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Categorias | Liturgia, Questiones

Pode-se fazer procissão eucarística dentro da igreja?

Postado em 22 setembro 2016 by E. Marçal

Não é raro vermos o ostensório, no centro do qual figura a hóstia consagrada, nas mãos do Celebrante, enquanto cantam expressando necessidades ou pedindo milagres. Em alguns lugares, a igreja também tem as luzes apagadas, de modo a deixar mais intimista e particular o rito, que não encontramos em qualquer livro litúrgico. O Celebrante caminha entre as pessoas, com o ostensório inclinado ao alcance delas, que choram, passando as mãos, entre as quais frequentemente têm fotografias ou outros objetos pessoais.

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Segundo a Congregação para o Culto Divino,
a trasladação do Santíssimo Sacramento não é, de fato, uma procissão
Imagem: Canção Nova Roma

O culto eucarístico, assim, tornou-se um espetáculo, não claramente para a divina majestade a Quem é dirigido, mas uma interpretação da anunciada e acreditada proximidade de Jesus em nossa vida e como demonstramos o nosso amor por Ele: o ostensório é tateado ou apresentado a fotografias, como um meio de obter o que se pede na oração. Dizem que assim as pessoas “sentem” a Deus.

Mas, perguntada sobre isso em 1975:

É permitido realizar a procissão do Santíssimo Sacramento dentro dos limites da igreja?

A Congregação para o Culto Divino respondeu do seguinte modo:

R. Não, para aqueles lugares que pretendem estabelecer o costume de realizar, às vezes, procissões dentro da igreja. O rito “da Sagrada Comunhão e do culto do mistério eucarístico fora da Missa” não se refere expressadamente sobre isso. Mas quando trata-se da procissão do Santíssimo Sacramento para aqueles que a desejam “pelas ruas” (n. 101), “de uma a outra igreja” (n. 106), com “as ruas e avenidas decoradas” (n. 104), estas são feitas [n.e. porque são previstas]. Porém, não são verdadeiras “procissões” aquelas feitas dentro dos limites da igreja. Esta resposta negativa não se aplica ao caso da Missa vespertina da Quinta-feira “Na Ceia do Senhor”, após a qual não existe “procissão”, mas apenas a solene trasladação do Santíssimo Sacramento ao lugar da reposição.

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O Papa Francisco durante a procissão de 
Corpus Christi,
entre as Basílicas do Latrão e de Santa Maria Maior,
em 30 de maio de 2013
Imagem: Nicola Facciolini

Por outro lado, o acima mencionado Rito, que é vivamente recomendado para a procissão na Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, diz claramente: “Onde a procissão não pode acontecer, para que haja uma celebração pública para toda a cidade ou suas partes consideráveis, convém que seja na igreja catedral ou outros lugares adequados. Que seja feita ou com a celebração da Missa ou com a adoração ao Santíssimo Sacramento com leituras das Sagradas Escrituras, cânticos, homilia e tempo de meditação”.

Fonte: Notitiae, edição n. 11, resposta n. 64, ano de 1975.

O Bispo pode concelebrar Missa?

Postado em 26 fevereiro 2015 by E. Marçal

A pergunta mantém-se com resposta óbvia até um certo ponto. É claro que o Bispo pode concelebrar uma Missa, como já vimos e veremos tantas vezes, mais comumente na forma ordinária do rito romano e em outros ritos latinos e nos ritos orientais. Por muito tempo, contudo, a concelebração da Missa permaneceu restritíssima e obscura no rito antigo, mas foi restabelecida pela reforma litúrgica do Vaticano II, embora não seja prevista para todos os casos vistos hoje, sem motivos importantes.

Na imagem, à esquerda, o Cardeal Luigi De Magistris que, durante a posse de sua diaconia cardinalícia,
permitiu que outro Bispo (à direita na imagem) celebrasse a Missa Solene, 17 de fevereiro de 2014.
© Imagem: L’Osservatore Romano

Podem tomar parte na concelebração todos quem possuem os segundo e terceiro graus do Sacramento da Ordem; os sacerdotes de uma Diocese devem concelebrar as grandes missas presididas pelo Bispo, como a Crismal, (Sacrosanctum Concilium, n. 41; Sagrada Congregação dos Ritos, Eucharisticum mysterium, 1967) e é de tradição que os Cardeais, normalmente Bispos, concelebrem com o Papa as principais solenidades do ano litúrgico. Portanto, a concelebração muitas vezes é, antes um dever do que um direito evocado. Uma vez que o Diácono age na pessoa do Cristo Servo e não pode oferecer o Santo Sacrifício da Missa, logo, ele não concelebra, mas exerce a sua função segundo as regras litúrgicas.

Mas até aqui falamos das Missas celebradas por Bispos, nas quais não há nenhum impedimento e é normal a concelebração por outros Bispos. E o Bispo pode concelebrar a Missa presidida por um sacerdote?

Não. Isto afirma a doutrina e a tradição da Igreja: “ao Bispos compete presidir à Eucaristia nas suas comunidades” (Cerimonial dos Bispos, n. 175). Por quê? O Bispo não possui o mesmo sacerdócio ministerial do Sacerdote? Possui. Todos os Bispos participam do governo da Igreja universal e são a perfeita imagem de Cristo Sumo Sacerdote, pois governam o Seu rebanho e são revestidos com a plenitude do Sacramento da Ordem. Isso ainda é mais claro quando trata-se do Bispo diocesano: ele, mais do que qualquer outro Bispo, governa a diocese, como “vigário e legado do Cristo em comunhão e sob a autoridade do Romano Pontífice” (Cerimonial dos Bispos, n. 5). Ainda que um Bispo participe do governo universal da Igreja, é necessário estar em comunhão com o Papa para exercer licitamente esse poder.

O Papa Francisco preside os ritos funerais do Cardeal Jorge María Mejía, 11 de dezembro de 2014.
Já faz parte ordinariamente da tradição pontifícia: não é o Papa que preside as exéquias dos Cardeais
que falecem em Roma e sim o Decano do Colégio Cardinalício. Mas, ao fim da Missa, como assistência pontifical,
o Papa ingressa na Capela do Altar da Cátedra, de pluvial, e preside os últimos ritos da celebração.
© Imagem:
Associated Press

Em hipótese alguma o Bispo deve concelebrar a Missa presidida por um Presbítero. Mesmo que inicie a Missa e depois “passe a sua presidência” para o Sacerdote escolhido. Por duas razões:

1. Se estiver na Missa presidida por um Sacerdote, o Bispo não toma parte na recitação da Prece Eucarística.

2. Se assiste pontificalmente à Missa, que não pode celebrar, a casula não é o paramento adequado, uma vez que ela é própria de quem celebra e concelebra a Missa.

Todavia, há ocasiões que o Bispo não pode e não quer presidir a Missa, não por falta de vontade, mas por legítima conveniência ou necessidade. Quanto à conveniência: sua presença na primeira Missa ou no aniversário natalício ou de ordenação de um Sacerdote, entre outros exemplos afins; quanto à necessidade: impossibilitado fisicamente de proceder a todos os ritos prescritos pela Liturgia, como será o exemplo a seguir. E o que fazer? Concelebrar ele não deve. Presidir ou não pode ou mais convém permitir que um Sacerdote o faça.

Dom Henrique Soares, então Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Aracaju, assistiu de vestes corais à
primeira Missa de um Sacerdote do clero local. 
Observem o que dizemos no texto:
lugar de honra fora do presbitério, Comunhão sob as duas Espécies…
Para fazer a homilia, o Prelado se impôs a estola.
Aracaju, 20 de julho de 2010
© Imagem: 
Salvem a Liturgia

A forma mais simples, não tão suficiente para o motivo deste artigo, é que o Bispo assista à Missa revestido de suas vestes corais: a batina violácea, faixa da mesma cor, o roquete, a murça, a cruz peitoral pendente do cordão, o anel episcopal, o solidéu e o barrete compõem a veste para o coro, para o Bispo estar presente nas celebrações sem presidi-las. É reservado para ele um lugar de honra, o primeiro entre a assembleia e o presbitério, com a assistência de um ministro (diácono ou cerimoniário), com cadeira e genuflexório. Além disso, ele deve comungar depois do Celebrante, sobretudo sob as duas Espécies.

Contudo, há outra forma mais própria de o Bispo presidir a Missa sem celebrá-la. A tradição litúrgica prevê isto em vista de sua experiência ao longo dos séculos, provando e resolvendo questões. A forma é prevista desde o rito antigo e, felizmente, ainda permanece escrita no novo Cerimonial dos Bispos, da qual trataremos a seguir.

MISSA COM ASSISTÊNCIA PONTIFICAL (Cerimonial dos Bispos, n. 175-186)

01. O Bispo apresenta-se com a veste coral que lhe é própria por sua dignidade e é recebido à porta da igreja pelo clero. Se a Missa não tiver aspersão da água benta no ato penitencial, após o mais digno dos sacerdotes presentes lhe apresentar o crucifixo para beijá-lo de cabeça sem o barrete, ele recebe o aspersório, toca-o na própria testa e depois asperge aos que lhe estão mais próximos. Depois, segue em procissão ou para o lugar onde está a reserva do Santíssimo Sacramento ou, diretamente, para a sacristia. Se o Prelado for Arcebispo, à frente deste avança a Cruz arquiepiscopal.

02. Enquanto o Celebrante da Missa paramenta-se com as vestes próprias para ela, o Bispo retira sua veste coral (podendo conservar, contudo, o roquete, pelo que permite o rito antigo) e se reveste com a alva, o cíngulo, a cruz peitoral, a estola e o pluvial da cor conveniente da Missa e recebe a mitra e o báculo.

03. Na procissão para o altar, o Bispo avança por último, atrás do Celebrante, acompanhado de 2 ou, ao menos, 1 diácono ou um cerimoniário, além dos ministros do báculo, da mitra e do Missal.

04. No presbitério, todos fazem as cerimônias conforme o costume, até mesmo o Bispo. Se usar incenso, o Bispo, e não o Celebrante da Missa, incensa o altar. Feito isso, dirige-para para a cátedra, o trono, o faldistório (se não for o Bispo do lugar) ou uma cadeira mais digna, de onde preside a Missa. Enquanto isto, o Celebrante pode permanecer numa sédia normal, conveniente para a sua função, mas de modo que nem torne necessária a troca de lugares com o Bispo e nem dificulte a dignidade de que celebra Missa.

05. Até a Liturgia da Palavra tudo ocorre como previsto à Missa presidida por um Bispo.

06. Convém que o Bispo faça a homilia, mas permite-se que o Celebrante a faça.

07. No Ofertório, o Bispo senta-se no seu lugar e recebe a mitra. Se os fiéis apresentarem as ofertas, estas são recebidas ou pelo Celebrante ou pelo próprio Bispo. Para realizar os ritos no altar e antes de ir a este, o Celebrante faz profunda reverência ao Bispo. Se houver incensação, o Bispo é incensado, em seu lugar e de sem mitra, após o Celebrante. O rito antigo prescreve, com motivo, que seja o Bispo a deitar o incenso no turíbulo e a abençoá-lo. Isso expressa ainda mais que o Bispo preside, mas delega àquele Sacerdote a celebração da liturgia eucarística.

08. O Bispo permanece em pé até a epiclese da oração eucarística, depois, ajoelha-se e assim está até o fim da doxologia. Pode estar de joelhos ou diante de sua cadeira ou diante do altar mas sem atrapalhar a visão deste aos fiéis, acompanhado de seus ministros.

09. De joelhos o Bispo, retira-se o seu solidéu.

10. Durante o rito da paz, o Bispo o faz com os ministros próximos a si.

11. Se o Bispo for comungar, ele o faz por si só no altar.

12. No fim da Missa, o Bispo concede a bênção final, munido do báculo. Ele e o Celebrante beijam, juntos, o altar. Todos retornam, em procissão, à sacristia como vieram no começo.

Abaixo, imagens da posse da diaconia da igreja dos Santíssimos Nomes de Jesus e Maria na Via Lata, em Roma, por Luigi De Magistris, criado como Cardeal-Diácono pelo Papa Francisco no dia 14 de fevereiro de 2015. Por certo devido a sua debilidade física, no alto de 89 anos de idade, o neo-Cardeal fez assistência pontifical na Missa celebrada por outro Bispo, no dia 17 de fevereiro seguinte, depois da posse canônica do título da igreja que o Papa lhe concedeu. Créditos das imagens ao L’Osservatore Romano, gentilmente nos cedidas pelos Frades Agostinianos Descalços, que fazem a assistência pastoral da igreja na Via del Corso.

CASOS ESPECIAIS

Se o Bispo assiste a Missa de veste coral apenas e ingressa na igreja novamente na procissão inicial, nesta ele se situa à frente do Celebrante ou, se houver, do Diácono e/ou dos Concelebrantes; permanece fora do presbitério, mas num lugar de honra; pode conceder a bênção final com a cabeça coberta pelo barrete; aliás, ele também usa o barrete quando estiver sentando e o põe e o retira por si mesmo; somente é incensado no ofertório.

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Todos podem usar batina violácea?

Postado em 03 dezembro 2014 by E. Marçal

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos forneceu-nos claras e definitivas informações sobre este assunto, embora Bispos brasileiros já a tivessem reportado ao Vaticano e recebido a mesma orientação, que, como se nota, é desconhecida pela maioria.


Adoração eucarística (com a exposição do Santíssimo no ostensório) por ocasião das I Vésperas da Solenidade
de Santa Maria, Mãe de Deus, e o canto do 
Te Deum em ação de graças pelo ano transcorrido
Vemos os Cerimoniários ao lado de Bento XVI e acólitos, abaixo na imagem.

Muito se tem questionado quem pode fazer uso de batina violácea nas celebrações litúrgicas, sob a sobrepeliz, uma vez que o Cerimonial dos Bispos prevê ordinariamente esta veste para os próprios Bispos, Monsenhores Protonotários Apostólicos e Prelados de Honra de Sua Santidade.

A dúvida paira sobre os ministros do serviço litúrgico das celebrações, principalmente o Mestre de Cerimônias e os cerimoniários, não obstante também os Acólitos. Finalmente, quais as vestes legitimamente aprovadas a eles?


Com a discrição nos gestos e o conhecimento de cada ponto dos ritos, Mons. Guido Marini indica a Bento XVI
a direção para seguir ao altar durante as
 I Vésperas da Solenidadede Santa Maria, Mãe de Deus,
e o canto do 
Te Deum em ação de graças pelo ano transcorrido, 31 de dezembro de 2012 

Em primeiro lugar, como maior objeto deste artigo, é necessário definir a função do Mestre de Cerimônias, segundo o completo conceito de um grande liturgista beneditino:

Tem a função de preparar e guiar o Celebrante, os Ministros sagrados e os ministros inferiores (n.e. leigos) na execução dos ritos. Conhecedor não só do conjunto das cerimônias, mas de cada uma de suas particularidades, animado dum santo zelo pelo resplendor da casa de Deus e majestade do culto, tudo prevê e tudo prepara: dispõe nos respectivos lugares os objetos necessários ao culto […] e aos membros da Hierarquia dá os avisos e instruções que julgar convenientes.
Durante os ofícios litúrgicos, rodeia de todas as atenções o Celebrante e os Ministros, com o respeito que exige a santidade do templo de Deus.
É, pois, o diretor da assembleia litúrgica. Todos, incluindo os membros da Hierarquia, obedecerão com solicitude às suas indicações.

(COELHO, Dom António. Curso de Liturgia Romana. Portugal. 2ª edição. 1943)

Neste sentido, o Mestre de Cerimônias é alguém que, devidamente versado nas rubricas litúrgicas e com zelo pelas coisas sagradas, ocupa-se de guiar a execução dos ritos de modo esperado para o fim ordenado e espiritual da Liturgia, de modo que, portanto, deve ser obedecido, neste contexto, por todos os ministros, incluindo os membros da Sagrada Hierarquia até mesmo superiores a ele. Não se trata, porém, de uma inversão da submissão religiosa: por exemplo, um sacerdote determinar arbitrariamente o que seu Bispo deve fazer, este que lhe é superior e a quem deve respeito e obediência irrestrita. Mas trata-se de que, na função que desempenha e versado pelo bom senso e pelo estudo no que é correto fazer na Liturgia, o sacerdote tem a confiança e a atenção de todos na Liturgia para o que deve ser feito.


Mons. Guido Marini é auxiliado por Mons. Francesco Camaldo, então Cerimoniário Pontifício,
a ajustar o pluvial de Bento XVI no faldistório,
enquanto o Santíssimo Sacramento adentra na Basílica de São Pedro.
II Vésperas da Apresentação do Senhor, 02 de fevereiro de 2011
Imagem: Association Press

Podemos chamar de Cerimoniários os auxiliares do Mestre de Cerimônias. Dado que este, em grandes e exigentes celebrações pelo número de detalhes, não pode coordenar tudo simultaneamente sem falhar em algo, ele deve distribuir as funções de guia, sob a sua orientação geral, com outros ministros. Numa celebração, os Cerimoniários podem se ocupar, por exemplo, daqueles que serão ordenados, dos acólitos, dos fiéis em algum rito, das procissões, da preparação do altar etc.

Já os acólitos são os ministros inferiores que desempenham a maior parte das funções nos ofícios litúrgicos, portando o turíbulo, a naveta, a cruz processional, as velas, o Missal Romano e outros livros (quando necessários), sendo assistentes do Bispo com a mitra e o báculo, conduzindo os vasos para o altar etc. Por acólitos, atualmente, são designados também os leigos que não oficialmente receberam do Bispo este ministério, sejam seminaristas ou não.

As vestes oficialmente aprovadas


Mons. Guido Marini, embora com direito ao uso de batina violácea, optou pela de cor negra na Missa de exéquias
celebrada pelo Papa Francisco na Ilha de Lampedusa (Itália), 08 de julho de 2013
Imagem: TGCOM24

Ao Mestre de Cerimônias, ordenado ou não, é permitido o uso ou da alva (com cíngulo, se for necessário ajustá-la ao corpo) ou da batina com sobrepeliz (Cerimonial dos Bispos, n. 36).

As vestes dos Cerimoniários não possuem diferenças, dado que são auxiliares do Mestre de Cerimônias. Contudo, há algo praticado, embora sem legislação (que não é necessária): os Cerimoniários usam sobrepelizes, quando fazem todos uso de batina, mais simples que a do Mestre de Cerimônias. É um modo de distinção entre o oficial e seus ajudantes.

Aos Acólitos, como aos demais ministros, é permitido também o uso de amito, alva e cíngulo branco, uma vez que não são ordenados para se vestirem de acordo com a cor litúrgica do ofício celebrado. Também, desde o rito antigo, mesmo leigos, usam batina com sobrepeliz.

Perguntam-nos se as batinas vestidas por leigos podem ter o colarinho, romano ou não. Bem, é de se presumir que, quando o Cerimonial dos Bispos menciona batina, esta seja completa: veste talar, faixa e colarinho. Embora que países, como os Estados Unidos da América, Alemanha e Áustria, entre outros, reservem o uso do colarinho aos clérigos. Porém, não há nada que o proíba com relação aos leigos.

Os erros praticados e a resposta da Congregação para o Culto Divino

Ultimamente, com a maior influência, em virtude de mais atenção, das cerimônias papais no Vaticano e o forte exemplo do pontificado de Bento XVI, muitos supuseram — como em outros casos — que tudo poderia ser feito em outros lugares fora de Roma, adaptando às circunstâncias, como, por exemplo, se a celebração é presidida por um Bispo ou por um Sacerdote. Não nos deteremos em outro exemplo além deste, que conduz a um outro: o Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias e os Cerimoniários Papais trajam-se com batina violácea e punhos vermelhos e o Papa sempre é duplamente assistido, pelo Mestre de Cerimônias e por um Cerimoniário, este segundo uma ordem entre os oficiais. Portanto, mundo afora, passamos a ver Mestres de Cerimônias e Cerimoniários, ordenados e leigos, de batina violácea, oficiando Bispos e até Sacerdotes, ainda por cima com o dupla assistência litúrgica, como ao Papa.


Mons. Guido Marini, Mestre de Cerimônias, e Mons. Guillermo Karcher, Cerimoniário Pontifício, prestam o exclusivamente papal
dupla assistência litúrgica, isto é, 2 Cerimoniários assistindo a um Celebrante numa celebração
Missa no Noite de Natal, 24 de dezembro de 2013
Imagem: Reuters

Sobre esta última, fomos informados por Cerimoniários do Capítulo de Cônegos da Basílica de São Pedro que apenas o Santo Padre tem o privilégio de ter, simultaneamente, o Mestre de Cerimônias e um Cerimoniário ao seu lado durante as celebrações litúrgicas. Nenhum Bispo e muito menos Sacerdote pode se autorizar a isto. No Vaticano e nas outras igrejas de Roma, quando um Cardeal celebra, vemos apenas um Mestre de Cerimônias ao seu lado, sabendo que Cerimoniário Papal tem um certo número de Cardeais para deles organizar as celebrações oficiais na Cidade Eterna.

Quanto à batina violácea: já interpretávamos que, segundo a história litúrgica, a batina nesta cor era reservada aos sacerdotes que recebessem oficialmente a função de Mestre de Cerimônias ou de Cerimoniário na Diocese. Contudo, a isto faltou mais precisão. Além do mais, muitos nos questionaram a fonte desta interpretação, dado também que — como dissemos — o uso de batina violácea tornou-se mais comum da parte dos Cerimoniários. Para termos uma resposta oficial e definitiva, na manhã do dia 02 de dezembro de 2014, entramos em contato com a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Foi-nos dito que isto perguntaram Bispos brasileiros e já havia sido dada resposta, que, contudo, ainda é desconhecida por parte de muitos. Segundo o costume do Vaticano, há décadas a resposta que ou já foi dada ou encontra-se nas publicações oficiais não é novamente dada por escrito, a menos que falte clareza ao que já foi publicado. Portanto, prevalece o que ouvimos:

O uso de batina violácea por quem não tem, canonicamente, direito à ela é um abuso imensamente praticado. Somente tem direito quem é ou Monsenhor Prelado de Honra de Sua Santidade (como acontece a Mons. Guido Marini e a Cerimoniários Pontifícios) ou Protonotário Apostólica ou Bispo (há casos, dos quais falaremos mais adiante, de Bispos Mestres de Cerimônias).

Mas argumentam: “O Cerimonial dos Bispos não é claro quanto à cor da batina dos Cerimoniários”.

A mesma Congregação do Culto Divino respondeu que o bom senso de quem lê o número 36 do Cerimonial dos Bispos presume que a batina acompanhe a dignidade de quem a veste. Ou seja, se for leigo, seminarista, diácono ou sacerdote (sem qualquer título honorífico, como Cônego ou Monsenhor), a batina é, obviamente, preta. Por conseguinte, para Mestre de Cerimônias ou Cerimoniário a batina violácea é reservada, no resto do mundo, aos Monsenhores Prelados de Honra de Sua Santidade ou Protonotários Apostólicos. No Vaticano, no Ofício das Celebrações Litúrgicas Pontifícias e nos Capítulos de Cônegos das Basílicas Papais, a batina violácea é, de modo exclusivo, permitida aos Mestres de Cerimônias e Cerimoniários, como também aos alunos do Pré-Seminário São Pio X, que se situa dentro do Vaticano e auxilia em algumas celebrações papais e nas do Capítulo de Cônego de São Pedro.

Ainda argumentam: “O Arcebispo ou Bispo diocesano pode permitir que o Mestre de Cerimônias e possíveis Cerimoniários de sua (Arqui)Diocese e Paróquias usem batina violácea?”

Não. O Código de Direito Canônico e documentos litúrgicos oficiais reservam poucos poderes aos Arcebispos e aos Bispos Diocesanos em matéria de alteração da lei litúrgica. Por exemplo,os Bispos podem permitir desde, um motivo justo, Missas na Quaresma e no Advento sejam celebradas com paramentos festivos (no lugar dos roxos ou róseos) até, com grave necessidade, permitir que leigos administrem solenemente o Sacramento do Batismo, também com as unções dos Óleos dos Catecúmenos e do Crisma. Porém, há outras leis que ninguém pode mudar, a não ser o Papa (Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 22 §3).


Mons. Enrico Dante, um dos maiores e mais longevos Mestres de Cerimônias Pontifício, ainda como sacerdote
trajando a prevista batina violácea e a sobrepeliz, sem murça, barrete nem solidéu (este último nunca foi de uso dos sacerdotes)
Imagem:
Nowy Ruch Liturgiczny (Novo Movimento Litúrgico)

O Mestre de Cerimônias e os Cerimoniários não usam barrete nem muito menos murça — mesmo que seja Bispo — ou, pior ainda, peregrina (o tipo de murça aberta que se usa somente com a batina e é reservada ao Clero), segundo o liturgista Dom António Coelho, em seu Curso de Liturgia Romana. Somente os clérigos têm veste coral, ou seja, a veste que usam quando assistem a uma celebração litúrgica, o que não é feito por um Cerimoniário. A ele também a concelebração não é permitida nem aconselhada, mesmo em ordenações, dado que suas vestes não são apropriadas para este caso e sua função o impede de se afastar da condução dos ritos.


Dom Enrico Dante, já sagrado Bispo (dado o uso da cruz peitoral), como Mestre de Cerimônias de Paulo VI,
o último Papa ao qual serviu nesta função, provavelmente durante uma das cerimônias do Concílio Vaticano II
Percebam que, mesmo Bispo, não fazia uso da mozzeta (ou murça) que não é permitida ao ofício de Mestre de Cerimônias

Um exemplo: além de Dom Piero Marini, que foi sagrado Bispo por João Paulo II e dignificado com a distinção de Arcebispo, há outro Mestre de Cerimônias Pontifício que foi Bispo: o grande Enrico Dante, que exerceu a função durante os pontificados de Pio XII, João XXIII e Paulo VI, ou seja, entre os anos de 1947 e 1967, ano de sua morte. Em 1962, poucos dias depois da abertura do Concílio Vaticano II, foi sagrado Bispo pelo próprio João XXIII. Desde então, passou a usar, sobre sua sobrepeliz, a cruz peitoral pendente do cordão verde-e-dourado, mas nunca a murça e o solidéu violáceos. Por fim, em 1965, no último consistório antes do fim do Vaticano II, foi criado Cardeal-Diácono por Paulo VI, como gratidão por seus servições prestados aos Papas tanto no Departamento das Celebrações Litúrgicas quanto em 2 Congregações. Continuou como Mestre de Cerimônias, usando apenas, quando exercia sua função, ainda que Bispo e Cardeal, a cruz peitoral não com corrente metálica, mas cordão vermelho-e-dourado. Em 1967, faleceu ainda em exercício no cargo, aos 82 anos, sem contudo, ter participado de um conclave para a eleição do Papa.

Considerações finais

O Mestre de Cerimônias pode estar presente em qualquer celebração, presidida por Diácono, Sacerdote ou Bispo, em vista da adequada preparação e perfeita execução das indicações. Deve ser conhecedor certo das corretas rubricas litúrgicas e não querer ornar as celebrações com o que acha mais bonito, mais arcaico ou mais adequado para si, pois também este exagero é fazer da Liturgia o “bezerro de ouro” descrito no Livro do Êxodo, um “deus” que agrada, segundo seus caprichos, ao bel-prazer. Deve ser discreto, mas também humilde a ponto de associar a si outros ajudantes, para dividir as tarefas que sozinho não pode guiar, e não querer concentrar tudo em suas mãos, mas promover também o consenso do melhor modo a ser feito. Por fim, de acordo com a Congregação para o Culto, a veste ordinária, além da alva com cíngulo (se necessário), é a batina segundo o seu estado de leigo ou de ordenado: somente usará batina violácea se for Monsenhor Prelado de Honra ou Protonotário, com a sobrepeliz. E não existem leigos Monsenhores.


Mons. Guido Marini ajusta o pluvial a Bento XVI
I Vésperas da Solenidadede Santa Maria, Mãe de Deus,
e o canto do 
Te Deum em ação de graças pelo ano transcorrido
Imagem: Franco Origlia

É louvável que a beleza litúrgica e as tradições da Igreja sejam novamente valorizadas, como parte do que a Igreja nos oferece, ainda na terra, um pouco do que é o céu. Contudo, a Liturgia não é nossa para fazermos o que quisermos: nem subtraindo e mutilando as rubricas e muito menos criando novas ou desejando fazer tudo o que se faz no Vaticano, que possui costumes próprios e restritos. O mais importante não é um pretenso gosto pela tradição — segundo os gostos pessoais —, no lugar de um menosprezo pelo que é genuinamente católico. O melhor é sempre fazermos o correto, sendo fiéis ao que nos pedem e ainda dizermos: “Somos servos inúteis, só fizemos o que tínhamos que fazer”, e não o que gostaríamos por achar mais bonito. A Liturgia já é completa porque nela a obra da nossa Redenção, por meio de “os sinais sensíveis [que] significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral (Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 7).