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Leão XIV se mudou para o sótão do Palácio?

Postado em 16 março 2026por Redação
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Desde a sua eleição pontifícia, foi anunciado que Leão XIV faria de novo o Palácio Apostólico Vaticano como sua residência oficial. E isso aconteceu em 14 de março, mais de dez meses depois do conclave: na tarde do sábado, o Papa mudou-se junto com seus secretários para o terceiro andar do Palácio, tal como seus predecessores até 2013.

Lembremo-nos que o Papa Francisco, como parte do protocolo, apenas tomou posse deles depois do conclave que o elegeu, mas decidiu viver na Casa Santa Marta, uma residência religiosa para bispos e monsenhores da Cúria Romana, mas que durante o conclave se torna a hospedagem retirada e tecnologicamente protegida dos cardeais eleitores. Enquanto um andar de Santa Marta tornou-se reservado para o Papa Francisco e a sua família pontíficia, de secretários e outros assessores, os cômodos oficiais no Palácio Apostólico foram usados para as visitas oficiais de líderes mundiais, bispos e outras autoridades; de igual modo, o seu escritório, de cuja janela ele, como os seus predecessores, rezou o Angelus (ou o Regina Caeli, durante o Tempo da Páscoa) ao meio-dia de todos os domingos e outros dias festivos, quando ele não estava fora de Roma e, nos últimos anos, quando a saúde lhe permitia.

Portanto, depois de tanto tempo sem uso e sem a manutenção frequente percebida por qualquer morador, aquele último andar do Palácio precisou de reformas, que, porém, duraram muito, o que aponta mais uma vez a grande necessidade.

Mas antes de continuarmos, é interessante notar que o Palácio Apostólico e nem mesmo o Vaticano foram desde sempre a residência oficial ou permanente dos papas.

Morando fora do Vaticano

O Vaticano desenvolveu-se por causa de São Pedro. No seu tempo, aquela área sequer era considerada cidade de Roma porque era além do rio Tibre; ali era tanto um centro de atrações (como o Circo Máximo e o Coliseu), mas também um cemitério. Desse modo, fora da cidade, o primeiro Papa cumpriu a sua pena capital em ser crucificado, mas de cabeça para baixo, como diz a tradição, porque nem mesmo na morte ele poderia se igualar ao seu mestre. Assim, não muito distante do lugar do seu martírio, ele foi sepultado e acima do seu túmulo foi construído um oratório. Depois de se converter, o imperador Constantino construiu algumas igrejas, dentre as quais, a primeira Basílica de São Pedro, que por esse motivo é conhecida como constantiniana.

A sucessiva construção de mais edifícios, nem sempre igrejas, deu-se por motivos práticos e espirituais, como a residência próxima para aqueles que trabalhavam na Basílica e os vários mosteiros que surgiram para que seus monges morassem e rezassem próximos do túmulo do chefe dos apóstolos.

Naquela época, o papa morava ao lado da sua catedral, o Latrão, que não está localizada no centro da cidade porque Roma não nasceu cristã e, assim, a sua primeira igreja é localizada no que antes era a periferia. O papa vivia no Palácio Lateranense, que, naturalmente, desenvolveu-se em um grande edifício, tendo em vista toda a família pontifícia, os cardeais e os bispos que faziam parte da corte e moravam com ele: tendo como centro a Arquibasílica do Latrão, o grande palácio incluía boa parte da atual praça da catedral, o Santuário da Scala Sancta e a praça onde atualmente está o obelisco lateranense e que é a entrada da cúria diocesana — um vasto e imponente edifício. Mas tudo isso estava literalmente às portas de Roma, localizado ao lado das Muralhas Aurelianas, o que deixava não somente o complexo exposto a ameaças, mas principalmente o Papa. Então, se o Pontífice estivesse em perigo, ele percorria a atual Via dei Santi Quattro Coronati e refugiava-se na basílica de mesmo nome, que, junto ao mosteiro, passou por reformas que transformaram-nos externamente em uma fortaleza, que ainda hoje pode ser vista como tal.

É possível imaginar a grandiosidade e magnificência do Palácio Lateranense, correspondendo à importância da residência do Sumo Pontífice e estar no mesmo completo da primeira igreja do mundo e catedral de Roma. Isso pode fazer pensar que o Vaticano era negligenciado, partindo do fato de o Papa não morar nele. Mas não e embora o lugar principal para as devoções do povo era o Vaticano por causa do túmulo de São Pedro, o complexo Lateranense, além de tudo, pouco a pouco dispôs de relíquias muito importantes e que atraíram a devoção do povo, o que provocou um conflito entre o clero lateranense e o clero vaticano, que se resolveu apenas no primeiro jubileu, o de 1300, sob Bonifácio VIII.

Em tal complexo, os papas viveram desde o início do século IV até que, em 1309, o papa francês Clemente V decidiu que transferir a sede do papado para Avinhão, uma cidade situada não muito distante da fronteira entre a Itália e a França. Iniciou-se o cativeiro avinhonense, isto é, por motivos políticos, os papas de algumas décadas seguintes mantiveram a sede papal, com toda a Cúria Romana e a sua corte, na França. Isto foi desastroso para Roma: as suas igrejas não permaneceram sem clero e a cidade não foi privada do governo civil, mas a ausência do Pontífice fez com que ela fosse neglicenciada na proteção contras riscos e ataques, na sua manutenção constante e no seu embelezamento. Algo assim já havia acontecido outras vezes: por volta do ano 330, quando Constantinopla foi construída como nova Roma, para dividir com esta a importância do Império Romano; e aconteceu também depois do ano de 476, quando caiu o próprio Império Romano do Ocidente, sediado na Cidade Eterna. Dois duros golpes em cerca de 150 anos, para não falar das invasões bárbaras, que foram motivos ainda maiores para a degradação e o abandono de Roma pela população: a Cidade, antes fulgente pelas glórias e pelo poder do Império, começou a ser abandonada por causa do medo dos bárbaros e pela administração do Império a partir de outras cidades dentro e fora da atual Itália. É na queda do Império Romano do Ocidente que vemos a primeira grande atuação da Igreja principalmente através dos monges, que com suas iniciativas sociais, administrativas e espirituais sustentaram a Europa de um declínio total e irrecuperável.

Somente em 1377, um outro papa francês de nascimento, mas incentivado principalmente por Santa Catarina de Siena, Gregório XI transferiu a sede papal de volta para Roma; transferiu definitivamente porque em 1366 o francês Urbano V voltou para a Cidade Eterna, mas revoltas forçaram-no a voltar para Avinhão.

Porém, como dizíamos, a pobre e abandonada Roma não era mais a mesma quando Gregório XI voltou: o próprio Palácio e a Basílica Lateranenses estavam péssimas condições causadas pelos dois devastantes incêndios de 1307 e 1361 e que as somas enviadas pelos papas não foram suficientes a repará-los com a aptidão e o esplendor de antes. Então, Gregório XI primeiro fixou residência na Basílica de Santa Maria no Trastevere e, depois, na Basílica de Santa Maria Maior. Apesar de tudo, uma nova decisão fez com que a partir de 1377 os papas passassem a morar no próprio Vaticano, seja porque era mais adequado estruturalmente, seja porque, em meio às discussões sobre o poder pontifício no âmbito espiritual e também no cenário social, desejou-se enfatizar ainda mais, com a proximidade ao túmulo de São Pedro, a sua reinvidicação como guia universal.

Palácio do Quirinal

Cerca de dois séculos mais tarde, o papa Sisto V comprou a Villa Carafa, situada na colina Quirinal, que já tinha sido de interesse do seu predecessor Gregório XIII e que começou a investir nela com reformas de ampliação do edifício e melhorias da área, que não era tão saudável como o Vaticano e o Latrão. Sisto V continuou as obras iniciadas por Gregório XIII: a Villa foi ampliada, foram construídas duas ruas para seu acesso e foi construída também a praça em frente ao novo palácio. Por fim, o aspecto completo do Palácio do Quirinal foi dado pelo papa Paulo V, no início do século XVII. Da arquitetura à decoração, os papas se valeram do trabalho de profissionais e artistas famosos, tais como Domenico Fontana, Carlo Maderno e Bernini, este que desenhou a sacada das bênçãos na fachada principal.

Mais do que uma residência estiva, o Palácio do Quirinal transformou em residência alternativa dos papas ao Palácio do Vaticano: nele foram hospedados 30 papas, o último deles foi o Beato Pio IX. Antes da mudança definitiva para o Vaticano, o Palácio já tinha perdido o seu status pontifício durante a ocupação das tropas napoleônicas, de 1809 a 1814, para ser residência do imperador francês na segunda cidade dos seus territórios, depois da capital Paris, e do seu filho Napoleão Francisco, que recebeu o título de rei de Roma. Mas, com a queda do Bonaparte e com a restauração política, em 1814, o Papa Pio VII retornou à Cidade Eterna e retomou a posse do Quirinal, promovendo imediatamente com reformas para apagar qualquer traço do invasor. Com os movimentos sociais da unificação italiana, um governo caindo depois do outro por todo o território, Roma e o domínio papal eram os últimos em pé. Para evitar a continuação inútil do conflito e o derramamento de sangue entre italianos e católicos, Pio IX ordenou que não houvesse alguma resistência na invasão da cidade através da Porta Pia, deixou o Palácio e refugiou-se no Vaticano, declarando-se como prisioneiro do movimento unificador. Roma foi tomada pelo governo da Itália unificada e feita capital, com o Palácio do Quirinal residência do rei da Itália, um membro da família Savoia.

Como dizíamos no começo, o Palácio Apostólico do Vaticano é um conjunto de construções de épocas diferentes e com usos que mudaram no decorrer do tempo. Ele se divide em apartamentos, salas, capelas, escritórios e bibliotecas. No terceiro andar, do lado do prédio onde no segundo andar encontra-se a Capela Sistina, é sediada a Secretaria de Estado. Somente a partir de São Pio X, no início do século XX, os papas começaram a morar no terceiro andar do prédio cuja fachada é virada para a Praça São Pedro.

Enquanto esperava o fim das reformas, Leão XIV permaneceu morando no mesmo lugar onde morava desde alguns meses antes de se tornar papa: no Palácio do Santo Ofício, exatamente acima do escritório do prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé (título que São Paulo VI deu para o então Santo Ofício). As intervenções estruturais demoraram mais do que o previsto e esperado porque foram identificados vários e sérios problemas de mofo, infiltrações, dentre outros, dada a falta de manutenção em 12 anos; o Papa Francisco, morando na Casa Santa Marta, reservou o segundo andar do Palácio Apostólico para as visitas oficiais de autoridades. Assim, nos primeiros sinais que a mudança do Papa Leão estava próxima de acontecer, entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, a imprensa mundial — começando pela italiana — encheu-nos de manchetes, tais como: “o Papa vai morar no sótão”. Mas a informação não é verdadeira.

 

No canto inferior direito, acima de um dos braços da Praça São Pedro, um dos prédios do Palácio Apostólico Vaticano no qual é possível ver a cobertura no terceiro andar.

A imprensa italiana usou o termo “mansarda”, que no Vaticano é conhecido como “soffittoni”, isto é, o espaço entre um andar e o teto. O teto do Palácio Apostólico é realmente alto e ali existe o que no Brasil chamamos de cobertura e que merece uma melhor explicação: foi São Paulo VI a dar ao aposentos pontifícios a aparência que conhecemos, decorando com ótimos componentes o segundo andar (onde acontecem as visitas oficiais) e de modo ainda melhor o terceiro andar, os apartamentos papais, com tudo que tem uma casa comum, além do necessário para os seus secretários e os seus assessores leigos. Também fez reformas na capela privada, incluindo obras contemporâneas, na qual tantas vezes São João Paulo II foi filmado e fotografado. Mas a sua intervenção mais ousada foi a retirada de parte do telhado e a transformação em um terraço com impressionantes vistas sobre Roma e o Vaticano, mas ainda protegida com a discrição do resto do telhado; isto é o “sótão” mencionado pela imprensa. A “cobertura” tem capela e quartos, permitindo desfrutar de um mais suave clima romano como numa vila elevada no coração do Vaticano.

O neo-eleito Leão XIV toma posse dos apartamentos pontifícios; na imagem, ele observa a capela privada.

Até agora, a cobertura do apartamento papal era desconhecida da opinião pública. Muitos pensavam que o Papa Leão, na verdade, não moraria no terceiro andar, mas no sótão. Porém, é mais do que isso: o Papa usará os espaços domésticos e o seu escritório no terceiro andar, mas junto com seus secretários, ele aproveitará a tranquilidade do terraço, incluindo os quartos localizados ali. A família pontifícia é formada por seus dois secretários e algumas religiosas, provavelmente salesianas, que cuidam das tarefas domésticas.

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