ordem em Roma,
nomeado pelo Papa Francisco como Bispo diocesano de Cajazeiras.
Imagem: Ordem do Carmo

Quando coincide a nomeação episcopal com o padre residindo em Roma é aquilo que sucedeu a Mons. Francisco de Sales Alencar, padre carmelita brasileiro, de 48 anos:

Era segunda-feira, dia 23 de maio. O então Frei Sales preparava-se para mais um dia, ao longo dos 2 últimos anos, de trabalho como Secretário-Geral da sua Ordem Carmelita, num convento a poucos metros da Basílica Papal de Santa Maria Maior. Mas ele não sabia que quando atendesse ao celular, que tocava, sua vida mudaria como ele não esperava: começou a lhe falar Dom Ilson Montanari, Secretário da Congregação para os Bispos, a propósito que o Prefeito Cardeal Ouellet o convocava para uma audiência privada, na sede da mesma Congregação, dali 3 horas.

Uma audiência privada numa Congregação vaticana, ainda mais com o seu próprio Prefeito, é algo mais específico do que uma visita ao Núncio Apostólico de um país: nomeação episcopal. Às 11h30min Frei Sales já aguardava para falar com o Cardeal Ouellet. O purpurado começou a lhe falar sobre sua Ordem Carmelita, sobre os seus trabalhos e a sua história, tal comumente acontece quando o mais interessado na conversa a prepara para o seu motivo principal: o Papa Francisco decidira nomear Frei Sales como Bispo diocesano de Cajazeiras, na Paraíba, vacante há 8 meses, depois da renúncia do Bispo por limite de idade, cujo governo durou 14 anos. E mais: o Cardeal, tal como os Núncios o fazem, disse-lhe que o Pontífice esperava pela aceitação. Feita esta, combinaram para a publicação oficial, às 12h de Roma do dia 08 de junho.

Frei Sales já feito decisões e tido surpresas de Deus em seus 30 anos como carmelita: foi prior de conventos, administrador e vigário de paróquias, reitor da mais antiga Basílica carmelita do Brasil, provincial (superior) dos carmelitas do Nordeste por 2 mandatos sucessivos e nos últimos 6 anos exerceu, até ao mesmo tempo, três cargos de sua Ordem em Roma. Mas entre os dias 23 de maio e 08 de junho ele percebeu que a surpresa de Deus era algo realmente inesperado: significava não só a grande responsabilidade de guiar uma diocese como Bispo, mas se desligar juridicamente da sua Ordem, embora continue como carmelita. Ele nunca esperou por isso, mas sempre pensou que tudo o que lhe acontece, embora difícil, é plano de Deus; é o terceiro Provincial carmelita do Nordeste que é nomeado Bispo, sucessivamente.

Ele começou, então, a organizar o fim de seus trabalhos em Roma. Escolheu como sagrante principal de sua ordenação episcopal Dom Antônio Fernandes Muniz, Arcebispo de Maceió, seu confrade carmelita. Como co-sagrantes principais, entre os demais bispos que certamente estarão presentes, escolheu Dom Antônio Fernando Saburido, Arcebispo de Olinda e Recife, e Dom Paulo Cardoso, Bispo emérito de Petrolina (sua diocese natal até a divisão canônica em 2010). A sagração episcopal acontecerá no fim da tarde do dia 14 de agosto, domingo, em sua cidade natal, Araripina, interior do Estado de Pernambuco.

Isto demonstra, embora pensando que já estamos fazendo tudo que podemos ou Deus não poderá nos pedir mais nada, os Seus desígnios sempre são novidades e mais do que aquilo que esperamos: Deus surpreende nossas expectativas, sem nos abandonar. Ele agora põe a mitra na cabeça, o báculo na mão, a cruz sobre o peito de Frei Sales e o veste de batina violácea, sobre o seu hábito marrom, mas Ele mesmo o sustentará.

Embora religioso, Frei Francisco de Sales tem o título de Monsenhor Protonotário Apostólico até o dia de sua sagração episcopal. Por fim, escolheu ser chamado como o Santo do qual tomou o nome: Dom Francisco de Sales.

O Cardeal que deixou de ser cardeal

Postado em 25 fevereiro 2015 by E. Marçal

Um caso raro 

Com informações de Dom Sergio Pagano,
Prefeito dos Arquivos Secretos do Vaticano

O Pe. Louis Billot foi tão famoso em seus escritos teológicos, auxiliares na boa formação sacerdotal, que foi conhecido com o “príncipe dos teólogos” na primeira metade do século XX. Também participou da autoria da encíclica “Pascendi” de Pio X, que definiu suas políticas eclesiásticas.

Por tantos méritos e como forma de homenagear a sua alta contribuição à Igreja, o mesmo Pio X o criou Cardeal-Diácono em 1911, quando ainda não havia a obrigatoriedade de todos os Cardeais ou já serem Bispos ou serem sagrados como tais em virtude da nomeação cardinalícia, regra, munida de exceções, estabelecida por João XXIII. Portanto, o Cardeal Billot continuou como sacerdote sem ser promovido ao episcopado, uma vez que não foi feita a sua eleição.

Assim, participou de dois conclaves: em 1914, que elegeu Bento XV, e em 1922, que elegeu Pio XI e mudaria a sua vida.

Pio XI, em pintura, o Papa que conseguiu do governo de Mussolini o território do Vaticano
e o reconhecimento internacional da Santa Sé como Estado independente

O Cardeal Billot reivindicou seu apoio à Ação Católica na França que, com vertente política cristã, defendia o retorno da monarquia à livre República Francesa. Isso não agradou a Pio XI, que não quis problemas diplomáticos e religiosos com o governo francês. Por isso, o jornal da Ação francesa foi posto na Lista dos Livros (ou publicações proibidas). O Cardeal criticou e disse que Roma não podia intervir numa pretensa causa justa. Em resposta, Pio XI não só reforçou a proibição da leitura do jornal pelos católicos, como forçou mais e vetou a participação dos fiéis no próprio movimento. O purpurado francês não voltou em suas convicções.

Pio XI foi o Papa que terminou com as tensões políticas e religiosas entre o Vaticano e a Itália. Ele, portanto, providenciou que a Igreja não iniciasse mais um grave problema político. Por fim, o Cardeal Billot foi recebido em audiência pelo então Pontífice em 13 de setembro de 1927. Ha 2 versões para o desfecho disso:

1. A mais eloquente: o Papa retirou do Cardeal o barrete e o anel cardinalícios, o que significava imediata remoção do Colégio dos Cardeais.

2. A tornada pública: o Cardeal apresentou a sua renúncia como membro do Colégio Cardinalício, tornada pública aos Cardeais no dia seguinte e aceita pelo Papa oito dias depois.

Portanto, não havia tanta certeza se o Papa retirara dele o cardinalato ou fora ele próprio que renunciou à criação cardinalícia.

Embora a imagem seja em preto-e-branco, devido ao arminho abaixo do pescoço,
presumimos que o Cardeal Billot esteja com a veste coral cardinalícia solene,
que inclui também a capa magna

Afinal, sabe-se que o Cardeal Billot pedira ao Papa que, se sendo curial, sua opinião política monarquista contrastava tanto com a política oficial da Santa Sé, que lhe fosse permitido se mudar para uma casa jesuíta francesa, onde poderia manter contato com a Ação. Por meio de intermediações do Secretário de Estado, o cardeal Pietro Gasparri, o prepósito geral da Companhia de Jesus, Vlodimiro Ledóchovsky, e o núncio Francesco Borgoncini Duca, o melhor foi que o Cardeal Billot aceitar que o Papa não concordava com suas ideias e renunciar à púrpura cardinalícia, mas sem residir na França.

Ele, que era jesuíta, se retirou para o convento de sua Companhia em Ariccia, ao sul de Roma, e morreu aos 85 anos, em 1931, como um religioso entre seus irmãos, como o fora antes de se vestir como cardeal por 16 anos.

O corpo do ex-cardeal foi sepultado no Campo Verano, em Roma.

O “Habemus Papam” terá voz italiana

Postado em 12 junho 2014 by E. Marçal

O Protodiácono, as Ordens dos Cardeais e os processos de promoção

ALeqM5iQmbb2__BLSmiJgYucKyahXxX48g
A função mais conhecida e visionada do Cardeal-Protodiácono é o anúncio do novo Papa
Na imagem, o então Protodiácono Tauran anuncia a eleição de Jorge Bergoglio como Papa Francisco
© Getty Images

Protodiácono é o Cardeal-Diácono mais antigo segundo o dia e a precedência de sua criação cardinalícia. Quando o Papa anuncia os novos Cardeais que ele criará, ele o faz segundo uma ordem pré-determinada, com motivos próprios. Por exemplo, quis o Papa Francisco que Lorenzo Baldisseri fosse o prmeiro Cardeal-Diácono no anúncio do primeiro consistório de seu pontificado. Depois, o primeiro Cardeal-Presbítero deste consistório em 22 de fevereiro de 2014 foi Vincent Nichols, Arcebispo de Westminster (Inglaterra). Sendo assim, cada consistório tem seus Cardeais mais antigos em cada uma das 3 Ordens Cardinalícias, contudo, para ser o mais antigo de uma Ordem, prevalece o mais antigo prelado vivo naquela Ordem.

Isto acontece porque o próprio Colégio Cardinalício é dividido em três Ordens, segundo as origens destes prelados, membros do Clero de Roma, nas funções que desempenhavam na Cidade. Os cardeais-diáconos recebem simbolicamente antigas igrejas de Roma que eram confiadas aos diáconos, que no início da Igreja tiveram grande destaque principalmente nas obras de caridades. Os cardeais-presbíteros eram os sacerdotes de Roma e hoje, normalmente, são os Arcebispos de grandes dioceses que integram o Colégio. E, por fim, a mais nobre Ordem, a dos Bispos, recebem simbolicamente as catedrais das 6 dioceses suburbicárias (ao redor) de Roma, que remontam aos primeiros séculos, mas não as governam, pois elas possuem bispos diocesanos próprios. Contudo, com o apoio do Concílio Vaticano II, também os Patriarcas orientais são criados Cardeais-Bispos, mas não recebem igrejas latinas, permanecendo, portanto, com as suas igrejas catedrais como título.

Il-Papa-si-dimetteMetade dos Cardeais-Diáconos, num total de 30 nas três Ordens Cardinalícias,
criados por João Paulo II no consistório de setembro de 2003

 

Um Cardeal pode ou não permanecer até a sua morte na Ordem Cardinalícia na qual foi inscrito. Os Cardeais-Bispos latinos são os cardeais-chefes dos principais dicastérios da Cúria Romana. Portanto, ainda que algum chefe tenha ingressado no Colégio por outra Ordem (o que é mais normal e comum), vagando um lugar entre os Cardeais-Bispos, ele pode ser promovido.

Há outro processo de ascensão no Colégio mais comum: Optatio, do latim, “Opção”. Evidentemente no termo, significa que um Cardeal-Diácono tem a livre escolha, o direito de pedir para ser promovido à Ordem seguinte, a dos Presbíteros. Contudo, somente após 10 anos de sua criação cardinalícia.

As primeiras Optationes do pontificado do Papa Francisco e o novo Protodiácono

VT-IT-ART-25515-card_tauran
O Cardeal Tauran é membro do serviço diplomático da Santa Sé
e, enquanto era o Cardeal-Diácono mais antigo, ocupava a função de Protodiácono.
Em março de 2013, anunciou pela primeira e única vez a eleição de um novo Papa,
mas com claros sinais do Mal de Parkinson do qual padece desde 2012,
quando desmaiou concelebrando a Missa de Páscoa com Bento XVI

Os mais antigos Cardeais-Diáconos são os criados por João Paulo II no consistório de 2003 e, deles, o Cardeal Tauran foi o primeiro nomeado da lista. Onze foram criados Cardeais-Diáconos em 28 de setembro de 2003. Portanto, passaram-se pouco mais de 10 anos e lhes assistiu o direito da Optatio.  O rito ocorre durante um consistório (reunião de cardeais com o Papa) para o voto das causas de canonização. O último fora o do voto para a canonização de João XXIII e João Paulo II, em 30 de setembro. Hoje, 12 de junho, no primeiro consistório após vigorar o direito da Optatio.

renato_raffaele_martino20080714_0011

O Cardeal Martino, novo Protodiácono, tem 81 anos e já serviu nas Nunciaturas da Santa Sé
no Brasil, Nicáragua, Tailândia, Singapura e Malásia, sendo inclusive Núncio em algumas delas

10463968_593311274110257_929173458745681072_n
O Cardeal Martino saúda o Papa Francisco, cujo sucessor ele anunciará do balcão central da Basílica de São Pedro no Vaticano
© Radio Vaticano

Portanto, tendo 6 Cardeais-Diáconos (5 morreram) de 2003 pedido para acender à Ordem dos Presbíteros, e, entre eles, o então Protodiácono Jean-Louis Tauran, a antiguidade na Ordem dos Diáconos passou o Cardeal Martino, que não solicitou a sua promoção à Ordem dos Presbíteros e, com 81 anos, já não é mais eleitor papal, mas pode receber votos em conclave.

Os Cardeais-Diáconos que solicitaram a ascensão à Ordem dos Presbíteros não mudam de igrejas (chamadas de “diaconias”) para as quais foram nomeados quando de sua criação cardinalícia. Ao contrário, as suas diaconias são chamadas títulos presbiterais pro hac vice (“por enquanto”, do latim) durante o tempo que eles as ocuparem.

As funções do Protodiácono são anunciar o nome do novo Papa e impor a ele o pálio pastoral no início da Missa de inauguração do pontificado.

*

Mais fotos da celebração do consistório de hoje, reunião de Cardeais com o Papa para decidir a canonização de Beatos e atualizações do Colégio Cardinalício, como a Optatio:

10457596_593311284110256_4258294440499533557_n
O Cardeal Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos,
lê ao Papa Francisco e aos Cardeais residentes em Roma e reunidos em consistório
os nomes dos 6 beatos cuja canonização foi aprovada para o dia 23 de novembro de 2014
© Radio Vaticano

10350637_593311280776923_8393124149442670535_n
Mons. Guido Marini, Mestre das Celebrações Pontifícias, anuncia aos presentes
o rito de
Optatio de 6 Cardeais-Diáconos para a Ordem Cardinalícia dos Presbíteros
© Radio Vaticano

10444755_593311277443590_6729897524273998139_n
O Cardeal Tauran saúda o Papa Francisco, de quem anunciou sua eleição em 2013
e agradece a sua promoção a Cardeal-Presbítero
© Radio Vaticano