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A Terra de Vera Cruz

Postado em 24 março 2012 by E. Marçal

Os recentes ataques contra o uso de crucifixos e outros símbolos cristãos em repartições públicas representam mais um episódio na tentativa de, aos poucos e com duros golpes, apagar ao máximo os sinais cristãos que o Brasil, apesar da atual situação da Igreja hoje no país, ainda possui em todos os aspectos da sociedade. Querem fazer de nós uma Igreja sem manifestações públicas de fé, sem conceitos morais que influencie o dia a dia; enfim, uma religião que só seja professada dentro das paredes de um templo.

* * *

Independentemente da índole e das intenções dos portugueses ao descobrirem (ou ocuparem, para alguns historiadores; ou invadirem, para outros) as terras que hoje chamamos de brasileiras, importam-nos agora a narrativa que Pero Vaz de Caminha encaminhou em carta ao rei português Dom Manuel I, depois de intitularem o Monte descoberto como Pascoal (em claras evidência e intenção à oitava de Páscoa que ora era celebrada):

“Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pos o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!”

E assim terminou a missiva:

“Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500″.

Logo ao ocuparem a Terra, as crônicas provam que dois carpinteiros fizeram uma cruz e fincaram-na na areia da praia da Coroa Vermelha. A 4 dias do descobrimento, ou seja, no dia 26 de abril de 1500, foi cantada pelo franciscano frei Henrique de Coimbra a primeira missa, em cujo sermão o Celebrante relembrou os dias de viagem de Portugal e se deteve muito em falar da Cruz, que sob sua efígie os navegantes viajaram.

Erguimento da primeira cruz no Brasil

Celebração da seguda missa no Brasil, em 1º de maio de 1500

Portanto, quatro marcos cristãos fundam o início da civilização deste país: o nome do primeiro monte visto, o primeiro nome oficial da terra descoberta, a primeira construção e o primeiro ato religioso. Mesmo que argumentem com a premissa de que tudo assim ocorreu por serem católicos os portugueses e não um povo sem fé, mesmo assim o fato é que o Brasil nasceu católico, com raízes numa fé sólida e que já contava quase 15 séculos, e o passado, com os quatro marcos citados anteriormente, não pode ser mudado.

Cruz (que ironia aos críticos!) marca o local na Coroa Vermelha da primeira missa

Mas, nem sempre os católicos brasileiros viveram tempos fáceis: a Questão Religiosa é um forte e clássico exemplo da profissão da fé quando desafiada por seus inimigos – de um lado, a feroz luta da Maçonaria contra a Igreja, do outro, a intrepidez de um jovem bispo capuchinho, Dom Frei Vital Gonçalves, que quis e fez o possível para rejeitar o episcopado, mais uma vez sendo a ele elevado pela santa obediência, demonstrou a firmeza como que de um prelado de anos de ministério e amadurecido por muitas provas na vida. Mesmo Dom Vital tendo sucumbido depois de fiel de discussões e sofrimentos por causa de sua fidelidade, a sua coragem e sua história demonstraram que é preciso nunca deixar que vençam, ainda que momentaneamente, o desejo de dissuadir a nossa santa religião.

Em 2008, o deputado Victorio Galli Filho, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) apresentou ao Parlamento nacional um projeto de lei que limitaria a Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira apenas dos católicos apostólicos romanos, e não mais de todo o Brasil.

O então presidente brasileiro Lula e o Papa Bento XVI por ocasião da assinatura do Acordo
Novembro 2008 

No ano seguinte, mais uma discussão nacional envolveu o Vaticano: houve quem analisasse o Acordo Brasil-Santa Sé, assinado em 2008 pelo então presidente Lula e o Papa Bento XVI, como anticonstitucional, ferindo a liberdade e igualdade religiosa, a laicidade estatal e a educação pública. Entre outros termos, que eram executados e só foram oficialmente reconhecidos pelos Chefes de Estados, está a representação diplomática por um núncio apostólico no Brasil e um embaixador brasileiro no Vaticano; a livre atividade da Igreja no país; a personalidade jurídica das paróquias, províncias e dioceses; a salvaguarda do patrimônio da Igreja como patrimônio também do Brasil; a assistência religiosas em hospitais e presídios e aos militares; o estabelecimento de centros de estudo; o reconhecimento de efeitos civis a títulos de graduação e pós-graduação em centros de ensino católicos e o casamento celebrado na Igreja; o ensino religioso como parte importante da formação integral da pessoa; a garantia do segredo do ofício sacerdotal. Por fim, depois de aprovado no Congresso Nacional, em 2010 o então presidente Lula decretou a aprovação do Estatuto Jurídico da Igreja no Brasil.

Magistrados que unânimes votaram pelo banimento dos crucifixos nos tribunais gaúchos, da esquerda para a direita:
Desembargador Marcelo Bandeira Pereira, Presidente; 
Desembargador Guinther Spode, 1º Vice-Presidente;
Desembargador Cláudio Baldino Maciel, 2º Vice-Presidente – Relator;
Desembargador André Luiz Planella Villarinho, 3º Vice-Presidente; 
Desembargadora Liselena Schifino Robles Ribeiro, Corregedora-Geral em exercício

E agora, nesses dias que certamente não são os últimos de contrariedades com os católicos, depois dos debates sobre a legalização do aborto e da união de casais homossexuais, surgiu mais um novo capítulo, que figura mais como atentado contra a a história deste País, do que o reconhecimento de um pseudo-direito: em fevereiro passado, a Liga Brasileira de Lésbicas protocolou, pela segunda vez, na Presidência do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul um pedido para que das dependências dos tribunais gaúchos fossem banidos todos os crucifixos. A sentença inquietou cidadãos comuns e a Associação de Juristas Católicos, que enviaram representações ao Tribunal pela alteração do juízo feito sobre  o pedido. Dois desembargadores se recusaram a acatar a decisão e não o farão até que haja uma medida definitiva. Segundo o colunista Reinaldo Azevedo, a maioria dos 130 desembargadores do Rio Grande do Sul não tinha a menor ideia da decisão do Conselho de Justiça e só tomaram ciência do caso quando ele se tornou público. O desembargador que relatou o pedido, Cláudio Baldino Maciel,  afirmou que isso serve para garantir que apenas símbolos oficiais do Estado sejam expostos nas repartições públicas e que somente assim é possível mostrar os princípios republicanos de um estado laico, pois julgar em uma sala “sob um expressivo símbolo de uma igreja e de sua doutrina não parece a melhor forma de mostrar o Estado equidistante dos valores em conflito”. Enquanto que há quem diga que o Crucificado numa sala onde a justiça deve ser aplicada, também vale para que não se esqueçam os juízes de quem é condenado sem motivos.

Não, Excelência, a intenção não é resguardar a natureza laica do Estado e os seus princípios republicanos. O problema é mais além. É uma forma de tentar fazer com que o povo se esqueça da fé que construiu este País. E, quer destruir um povo e sua história?, acabe com seus símbolos. Não há como falar do povo brasileiro sem citar, em qualquer período, a influência da Igreja, seja quando padres deram início à cidade de São Paulo, ou quando bispos também governaram civilmente o povo, ou quando os católicos influenciaram o governo Vargas. Mas, pode-se dizer: no Brasil há ateus e não cristãos, e, como um Estado democrático, a sua liberdade de consciência deve ser respeitada! É verdade: ninguém melhor do que a Igreja para também reconhecer esse direito. Quem diz isso, esquece-se, todavia, que, embora já existindo ateus no Brasil, a Assembleia Constituinte promulgou a Constituição brasileira de 1988 “sob a proteção de Deus”! E já antes, em outras Constituições brasileiras, tinha sido atendido ao pedido de Igreja de nelas citar o Nome divino.

“Deus seja louvado”. Cédula de 10 reais brasileiros.

Há ainda um movimento para que a expressão “Deus seja louvado”, impressa em todas as cédulas do Real desde 1980, quando assim foi decidido pelo então presidente da República José Sarney, também seja banida. Segundo eles – com aqueles mesmos argumentos, as palavras ferem a laicidade do Estado. O autor da denúncia, procurador Pedro Antônio de Oliveira, notificou o Banco Central, que relembrou ao remetente a Constituição promulgada sob a proteção do Altíssimo e que a nossa República é laica, mas não é “antirreligiosa ou anti-clerical”, e sim que lhe “é vedada apenas a associação a uma específica doutrina religiosa ou a um certo e determinado credo. O procurador Jefferson Aparecido Dias, também não conformado com a decisão do Banco Central, irá recorrer ao ministro Guido Mantega, presidente do Conselho Monetário Nacional. Enquanto isso, em 2011, a Suprema Corte norte-americana vetou o pedido de um ativista ateu de apagar das cédulas do Dólar a frase “In God we trust” (“Em Deus, nós confiamos”). É o que é preciso que o Supremo Tribunal faça aqui.

“In God we trust”. “Em Deus, nós confiamos”. Cédula de 1 dólar americano.

Não é de hoje que a Europa vive sob um relativismo ateu e que questiona os cristãos por sua fé: governos que legalizaram o aborto e e reconheceram como legítima e legal a união civil homossexual, a eutanásia. Mas, assistimos no Brasil a um fenômeno de postulações de reconhecimento civil de solicitações morais que há algum tempo seriam impensáveis, seja em nome de nossa cultura cristã, seja em função do tradicionalismo moral, e que nos surpreende pela rapidez da sequência em que acontece e se sucede e como sempre [o fenômeno] está ligado ao confronto de quem se diz contra às ditas postulações e apresenta motivos para isto. A verdade é que querem fazer de nós uma religião sem voz e expressão públicas, que se encerre nas paredes das igrejas, que tenha rasgadas do Catecismo as páginas sobre a Moral; uma fé que em nada interfira no relacionamento e no pensamento sociais dos seus, e que estes não usem nem pratiquem quaisquer expressões que professem a sua fé, tudo isso em virtude da laicidade do poder público e da liberdade de consciência também de quem não comunga do mesmo credo.

Em nota pastoral, depois de determinada a retirada dos crucifixos das dependências dos tribunais judiciários do Rio Grande do Sul, solicitando aos Párocos de sua diocese a custódia dos mesmos crucifixos que respeitosamente deveriam ser a eles entregues pelos magistrados gaúchos, Dom Antônio Carlos Rossi Keller, Bispo de Frederico Westphalen, denunciou como repúdio a decisão do Conselho de Justiça do Estado gaúcho que contraria a opinião pública da maioria dos habitantes do Rio Grande do Sul.

Poucas são as vozes que se já se levantaram contra esse desejo de alguns que, lentamente, porá fim a tudo aquilo que mesmo sutilmente relembra e professa a fé cristã começada na ereção da cruz na praia da Coroa Vermelha. Ah, mas ainda temos as famosas universidades católicas brasileiras, entre elas as que também ostentam o título de “Pontifícia”, e carregam em si o nome de nossa fé. Antes todos esses centros acadêmicos ensinassem, somado às outras ciências, o que é puramente católico; nenhuma dessas universidades elegesse como guias de estudo ide0logias que repudiam o Magistério e confundem a mente das pessoas. Senão,  poderíamos confiar que, apesar de tudo, ainda certamente formaríamos grandes homens e mulheres que conhecessem e amassem a genuína fé católica. Porque poucas são os estabelecimentos católicos que ainda amam integralmente o título que carregam, sem supressão nem adição na doutrina que ensinam. Muitos só investem na modernização sua estrutura de ensino, se preocupam na preparação de seus alunos para aprovação nos processos seletivos do sistema universitário e, assim, figurarem no topo das listas de melhores instituições, e quase nada aproveitam para serem faróis que iluminam a alma de seus alunos. Quanto perdem em não planejarem bem o que ensinam nas cadeiras de cunho religioso que, talvez, são obrigatórias!

“Et augebitur scientia”. “E aumentou o conhecimento”. Qual?

Um exemplo da aspecto acadêmico católico brasileiro é a revolta que Dom Luiz Bergonzini, Bispo emérito de Guarulhos, provocou ao dizer que a Reitoria da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) não permita mais que pessoas que são claramente contra ensinamentos católicos e assim os ensina, não exerçam mais a livre docência no campus. O fato, tanto a denúncia como o reflexo disso, lembra a discussão que atualmente envolve a Pontifícia Universidade Católica do Peru, a Arquidiocese de Lima e a Santa Sé: professores universitários, que dizem católicos ou não o são de fato, insistem no falso direito de lecionarem dentro de instituições católicas contrariando os pontos que a fé carrega. O “curioso” é que sempre a denúncia a essas e outras universidades vem de fora, mas nunca de alguém que nelas exerce função administrativa.

Mas, ainda há esperança: o mesmo Dom Luiz Bergonzini afirmou ontem que os blogs católicos têm a força de transformar o Brasil e conduzi-lo de volta à paz que a profissão cristã possui. Verdadeiramente, episódios como o apoio incondicional ao Rev.do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior contra as calúnias ditas contra ele ou a denúncia contra o uso da Catedral da atual Arquidiocese de Santa Maria para uma “ordenação” episcopal anglicana, demonstram a força que os católicos convictos têm no uso da internet e o quanto nela pode ser ensinado e esclarecido.

Apesar de tudo, o Crucificado ainda assiste a tudo que é feito e discutido no Senado Federal em Brasília

Um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, cita a avaliação do judeu Carlos Brickmann sobre essa onda de intolerância vinda de quem se diz tolerante com todos os brasileiros. Vale a pena ler e, usando de sensatez, concordar que se progredir o banimento de sinais cristãos, o Brasil terá que mudar os nomes de alguns Estados, de cidades (como São Paulo e São Sebastião do Rio de Janeiro!), de estações de metrô, de logradouros, de instituições de ensino, de monumentos públicos, e demolir o Cristo Redentor!

Que nos perdoem a Liga Brasileira de Lésbicas e todos quantos concordam com elas – e com o devido respeito aos outros credos religiosos, mas aqui primeiro não chegaram os judeus e construíram uma sinagoga, aqui não chegaram por primeiro os muçulmanos e prestaram culto a Alá, nem pastor algum, nem adepto de religião afro-brasileira, nem budista, nem xintoísta, nem pele-vermelha, nem adorador de Satã, nem muito menos um ateu que aqui discorreu sobre um tratado científico! Chegaram aqui, como todos nós sabemos!, navegadores portugueses que trouxeram consigo sacerdotes católicos, que aqui fincaram uma cruz, aqui rezaram missa, e aqui difundiram a fé católica, que desde sempre esteve presente na história brasileira e por isso nunca poderá ser esquecida ou perderá o seu valor.

Momentos em que o sinal da cruz é usado por nós

E quanto à cruz: é sim um sinal eminentemente católico. Nós a recebemos no dia do nosso batismo; sob ela sob absolvidos de nossos pecados na Confissão; com ela somos assinalados com o Crisma na Confirmação; dela recebem o sinal o pão e o vinho antes de serem consagrados em Eucaristia; com ela são abençoados os recém-casados; com ela são ungidos com o Crisma as mãos dos neo-sacerdotes e a cabeça dos bispos recém-sagrados; e com ela são abençoados os doentes com o Óleo dos Enfermos. Com o seu sinal, o sacerdote inicia a Santa Missa; abençoamo-nos antes e depois das refeições, suportamos provações e nos defendemos do mal; persignamo-nos à leitura do Evangelho na Missa; traçamos seu sinal sobre nós ao passarmos em frente a uma igreja e quando recebemos a bênção nas cerimônias. Por fim, o Cristo Redentor, na nossa Cidade Maravilhosa, está disposto em clara referência a ela, e nós, ao abrirmos os braços, também somos uma! Salve, ó Cruz, nossa única esperança!

E nós católicos devemos pensar em uma nova evangelização e não permitir mais que tantas ovelhas saiam do redil da Igreja e se percam; abandonar velhos discursos que nasceram em tempos passados e já não mais respondem aos dias atuais; mas uma catequese que se baseie na verdade católica, totalmente aquém de idiossincrasias e de tentativas de “cristianizar” pensamentos ideológicos. É preciso acordar e ver que nem sempre atendemos ao mandato do Senhor: “Fazei discípulos meus todos os povos”.

Aspecto do Santuário Nacional Nossa Senhora Aparecida durante uma Missa

Ainda temos sim motivo para agradecermos a Deus a fé que possuímos e por sermos brasileiros! Basta que não nos calemos, que denunciemos a todos o que querem fazer com esse País consagrado a nosso Senhor e à sua Santíssima Mãe e tão caro aos Papas. Que o Brasil volte a reverenciar os Mistério de nossa fé, tal como fez um índio, quando da primeira missa em 1500, ao apontar para o altar e, logo em seguida, apontar para o céu: explicação clara e simples do que é o Augusto Sacramento. Que, a plenos pulmões, voltemos a cantar, devido às raízes genuinamente católicas deste País, como no II Congresso Eucarístico Nacional, no ano de 1939, em Recife: “Creio em ti, Hóstia Santa, até a morte! Quem não crê, brasileiro não é!”.

[audio:http://diretodasacristia.com/home/wp-content/uploads/2012/03/Queremos-Deus.mp3] Queremos Deus, homens ingratos. Ao Pai Supremo, ao Redentor. Zombam da fé os insensatos, erguem-se em vão contra o Senhor.

 

Esta foi e sempre deverá ser a Terra de Vera Cruz.

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A título de informação:

As Repúblicas de Costa Rica e de Malta e os Principados de Mônaco e Liechtenstein reconhecem o Catolicismo como religião de Estado.

Andorra, Argentina, República Dominicana, El Salvador, Haiti, Honduras, Paraguai, Peru, Polônia dão um reconhecimento especial ao Catolicismo em sua Constituição.

Os cantões católicos da Suíça também reconhecem o Catolicismo como religião oficial.

Até mesmo as constituições de Portugal, Espanha, Itália e Eslováquia mencionam a Igreja.

E, como não podia ser diferente, é religião do Estado do Vaticano o Catolicismo.

No hino dos Estados Unidos da América, país que professa quase como fé a liberdade humana e, por isso, ostenta uma Estátua a ela dedicada, faz uma nada modesta menção de Deus:

“Ó, assim seja sempre, quando os homens livres se colocarem
Entre seu amado lar e a desolação da guerra!
Abençoada com vitória e paz, que a terra resgatada pelos céus
Louve o Poder que nos fez e preservou como nação.
Então prevalecer devemos, quando nossa causa for justa,
E este seja nosso lema: “Em Deus está nossa confiança “.
E a bandeira estrelada em triunfo tremulará 
Sobre a terra dos livres e o lar dos valentes!”

Os magistrados e demais executores do poder devem se preocupar com o que constrói a paz e a prosperidade para a nossa nação. Respeitem, excelências, o Crucificado em vossas salas e não ousem apagar a memória e a história do Brasil!

Os folhetos litúrgicos

Postado em 18 março 2011 by E. Marçal

Confiteor

Hoje, em muitas paróquias, quem prescreve a liturgia – principalmente a de ocasiões especiais – já não é apenas o padre, mas subsídios litúrgicos que ditam o que todos devem fazer. Até aí não tem problema; este começa quando – o que já foram sugestões, hoje se tornaram quase ordens – as “rubricas” nem sempre estão de acordo com as prescrições litúrgicas aprovadas pela Igreja.


 

“Quem manda aqui é o jornalzinho O Domenico”

 

Poucas – ou mesmo pouquíssimas – são as paróquias que não usam algum subsídio litúrgico em suas missas dominicais ou em dias solenes do calendário da Igreja. Venho de uma paróquia onde o uso de um folheto para “propiciar a maior participação da assembleia e evitar que esta fique alheia à celebração” tem se tornado cada vez maior e ele é, na verdade, que dita quase tudo o que será feito durante as cerimônias. Um exemplo claro dos índices alarmantes que esses subsídios tomaram é que se o celebrante escolher uma oração eucarísitica daquela que está “sugerida” no folheto, os fiéis reclamam de que não poderão responder no momento que lhes é permitido. Primeiramente: não concordo com as aclamações que foram inseridas nas orações eucarísticas. Certo que foram aprovadas pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Mas, isso aconteceu na década de 70. O prefeito e secretário do dito dicastério eram outros e não se importaram se a tradução brasileira (e de outros países) estaria de acordo com a edição típica (original), nem muito menos se preocuparam se as concessões dadas pela Santa Sé às Conferências Episcopais foram seguidas com moderação ou acabaram, de certo modo, excluindo elementos importantes. Pois, as aclamações das orações eucarísticas parecem que, não podendo os fiéis explicitamente proferirem a prece eucarística, permitiram que, de certo modo, a assembleia e os ministros leigos tomassem parte no que o padre diz no Cânon, fazendo com que a cada prece que o celebrante reza, o povo responda com uma aclamação que é um resumo da oração precedente. Só que isso infrige totalmente o seguinte cânon do Código de Direito Canônico:

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Cân. 907 Na celebração eucarística, não é permitido aos diáconos e leigos
proferir as orações, especialmente a oração eucarística,
ou executar as ações próprias do sacerdote celebrante.

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Aos que sugeriram essas aclamações, parece que o solene “Amém” que é dito após a doxologia, que precede a Oração do Senhor, é insuficiente para a plena participação do povo. Outro aspecto que não corresponde à edição típica do Missal Romano é a resposta à saudação “Dominus vobiscum“, que no Brasil e em outros países é “Ele está no meio de nós”. O recém-aprovado Missal para os países de língua inglesa é o protótipo do que a Santa Sé espera das traduções do Missal nos demais países ou nos demais idiomas (como acontece ao Brasil, Portugal e países com a mesma língua): traduções fiéis ao original em latim, excluindo respostas como “Ele está no meio de nós”, substituindo esta por “E com teu espírito”, e tantas outras correções. Em segundo lugar, hoje dificilmente um padre escolhe uma prece eucarística diferente daquele que está “sugerida” no folheto do qual a paróquia faz uso. Mesmo que seja um padre estranho àquela paróquia e ele queira rezar o Cânon Romano (I Oração Eucarística) no Natal, por exemplo, certamente ele terá receio de ser criticado por tomar uma atitude que contrarie o costume paroquial e, possivelmente, rezará a Oração Eucarística II pois assim indicou o tal folheto, pois sendo esta prece curta, logo não ocupará grande espaço na edição da impressão e será possível inserir, no mesmo papel, a Missa da Noite e a Missa do Dia do Natal.

O maior erro dos subsídios não é, contudo, indicar essa ou aquela oração, e sim permitir indicações litúrgicas de certas ideologias que distorcem a mensagem salvífica de Cristo. Refiro-me, primeiramente, aos cânticos. Ainda hoje, passados tantos anos do fim da ditadura política e, logo, da concepção religiosa segundo aspectos políticos, é possível notar um teor puramente social em muitos cânticos “sugeridos” para as celebrações. Leem no Evangelho um Cristo libertador do sistema dominador romano e aplicam essa leitura errônea ao nosso tempo: o reino de Deus só estará presente em nós quando todos tiverem casa para morar, comida para saciarem a fome e não houver o sistema capitalista que “oprime” os pobres. Para quem assim pensa, não basta vencermos o pecado em nós, mas as situações sociais que massacram o povo. Depois, algumas sugestões para as Missas beiram o ridículo: levar cartazes ou fitas coloridas na procissão inicial, apresentar no ofertório dons ou símbolos que nada tem a ver (o Missal prescreve que os fiéis apresentem dons que serão destinados aos pobres ou necessitados, e não pede que sejam apresentadas sandálias, cruzes, panelas de barro, ou pão e vinho para ornamentar o altar). Quanto à Liturgia da Palavra, infelizmente está enraizado o costume de introduzir o Lecionário mediante várias pessoas vestidas sem algo sentido cristão e executando coreografias mirabolantes. Não entendo qual auxílio espiritual presta tal costume; nosso povo não dança como danças aquelas pessoas na “entrada da Palavra”, portanto, não é expressão de nossa cultura. Certa vez, o Em.mo Cardeal Francis Arinze, Prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino, disse que não se deve falar em dança “litúrgica” nos países da América e da Europa, pois a que faz parte de nossa cultura é aquela que encontramos em casas de shows, enquanto que na Ásia e na África, o que aqui se interpreta como dança, lá são movimentos suaves do corpo, naturais das pessoas, que expressam alegria. Mesmo assim, os que “aconselham” essas inovações às nossas assembleias, afirmam a plenos pulmões que isso é de nossa vida e nos ajuda a rezar.

Pontifício Coral da Capela Sistina
e seu maestro Mons. Massimo Palombella, SDB

Em 30 junho 2008, a Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reuniu em Aparecida (São Paulo), os responsáveis pelos 10 folhetos litúrgicos de maior circulação nas paróquias brasileiras. O encontrou teve o objetivo de demonstrar maior apoio a esse trabalho feito por dioceses e editoras, além de avaliar e analisas as publicações. Por fim, concluiu-se, entre outras coisas, que deveriam haver apenas o comentário inicial e um que antecedesse a Liturgia da Palavra. Contudo, tal é o costume que foi imposto em nossas comunidades, que mesmo os folhetos apresentando apenas os dois comentários recomendados, há paróquias que redigem novas reflexões para o Evangelho, para o ofertório, para depois da comunhão etc. Isso evidencia o vício que tomou conta de paróquias que inicialmente assinaram os subsídios litúrgicos para favorecer a participação dos fiéis durante as mudanças promovidas pela reforma litúrgica ordenada pelo Concílio Vaticano II. Contudo, como falei no início, as “sugestões” hoje governam a vontade de vários párocos, administradores paroquiais e demais sacerdotes, que agora estão de mãos atadas diante de “aconselhamentos” litúrgicos de pessoas que pensam que, de dentro de salas refrigeradas, podem controlar a liturgia oficiada em todo o país brasileiro. Infelizmente, o que eles pensam acontece.

Fiéis na Arquibasílica do Latrão

Pergunto-me até quando isso continuará. Passados quase 50 anos do início da reforma litúrgica, nosso povo já conhece a forma de celebração da Santa Missa outorgada pelo Papa Paulo VI. Antes de desviar o correto exercício das rubricas litúrgicas, os responsáveis deveriam promover em seus folhetos semanais uma catequese do sentido original do sacrifício de Cristo que é atualizado em cada missa. Ou, deveriam estar atentos ao novo movimento litúrgico – só um cego não quer ver – que está surgindo na Igreja e proporcionar subsídios catequéticos explicando ao povo brasileiro a forma extraordinária do rito romano e por em terra os preconceitos sobre ela. Sei que isso pode ser uma utopia aos olhos de muitos, mas Cristo disse que estaria com Sua Igreja até o fim dos tempos, então Ele proverá que Sua vontade, dita por Bento XVI e por seus documentos, seja obedecida, mais cedo ou mais tarde, pois o Espírito age onde quer, como quer e quando quer.

Assim seja.