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Categorias | Sentire cum Ecclesia

A fé na Europa

Postado em 17 agosto 2010 by E. Marçal

A figura dos peregrinos em direção a famosos santuários perpassa a trajetória do tempo e ainda hoje, apesar da atual crise religiosa do continente, assinala diversos pontos da Europa e mostra que a fé subsiste, mesmo em um meio que procura afogá-la.

Texto do seminarista Carlos Donato, da Arquidiocese da Paraíba.

 

 

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Ainda existe fé no Velho Mundo?

Peregrinos no caminho de Santiago de Compostela, Espanha

Caros leitores, esta semana, precisamente na festa da Assunção, deparei-me com uma realidade que pensava não mais existir na Europa, isto é, a dos peregrinos. Homens e mulheres que, vencendo as dificuldades geográficas e metereológicas, caminham por milhares de quilômetros tendo como meta chegar aos santuários visitados por peregrinos dos primeiros séculos ou da Idade Média. Completamente confiados à Divina Providência, esses percorrem a sua via de modo incansável.

Ofereço-vos um exemplo de dois jovens alemães que conheci no domingo passado, quando vieram ao santuário onde me encontro neste período de “Ferr’agosto”. Chamá-los-ei de Dien e Edwirgens, reservando a sua privacidade. São jovens de 25 e 30 anos, correspondentemente, que, partindo da Alemanha, percorrem a pé o percurso de Colônia a Roma, passando por diversos santuários e vilarejos onde encontram abrigo e acolhida.

Quando aqui chegaram apresentaram de imediato a Carta do seu Cardeal Arcebispo, e os carimbos e os selos das diversas paróquias por onde passaram, alemãs, suíças e italianas. Traziam consigo somente uma bolsa com o necessário para sobreviver, uma fé impressionante e a coragem de percorrer países dos quais não conhecem a língua, mas como cristãos eram confiantes na providência divina e na caridade de seus irmãos na fé.

Após haverem caminhado 100 km, do último lugar onde estavam, chegaram a nosso santuário que está em uma montanha. São dois mil metros de altura em uma grande subida. Eram contentíssimos por participarem da Divina Eucaristia, na festa da Assunção em um santuário multissecular dedicado próprio sob o titulo da assunção de Maria aos céus. Do altar, onde me encontrava, olhava os gestos de fé e devoção para com os Divinos Mistérios que eram celebrados, não obstante os sinais que apresentavam do sol escaldante deste período na Europa e de cansaço transformado em alegria de quem pode chegar a uma etapa da meta; podemos dizer um cansaço feliz.

Mesmo sem falar o italiano eles se faziam entender pela linguagem universal dos gestos. E como dizia santo Agostinho, todos nós cristãos falamos uma só língua: a linguagem da caridade. Vendo este fato raro de demonstração de fé, no Velho Mundo marcado pelo indiferentismo, pelo materialismo e pelo niilismo não poderia deixar de compartilhar convosco, caros leitores, este gesto de fé de dois jovens alemães que comoveram a nossa paróquia-santuário “della Madonna Assunta”. Ao raiar do dia seguinte, partiram a Assis de São Francisco.

O exemplo de fé e confiança na Providência desses jovens parece ter dado um beleza a mais às obras de Michelangelo, Borromini e de Perugino que embelezam o nosso templo. Resta-nos somente agradecer ao bom Deus que faz suscitar a fé em nosso Velho Mundo, que cada vez mais se esquece que há um berço cristão donde nasceu e que fez, por meio de tantos missionários, chegar a tantos povos e culturas o anúncio do Evangelho de Cristo. Invoquemos, pois sobre estes dois peregrinos e sobre tantos outros a proteção dos santos da Europa que, como eles, percorreram a pé diversas distâncias para anunciar o Cristo Senhor e Salvador, que a pulcritudine deste gesto suscite mais fé e esperança nesse velho continente europeu.

 

Carlos Donato é seminarista da Arquidiocese da Paraíba
Residente no Seminário Internacional Sedes Sapientiae
da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, Roma
Acadêmico de Teologia da
Pontificia Università della Santa Croce
Correspondente e autor de artigos do blog

 

Dedicação de Santa Maria Maior

Postado em 05 agosto 2010 by E. Marçal

Ofício do dia: Dedicação da Patriarcal Basílica Liberiana de Santa Maria Maior

Hoje, a santa Igreja comemora a dedicação litúrgica da primeira igreja dedicada no Ocidente à Mãe de Deus. Em Roma, o ofício de hoje tem grau de solenidade, assim como o aniversário da dedicação das outras três basílicas patriarcais. O teto de Santa Maria Maggiore do século XVI é revestido com o primeiro ouro vindo das Américas. Este é o primeiro artigos de uma série de tantos outros sobre a Cidade Eterna.

Texto do seminarista Carlos Donato, da Arquidiocese da Paraíba.

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Bendita és tu, Virgem Maria, encontraste graça diante do Senhor.
Conceberás e darás à luz um Filho que será chamado Filho do Altíssimo!

 

Sua Eminência o Cardeal-Arcipreste Bernard Law

Celebramos na Urbi, a solenidade da Dedicação da Basílica Liberiana, ou como comumente chamamos Santa Maria Maggiore, coração mariano da Urbe e do orbe. Trata-se da primeira Igreja do Ocidente dedicada a Mãe de Deus. Nela se conserva, segundo a tradição, a manjedoura de Belém e o famoso ícone da “Salus Populi Romani” pintado por São Lucas e a este atribuída a não-invasão da Cidade por meio dos bárbaros e a libertação da peste que assolava a Europa.

Papa Libério

Segundo a tradição a Virgem Maria teria aparecido ao Papa Libério e pedido que lhe dedicasse uma Igreja e o sinal seria a nevasca em pleno verão escaldante de Roma. Ao mesmo tempo a Santíssima Virgem apareceu a um nobre romano fazendo-lhe o mesmo pedido e dando-lhe o mesmo sinal. Ao amanhecer, o Esquilino, um dos sete montes de Roma, estava coberto de neve em pleno cinco de agosto, onde o calor atinge o máximo, registrando até 40ºC. Ao chegar ao local, o papa após ser informado, encontrou o nobre que ajudou a construir a Basílica. Todos os anos, durante a missa e às Vésperas Pontificais, na patriarcal Basílica se faz chover neve, artificial, sobre o altar recordando o milagre das neves.

Altar Salus Populi Romani
Ícone Salus Populi Romani

Na capela lateral, à esquerda, encontra-se o belíssimo ícone de Santa Maria “Salus Populi Romani” – Salvação do povo de Roma ou Senhora das neves. Trata-se do ícone escrito por São Lucas em Éfeso representando a Virgem Maria, toda Santa, que traz nos braços o Salvador e nas mãos o avental, símbolo do serviço, e o anel, símbolo da escrava. Por sua vez o menino Jesus é revestido das vestes sacerdotais e traz em sua mão esquerda o Evangelho e com a direita abençoa, seus pés estão em movimento como quem parte para anunciar o Reino. Este ícone é amado e venerado pelos Romanos, que diante do mesmo param e elevam súplicas à Mãe de Deus.

Santa Culla

Na mesma Patriarcal Basílica se encontra as relíquias do Papa São Pio V, na capela lateral à direita. Descendo do altar se encontra o altar-relicário da manjedoura de Belém. Nela está contido a santa “Culla” (Manjedoura) onde, segundo a tradição, foi reclinado o menino Jesus pela Virgem Maria na noite santa de Natal. Diante da qual vela a pia imagem do Beato Papa Pio IX que de joelhos intercede pela Igreja de Cristo. Muitos são os peregrinos que acorrem aos pés da Senhora das Neves, no coração agitado de Roma, perto da maior estação de trem, metro e ônibus da cidade, é ali que quis a mãe de Deus a sua igreja e ali faz deste templo um oásis de salvação e de graças a todos que a procuram.

No Brasil, segundo o núncio apostólico S.E.R. Dom Lorenzo Baldisseri , temos a única Igreja-catedral dedicada à Senhora das Neves ou “Salus Populi Romani” fora de Roma. Trata-se da Basílica-Catedral de Nossa Senhora das Neves, na cidade de João Pessoa, Paraíba. A quatrocentos e vinte e três anos que a Virgem Maria vela pela cidade à Ela confiada desde a fundação. Todos os arquidiocesanos dizemos

“Senhora das Neves, ó Virgem Pura, amparai o nosso Estado, amparai a Paraíba!
Protegei a nossa cidade, dai-lhe paz, religião e civismo e socorrei-a em suas necessidades.

Que a Santíssima Virgem das Neves rogue por nós e sempre nos assista junto ao seu Filho Divino o Verbo encarnado Cristo Jesus.

Roma, Primeiras Vésperas da Solenidade de Santa Maria Salus Populi Romani.
Anno Domini MMX

Carlos Donato é seminarista da Arquidiocese da Paraíba
Residente no Seminário Internacional Sedes Sapientiae
da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, Roma
Acadêmico de Teologia da Pontificia Università della Santa Croce
Correspondente e autor de artigos do blog