Quem será o novo prefeito da Casa Pontifícia?
A Casa Pontifícia está sem prefeito há um bom tempo, antes mesmo de Dom Georg Gänswein ser afastado na teoria pelo Papa Francisco, em 05 de fevereiro de 2020, e depois, finalmente na prática, em 28 de fevereiro de 2023.
Voltemos um pouco no tempo para entendermos melhor a história e, principalmente, o assunto principal deste artigo.
Dom Georg Gänswein prefeito
Em 07 de dezembro de 2012, o então Papa Bento XVI decide promover Dom Georg Gänswein ao cargo de prefeito da Casa Pontifícia, que se harmonizava bem sendo somado ao de secretário pessoal do Papa, que ele exercia há cerca de uma década. Dom Georg sucedia o diplomata americano Dom James Harvey, que exerceu a função por catorze anos e que em 24 de novembro anterior havia sido criado cardeal, por força da sua nomeação como arcipreste da Basílica Papal de São Paulo Fora-dos-Muros.
Mais adiante entenderemos por que o cargo de prefeito combina com a função de secretário pessoal, embora seja mais abrangente em competências e mais exigente.
Para tal cargo, Dom Georg foi ordenado bispo pelo próprio Papa em 06 de janeiro seguinte. Àquela época, o Papa não somente já havia decidido a renunciar, como também já havia comunicado isso a Dom Georg e a outras poucas pessoas, escolhidas dados os seus cargos envolvidos na administração do Vaticano e no período de Sede Vacante. Assim, tanto o novo cargo quanto a ordenação episcopal garantiam um futuro estável no Vaticano a Dom Georg tão logo a renúncia do Papa se efetivasse e um novo pontificado começasse, por mais que o sucessor de Bento XVI pudesse decidir de outra forma, o que acabou acontecendo.
Eleito o Papa Francisco em 13 de março de 2013, ele confirmou todos os cargos “até que se determine o contrário”, tal como todos os papas costumam fazer no início dos respectivos pontificados. Dom Georg transformou-se numa ponte alegórica entre os dois Papas, pois, durante o dia estava ao lado do Papa Francisco como prefeito, à tarde voltava para o Mosteiro Mater Ecclesiæ, onde Bento XVI decidiu morar após a sua renúncia, e morava com ele.
Prefeito “partido ao meio”
Apesar de Dom Georg ser “herança” do pontificado anterior e ter um estilo mais protocolar e curial do que a espontaneidade do Papa Francisco, que hoje entendemos bem que à época, um procurou adaptar-se ao outro: Dom Georg aprendia a entender que o novo Papa tinha outras sensibilidades e o Papa percebia que a Cúria Romana detinha a funcionalidade do pontificado. O mesmo acontecia ao então Mons. Guido Marini: acostumado à sensibilidade litúrgica de Bento XVI — que, como mestre das celebrações, ele ajudou a transmitir ao seu pontificado —, ele precisou se adaptar ao estilo mais simples do Papa vindo da Argentina, que, ao mesmo tempo, também nesse assunto tentava ter calma para seguir o previsto pela liturgia papal; era um esforço de equilíbrio até que o Papa estendeu suas mudanças também no âmbito litúrgico.
O Papa Francisco não demorou muito a querer dispensar a necessidade da onipresença do seu prefeito na sua agenda: após pouco mais de um ano desde sua eleição, em 15 de junho de 2014 o Pontífice visitaria as iniciativas da Comunidade Santo Egídio em Roma, e no dia anterior, o Papa disse a Dom Georg que a sua presença não seria necessária; inúteis foram as suas observações, insistindo no contrário em vista de quanto era previsto na sua função. Contudo, a sua ausência ao lado do Pontífice foi rapidamente percebida pelo fundador Andrea Riccardi, que a interpretou unilateralmente e, por chamada telefônica, perguntou a Dom Georg se ele e Bento XVI tinham algo contra a Santo Egídio. O episódio e as suas consequências foram devidamente explicados ao Papa, que percebeu a inconveniência da sua decisão e desculpou-se — segundo o próprio Dom Georg em seu livro de memórias “Nada além da verdade”.
A situação piorou realmente e sem retorno em janeiro de 2020: o Cardeal Robert Sarah publicou um livro de reflexões sobre o sacerdócio e assuntos relacionados, como a defesa do celibato obrigatório ao clero latino. Isso foi feito pouquíssimos meses após o Sínodo da Amazônia, que contou com a participação também de quem advogava, entre outras reformas, pelo celibato facultativo. A imprensa viu nisso uma crítica indireta ao Papa Francisco, dado que os partidários de tais reformas eram ou próximos dele ou por ele nomeados para o Sínodo. Além disso, o livro contava com textos de Bento XVI porque era o resultado de conversas e de troca de correspondências entre o Cardeal e o Papa emérito. Quando estourou a polêmica, Dom Georg falou à imprensa que Bento XVI desconhecia que a finalidade do Cardeal Sarah era a redação de um livro. Apesar dos esforços em dizer que não havia intenção de confrontar partidos teológicos e nem de indiretamente atingir o Papa Francisco, a imprensa alimentou a narrativa de crise no Vaticano e o preço a ser pago coube a Dom Georg: no fim daquele mesmo mês de janeiro, o Papa Francisco disse-lhe que Bento XVI havia mais necessidade dele e que, por isso, desde aquele momento, o prefeito permaneceria no Mater Ecclesiæ, dedicando-se inteiramente ao Papa emérito. Na prática, Dom Georg foi demitido, mas teoricamente continuou como prefeito, talvez, em consideração a Bento XVI, embora, inutilmente, este tenha falado com o Papa para reconsiderar a sua decisão. Teoricamente o prefeito não mudou porque não foi nomeado um substituto, com o Papa decidindo que as suas vezes seriam feitas pelo número dois da Prefeitura, o regente Mons. Leonardo Sapienza.
Prefeito demitido
Esse cenário continuou até 28 de fevereiro de 2023, quando Dom Georg tornou-se oficialmente prefeito emérito, informação anunciada pelo Vaticano apenas em 15 de junho seguinte. No início daquele ano, entre a morte e o sepultamento de Bento XVI, uma avalanche de comentários de todos os tipos foi provocada pela publicação do livro de memórias de Dom Georg “Nada além da verdade”, que não somente repassava eventos conhecidos, mas também eventos até então desconhecidos e todos com a sua visão e sua explicação como nenhuma outra pessoa, além do próprio Papa emérito, poderia fazer. O livro tratou também de relatos pós-renúncia de Bento XVI, envolvendo a sua proximidade com o Papa Francisco e, obviamente, a retrospectiva do afastamento que impôs a Dom Georg como prefeito. Com a polêmica dentro e fora da Igreja, desde comentários a episódios restritos até a inoportunidade de publicação do livro, resultou na decisão do Papa Francisco em aposentar de fato o seu prefeito, embora isso tenha sido publicamente comunicado quase quatro meses depois. Por ordem do Pontífice, o ex-prefeito voltou à Alemanha e, em junho de 2024, foi nomeado como núncio apostólico na Lituânia, Letônia e Estônia.
Mons. Sapienza, como dissemos, continuou como se fosse o prefeito, embora essa nomeação nunca tenha sido oficializada e na teoria ele permaneceu como regente.
Novo pontificado, mas sem prefeito
O conclave que se seguiu à morte do Papa Francisco elegeu o Cardeal Prevost como Leão XIV, que, conforme o costume, confirmou todos os cargos nomeados pelo pontificado anterior pela sentença “donec aliter provideatur“, até que seja decidido de outro modo. Assim, a função de prefeito continuou vacante, Mons. Sapienza manteve o seu cargo tal como os demais oficiais da Prefeitura. Até hoje, a única decisão que o Papa Leão fez quanto à Prefeitura foi criar, em 10 de novembro do ano passado, a função de vice-decano: para ela nomeou o Pe. Edward Daniang Daleng, nascido na Nigéria e agostiniano, que colaborou com o Papa quando este era o prior-geral da Ordem de Santo Agostinho.
O que é a Prefeitura da Casa Pontifícia
Segundo a Constituição Apostólica Prædicate Evangelium, sobre a organização da Cúria Romana, a Prefeitura da Casa Pontifícia:
“Encarrega-se da ordem interna relativa à Casa Pontifícia e dirige, naquilo que se refere à disciplina e ao serviço, todos os que constituem a Capela e a Família Pontifícia. […] Cuida da organização e realização das cerimônias pontifícias, excluída a parte estritamente litúrgica, e estabelece a ordem de precedência. […] Cabe-lhe ordenar o serviço de antecâmara e organizar as audiências públicas, especiais e privadas do Romano Pontífice e as visitas de pessoas, consultando, sempre que as circunstâncias o exigirem, a Secretaria de Estado. Encarrega-se do que se refere aos Exercícios Espirituais do Romano Pontífice, do Colégio Cardinalício e da Cúria Romana. Compete à Prefeitura fazer os preparativos sempre que o Romano Pontífice se desloque em visita no território vaticano, em Roma ou nas viagens em Itália. O Prefeito acompanha o Romano Pontífice apenas por ocasião de encontros e visitas no território vaticano”. É “dirigida por um Prefeito, coadjuvado pelo Regente, nomeados por cinco anos pelo Romano Pontífice, aos quais se agregam alguns Oficiais” (Artigos 228-230).
Isto é, a Prefeitura da Casa Pontifícia coordena as atividades da vida privada e pública do Papa, exceto as celebrações litúrgicas, incluindo as suas viagens e visitas no Vaticano (que não se limita ao Estado, mas compreende também algumas igrejas de Roma e o Palácio de Castel Gandolfo, por exemplo), em Roma e no resto da Itália. As suas competências não preveem a organização das grandes viagens internacionais, que é tarefa da Secretaria de Estado, em vista do âmbito diplomático e político. Portanto, como dissemos no início, à primeira vista, as funções de prefeito e de secretário pessoal do Papa podem se harmonizar, mas, acima de tudo, podem também sobrecarregar a pessoa que as exerça paralelamente; Dom Georg Gänswein o fez por cerca de 3 meses, depois, com a eleição do Papa Francisco, dividiu o seu tempo entre os dois Papas em ambas as funções.
O trecho Prædicate Evangelium menciona outras duas instituções: a Capela e a Família Pontifícias.
A Capela Pontifícia, embora à primeira vista remeta a uma pequena igreja, é o termo oficial da estrutura litúrgica da liturgia papal nas maiores celebrações do ano. Até meados da década de 1960, cada uma das várias funções litúrgicas competia respectivamente a quem desempenhava determinado cargo na Cúria Romana: tendo em mente o rito romano antigo, por exemplo, um cardeal-bispo de Óstia era o presbítero-assistente, dois cardeais-diáconos eram os diáconos assistentes (que ladeavam o papa), um outro cardeal-diácono e um arcebispo titular eram os diáconos da Missa e um prelado-auditor do Tribunal da Rota Romana era o subdiácono; outros membros, eclesiásticos e leigos, participavam dos ritos como assembleia. Com a reforma litúrgica ordenada pelo Concílio Vaticano II, que refletiu também na liturgia papal, a Capela Pontifícia continua existindo, mas não prevê mais que membros da Cúria Romana desempenhem funções como diáconos e subdiácono (grau do Sacramento da Ordem que foi extinto) e sim que tais membros presenciem as celebrações solenes ou, quando previsto, concelebrem-nas.
A Família Pontifícia também foi reformada depois do Vaticano II e, embora hoje seja bem reduzida em comparação ao passado, ainda é numerosa. Ela inclui pessoas, cujos cargos têm relação direta com a vida do papa e o seu ministério, dividindo-se entre a família eclesiástica e a família leiga: em primeiro lugar estão os seus secretários particulares e os seus assessores leigos, embora estes últimos desempenhem expedientes parciais e não vivam com o papa. Como dissemos, a Família é ainda numerosa e compõe-se desde a pessoa do Substituto da Secretaria de Estado, passando pelos cerimoniários pontifícios e os monsenhores nos seus três graus, até o comandante da Guarda Suíça Pontifícia.
Embora mencionadas à parte e com as suas próprias estruturas, a sua organização e o exercício de suas funções são dirigidos pela Prefeitura da Casa Pontifícia.
O futuro da Prefeitura da Casa Pontifícia
Após a longa explicação e a detalhada cronologia da Prefeitura na última década, os leitores podem se perguntar o motivo disso porque este artigo não é apenas para explicar essa instituição da Cúria.
Com o paulatino afastamento de Dom Georg Gänswein, a sua demissão e a demora da parte do Papa Francisco em nomear o seu substituto, pensou-se até que, na verdade, a Prefeitura seria suprimida ou incorporada em outra instituição vaticana, continuando a reforma da Cúria, oficializada pela mencionada Constituição Prædicate Evangelium. Dado que nada disso aconteceu, comentava-se que o Papa nomearia sim um novo prefeito, porém, o seu pontificado acabou sem que isso acontecesse.
Agora, passados quase dez meses do pontificado do Papa Leão XIV, a sucessão na Prefeitura volta aos refletores dos vaticanistas, que, baseados nas próprias fontes que falam de acontecimentos que se confirmam ou não, têm publicado nos jornais e nas redes sociais, atraindo a atenção dos mais interessados. Segundo esses jornalistas, a nomeação do novo prefeito não seria com a promoção nem do regente e nem do novo vice-regente, porém, não iria tão longe do Vaticano e recairia sobre o atual núncio apostólico na Itália e em San Marino, cujo escritório é sediado no centro de Roma:
Dom Petar Rajič é canadense, filho de bósnios de origem croata, tem 66 anos e desde 1993 trabalha na diplomacia vaticana. Após atuar nas representações pontifícias no Irã, na Lituânia e até na própria Secretaria de Estado da Santa Sé, em 2009 foi nomeado por Bento XVI como bispo e núncio apostólico, chefiando várias nunciaturas desde então: primeiro, em conjunto, no Kuwait, Bahrein, Catar e na Península Arábica; depois, no Iêmen e nos Emirados Árabes Unidos; ainda depois, na Angola e São Tomé e Príncipe; e, por fim, entre os anos 2019 e 2024, na Lituânia, na Estônia e na Letônia, sendo ali substituído pelo próprio Dom Georg Gänswein. Coincidência? Ele foi substituído por Dom Georg e, por fim, substituirá Dom Georg no seu antigo cargo?
O nome de Dom Petar tem sido comentado por vaticanistas porque as grandes decisões de Leão XIV, longamente refletidas e por isso que muito aguardadas, começariam a ser tomadas por volta do tempo da Páscoa, cujo domingo será em 05 de abril, e tocariam também a Nunciatura na Itália e em San Marino, que são unificadas em um único escritório.
Além do fato curioso da possibilidade da substituição recíproca nos cargos, é interessante notar a preparação que diz respeito a essa função, não somente pelo âmbito diplomático porque lida com várias outras autoridades e instituições, dentro do Vaticano e da Itália, mas também pelo âmbito logístico, tanto de pessoas, quanto de programas da agenda do papa. Lembremo-nos do precedessor de Dom Georg como prefeito, o Cardeal James Harvey: ele foi nomeado para a função sob o pontificado de São João Paulo II e desempenhou-a por catorze anos, até praticamente o fim do pontificado de Bento XVI; como Dom Petar, ele estudou Direito Canônico e fez parte da diplomacia vaticana, trabalhando primeiro na Nunciatura Apostólica da República Dominicana e depois, por quinze anos, na Secretaria de Estado da Santa Sé. O perfil diplomático de Dom Petar é praticamente igual ao do Cardeal Harvey, separando, claro, as particularidades, a história pessoal e o modo de trabalho de cada um.
Haverá um novo prefeito?
Quem conhece o Papa Leão desde quando ele era prior-geral da Ordem de Santo Agostinho e, depois, como bispo diocesano fala que é de sua personalidade a tranquilidade e a longa reflexão diante da necessidade de decisões importantes, qualidades que nem todas as pessoas possuem. É esperado que, ajudado com as meditações do retiro quaresmal e a Páscoa sendo às vésperas do primeiro aniversário da sua eleição no conclave, o Papa possua o tempo e os outros processos suficientes para decidir as nomeações que quer e que precisa fazer. Há cargos na Cúria desempenhados por quem já ultrapassou a idade limite e há a vacância da Prefeitura da Casa Pontifícia.
Claro que a Prefeitura não tem o mesmo peso do Dicastério para os Bispos, cujo prefeito — que antes do conclave era o próprio Papa — foi nomeado após quatro meses de vacância, mas, dado que a mencionada Prefeitura continua prevista na estrutura da Cúria Romana mesmo após a reforma desta e o novo pontificado, é esperado que o Papa não permita que ela continue acéfala, sem chefe, tal como fez ao Dicastério para os Bispos. Para saber se isto acontecerá ou não é necessário esperar um pouco e veremos o quanto acertaram os vaticanistas no movimento de peças do tabuleiro vaticano.






