Todos podem usar solidéu?
Atenção: não é objetivo deste artigo posicionar o Blog sobre tudo para dizer quem está certo ou errado. Apenas, devido ao uso popularizado nos últimos tempos, achamos conveniente um esclarecimento.
Abaixo à emancipação do uso do solidéu
Ainda é possível ver o início do atual movimento litúrgico. Apesar de sabermos e não duvidarmos que é comum uma crise – onde também está inserida a Liturgia – após um Concílio, é inegável que o pontificado de Bento XVI impulsionou as pessoas de boa vontade a redescobrir que a Liturgia não é nossa, mas de Deus, e por isso, possuindo regras próprias e justificadas, só nos cabe desapegarmos de nossos conceitos e nos deixarmos abrir à maravilha que a fidelidade litúrgica propicia.
E então, como dizíamos, ainda é recente o movimento litúrgico “beneditino”. Principalmente desde o fim de 2007, quando Mons. Guido Marini começou a chefiar o Escritório das Celebrações Litúrgicas Pontifícias, reapareceram no vestuário eclesiástico e litúrgico barretes, tabarros, alvas e sobrepelizes com renda, casulas romanas, orientação “versus Deum” na Missa, altares com 6 (e 7, com o Bispo) castiçais etc. Claro que havia lugares, embora contados, que mantinham esses costumes mesmo durante os difíceis e preconceituosos anos pós-Vaticano II. Isto acontecia porque neles se percebia que o último Concílio não quis romper com a tradição de 19 séculos precedentes, quem fiz fazê-lo foram muitos que tiveram o poder para convencer e, de certo modo, conseguiram. Mas, passados alguns anos, a ignorância deu lugar à inteligência e tudo isto coincidiu – repetimos – com o zelo do pontificado de Bento XVI.
Contudo, há um problema: alguns passaram a se enganar que o renascimento litúrgico na Igreja deveria lançar mão a tudo que aparentasse um conservadorismo, mas, na verdade, acabou se tratando de uma confusão das coisas. Para ser mais claro: passaram a usar o que não deveria ou como não deveriam. E um exemplo disto é o solidéu dentro das celebrações litúrgicas, sobre o qual nos deteremos a seguir.

Dom Maximilian Heim, cisterciense, Abade de Santa Cruz (Heiligenkreuz, em alemão), Áustria
um prelado a quem desde o Código de Direito Canônico de 1917 permite o uso de solidéu, que é branco, cor de seu hábito monástico
A saber: o solidéu surge a partir do século X do costume de cobrir a cabeça e da diminuição das peças que serviram a isto: amito e o primitivo capuz do pluvial. Disto, nasceu o barrete. Mas, antes, o solidéu restou como o barrete primitivo, de desenho mole (Curso de Liturgia Romana, Dom António Coelho). Diz-se que seu nome é devido ao costume de só retirá-lo da cabeça “para Deus”, já que as rubricas dizem que os ministros devem estar descobertos na exposição do Santíssimo Sacramento, no início do prefácio do Cânon da Missa etc.
Talvez com o oportunista argumento “Ah, mas antigamente era assim”, popularizou-se o solidéu: seminaristas, frades e sacerdotes passaram a usá-lo nas celebrações. Todavia, nem mesmo no Código de Direito Canônico de 1917 é encontrada permissão para isto, antes, é proibida, salvo exceções de privilégio. Este Código, revogado na publicação do de 1983, era mais detalhado e não permitia restar muitas dúvidas, como o faz o atual e que, por isso, segundo canonistas, deverá ser reformulado em alguns trechos. E quem tinha privilégio? O Código delegou isto às normas particulares. Portanto, simples padre não poderia usar, nem diácono, nem muito menos seminarista.

Da esquerda para a direita: Abade, Bispo, Cardeal e Papa.
Os prelados a quem o Código de 1917, ordinariamente,
prevê o uso de solidéu nas celebrações litúrgicas, cuja cor segundo a sua dignidade
Outros podem dizer: “Mas, todos os judeus, ministros ou não, usavam-no”. Contudo, nós não somos judeus. E embora muito herdemos deles, o solidéu não corresponde em tudo ao kipah.
Salvam-se os hábitos religiosos que preveem o uso de solidéu próprio. Não obstante, uma coisa é seu uso no hábito religioso, outra coisa – e esta regida pelos livros litúrgicos – é um religioso usá-lo dentro das celebrações litúrgicas.
Por fim, o solidéu segue a cor do hábito religioso ou da veste talar: há religiosos de hábitos brancos, marrons e pretos, aos quais o solidéu acompanha em cor; sacerdotes [privilegiados] usam pretos; bispos, violáceos; cardeais, vermelhos; Papa, branco. Há solidéu preto com detalhes em cor seguindo a dignidade de quem o usa, por exemplo, preto com detalhes em linhas violáceas ou vermelhas, para monsenhores e bispos.

E quanto aos leigos, é permitido ao leigo o uso do solidéu?
Não. O solidéu só pode ser usado por religiosos. Apesar de sua origem ser judaica, onde todos o usam, entre os católicos só é permitido aos religiosos, fora das celebrações litúrgicas, e aos prelados em qualquer momento.
Obrigado!
Os sacerdotes diocesanos podem usar solidéu fora da missa?
O solidéu nunca pertenceu à veste talar dos sacerdotes diocesanos. Portanto, não é permitido seu uso sequer fora das celebrações litúrgicas.
Um religioso ou sacerdote que esteja na assembléia durante uma ação liturgica pode usar solidéu?
Apenas se o solidéu pertencer originalmente ao hábito. Somente alguns religiosos o possuem, o que não acontece aos sacerdotes diocesanos.
Não
E cônegos podem usar o solidéu? Em qual Livro vejo este tipo de orientação?
Não. A regra baseia-se que nada disto é prescrito nas novas leis canônicas e as antigas proibiam.
Não entendi bem uma coisa: quando em uma congregação prevê o uso do solidéu da mesma cor do hábito, o solidéu deve ou não deve ser usado durante a missa? Já escutei falar que não se deve usar, contudo escutei também que o seu uso deve ser realizado segundo o significado de seu nome (só para Deus) sendo retirado (durante a missa) somente no início do prefácio do Canon, e novamente utilizado na Oração pós-comunhão;
Desculpem se não entendi direito o que já fora escrito por vocês, mas agradeço a cordial resposta.
Em Cristo,
Ronaldo N.
P.s. se puderem me enviar junto da resposta a citação de onde foi baseada a resposta agradeço-lhes cordialmente. Obrigado.
Oi, Ronaldo. O hábito possuir ou não solidéu não interfere na lei litúrgica que impede que não o use na Liturgia quem não é Abade ou Bispo.
A razão disto foi explicada no artigo.