Direto da Sacristia
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O curioso rito de eleição do Papa copta

Postado em 29 Março 2012por Carlos Eduardo Burle

Os cristãos coptas egípcios viverão meses de ansiedade aguardando a eleição de seu novo líder espiritual, o sucessor do recém-falecido Papa Shenouda III. Após o funeral presidido pelo patriarca interino da Igreja, o metropolita Bakhomius, da diocese do Delta do Nilo, ao qual compareceram centenas de bispos coptas de todo o mundo, representantes religiosos, autoridades civis e uma multidão que ainda demonstrava grande luto; deu-se início ao longo processo que levará à escolha de um homem que deve ser capaz de preencher o vazio de um povo amargurado, não só pelas perseguições por causa de sua fé, mas também por haver se tornado órfão de um pai a quem tanto amavam.

Santo Sínodo dos bispos coptas.
À frente, o metropolita Bakhomius, líder pro tempore da Igreja Copta

Sacerdotes coptas entoam cânticos melancólicos no último dia do funeral do Papa Shenouda.
O caixão branco e adornado foi um presente do Sumo Pontífice Bento XVI,
símbolo de amizade e de reconhecimento da importância de um pai para seu povo.

Com informações do Humanitas Unisinos

O multissecular rito de eleição do líder copta é bastante complexo, podendo se estender por vários meses. Durante a primeira semana que segue à morte do Papa, o Santo Sínodo dos bispos tem a missão de eleger um regente, um patriarca interino, geralmente um dos bispos mais velhos, que deve guiar a Igreja até a escolha do sucessor. Sua primeira tarefa é constituir, no prazo de um mês, uma comissão de quatorze membros do Sínodo que acolherá as propostas recebidas e elaborará uma pequena lista de cerca de cinco candidatos. O futuro Papa deve possuir no mínimo 40 anos, jamais ter contraído matrimônio e ter pelo menos 15 anos de vida monástica. Com a lista definida, os bispos membros da comissão devem publicá-la nos três maiores jornais egípcios de língua árabe, a fim de que os todos os fiéis possam conhecer o perfil de cada candidato. Por isso, a Igreja Copta concede um período de três meses até a convocação da Grande Assembleia, composta por 74 bispos da Igreja e 12 representantes de cada diocese, eleitos entre os anciãos e os que gozam de prestígio. Os três mais votados por esta assembleia de mais de mil membros participarão da “sacra eleição por sorteio”, rito público ao qual todo fiel copta é convidado a participar. Para demonstrar que a decisão final depende unicamente da vontade de Deus, diante da comunidade reunida, uma criança com os olhos vendados deverá retirar de uma urna de prata um dos três papéis, cada qual contendo o nome de um dos três candidatos finalistas. Este gesto deverá ser repetido por três vezes. Havendo empate, repete-se todo o processo.

Restam muitos meses, no mínimo quatro, até a eleição do 119º Papa dos coptas. Gozará de um peso maior a participação das comunidades coptas da diáspora, já que agora contam com seus próprios bispos, o que não ocorreu na última eleição. O falecido Papa Shenouda III visitou o Brasil em 2006 para consagrar a primeira paróquia copta em território brasileiro.

Recentemente, o bispo Youssef, médico de profissão e bispo da diocese do Sul dos Estados Unidos da América, anunciou que estará lançando sua candidatura ao trono papal. Se obtiver êxito, será o primeiro bispo da diáspora a conseguir tal feito.

É salutar ressaltar que a eleição do líder espiritual copta se dará no mesmo período em que estarão se realizando as eleições presidenciais egípcias, as primeiras supostamente democráticas, após décadas de uma ditadura opressora.

A eleição do novo Papa se dará, assim como o funeral de seu predecessor, na nova Catedral de São Marcos, onde repousam as relíquias do evangelista, que há séculos se encontravam em Veneza e forma doadas pelo Sumo Pontífice Paulo VI. Este gesto simbolizou uma nova fase de relações amistosas entre a Igreja de Roma e a de Alexandria.

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