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Fraternidade Sacerdotal São Pio X | Direto da Sacristia '

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Dossiê FSSPX – Parte III

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Dossiê FSSPX – Parte III

Postado em 08 maio 2012 por E. Marçal

Dossiê FSSPX – Parte III
Diálogos, reconciliações e esperança de retorno definitivo 

Era. Lefebvre estava certo em sua preocupação: o fim de sua vida estava próximo. Tão próximo que ele viveu menos de três anos após ser punido, ele e os outros 5 bispos, com a excomunhão. Morreu aos 85 anos, numa segunda-feira, às 03h25 do dia 25 de março de 1991, segunda-feira da Semana Santa, em Martigny; esperara muito para operar a sua causa mortis: um tumor canceroso do tamanho de três laranjas extraído do seu estômago. Segundo relatos de testemunhas, em seus últimos dias, teria dito: “Eu não quero estar diante de Deus para ser questionado: ‘O que você fez com seu episcopado?’” Às suas exéquias, oficiadas no Seminário de Êcone no dia 02 de abril seguinte – onde também está a sua sepultura, compareceram cerca de 20 mil pessoas. O Núncio de então e o bispo de Sion, Mons. Schwery, estiveram no funeral. Sobre o caixão, afixaram uma placa onde gravaram as palavras que ele pedira: Tradidi quod et accepi (Transmiti o que recebi).

Peregrinação da Fraternidade a Roma durante o Ano Santo 2000
Estiveram presentes mais de 6000 fiéis assistidos por eles e provenientes de todas as partes do mundo

Apesar de tudo, os filhos espirituais de Lefebvre nunca deixaram de dizer que eram católicos. Continuaram a declarar reconhecimento da autoridade do Romano Pontífice e fidelidade à Igreja. Não se privaram, por exemplo, da peregrinação jubilar a Roma por ocasião do Ano Santo de 2000, quando, diante dos olhares incrédulos de muitos, avançaram pela Via dela Conciliazione, seguindo Mons. Fellay que erguia nas mãos uma simples cruz de madeira, e adentraram na Basílica de São Pedro, um dos locais para cumprir os seculares exercícios espirituais feitos durante os Anos Santos.

Dom Antônio Castro Mayer:
compartilhou com Lefebvre também a mesma sanção canônica
e a fundação de uma fraternidade sacerdotal

No Brasil, continuou uma extensão da obra iniciada pelo Arcebispo e continuada por Dom Castro Mayer até sua morte, pouco tempo depois daquele, em 26 de abril de 1991, às vésperas dos 87 anos de idade. A União Sacerdotal São João Maria Vianney fora fundada em 1982 com os mesmos desejos da Fraternidade São Pio X: reunir seminaristas, sacerdotes e fiéis que queriam continuar usando ordinariamente os livros anteriores à reforma do Vaticano II. Após a morte de Dom Castro Mayer, a União foi governada por Dom Licínio Rangel. Acontecera a este o mesmo ocorrido em Êcone: recebera a sagração episcopal sem mandato pontifício em 28 de julho de 1991, em São Fidélis (Rio de Janeiro), em cerimônia presidida por Bernard Tissier de Mallarais, sendo assistido por Alfonso de Galarreta e Richard Williamson. O fato foi muito noticiado na época por jornais de circulação nacional.

Dom Fernando Rifan,
Administrador Apostólico da Administração Apostólica São João Maria Vianney.
Sua sagração episcopal em 2002 foi um dos marcos do fim do cisma de Campos 

Mas, os “Padres de Campos” e o cisma instaurado também lá, não resistiu muito tempo: em 2001, Dom Licínio e os seus 25 padres escreveram uma carta ao Papa João Paulo II, expressando total submissão e comunhão com Roma. A reaproximação acontecera quando da peregrinação jubilar que haviam feito com a Fraternidade São Pio X. O Vaticano não só reconheceu a União, como erigiu-a como Administração Apostólica São João Maria Vianney, e nomeou Dom Licínio como seu primeiro administrador apostólico, reconhecendo, portanto, a sua sagração episcopal ilicitamente conferida dez anos antes e concedendo-lhe a sede episcopal titular de Zarna. Ele permaneceu no cargo por pouco tempo, parecendo que só aguardara a plena comunhão com o Papa para morrer em paz; adormeceu no sono do Senhor, 5 meses depois de ver o fim do cisma de Campos, em 16 de dezembro de 2002. Sucedeu-lhe no governo da Administração o até então Administrador Coadjutor, que Dom Licínio solicitara a João Paulo II, Dom Fernando Areas Rifan. Sua sagração episcopal acontecera em 18 de agosto de 2002 (veja o vídeo), presidida pelo Cardeal Dario Castrillón, então Presidente da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, assistido por Dom Alano Maria Pena, então Arcebispo de Niterói – Província Eclesiástica onde a sede da Administração está situada, e por Dom Licínio Rangel. Dom Fernando Rifan é titular de uma sede episcopal hoje extinta Cedamusa (no norte africano).

Dom Fernando Rifan com o Papa Bento XVI

Clero secular da Administração Apostólica, durante o seu retiro anual
À esquerda de Dom Rifan, Pe. Paulo Ricardo Azevedo 

A Administração Apostólica São João Maria Vianney é, portanto, uma circunscrição eclesiástica especialmente ereta àqueles que querem permanecer unicamente na espiritualidade e formação do usus antiquior, mas não deixam de reconhecer a validade do Concílio Vaticano II, suas reformas, seus documentos e os Pontífices eleitos depois dele. Em 2007, elencava 40 sacerdotes em seu clero, 32 seminaristas, 75 religiosos, cerca de 28 mil fiéis e 24 escolas. Pode erigir – como já o fez – paróquias pessoais em qualquer território, até mesmo fora de sua sede, para atender os fiéis que assim o desejarem. Dom Fernando Rifan é, por conseguinte, até agora, o único bispo licitamente sagrado e que celebra (quase que) exclusivamente o rito antigo (eventualmente concelebra em cerimônias da forma ordinária; durante a Assembleia Geral do episcopado brasileiro, por exemplo), que está em plena comunhão com a Igreja e seu Administração é incorporado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Na mesma cidade de Campos, estão sediadas a Diocese homônima, como qualquer outra diocese, e a Administração Apostólica, que não é restrita a limites físicos.

Procissão da Fraternidade em direção à Basílica de São Pedro
Peregrinação do Ano Santo 2000 

Apesar das acusações motivadas por incompreensões e ódio e que diziam que Bento XVI “queria voltar atrás, para antes do Concílio”, o Pontífice decidiu por bem remover, em decreto da Congregação para os Bispos de janeiro de 2009, a excomunhão aplicada aos quatro Bispos ordenados sem mandato pontifício, atendendo a insistentes pedidos de Mons. Fellay. Em carta emitida ao episcopado mundial e explicando-se sobre sua atitude, o Papa justificou-se que havia tomado tal decisão pelo mesmo motivo com que foram lançadas as excomunhões em 1988: convidar os quatro Bispos ao regresso. E, ademais, que a Igreja não poderia permanecer indiferente com uma comunidade que, naquele ano, contava com “491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis”. Mas, antes, a Fraternidade deve reconhecer que “a autoridade magisterial da Igreja não se pode congelar no ano de 1962”. E que ainda não possui uma posição canônica regular não por “razões disciplinares, mas doutrinais”. Bento XVI, ao fim de sua explicação, ainda se perguntou retoricamente se o que fez era necessário. Respondeu-se e a quem questiona assim que a Pedro foi dada a missão de confiar os irmãos na fé e que o mesmo Apóstolo, em sua primeira Carta, exortou a todos a estarem sempre prontos a responder a quem questionasse a sua fé. Despediu-se com as palavras de São Paulo aos Gálatas, em não abusar da liberdade e, assim, destruir-se mutuamente.

Questionado sobre o levantamento também da excomunhão de Mons. Lefebvre, o Cardeal Giovanni Battista Re, que assinou o decreto de remissão das censuras canônicas, afirmou que não compete à Igreja definir a validade de sanções contra pessoas já falecidas.

Não obstante, houve posições de alguns dos quatro Bispos que questionaram a sua intenção de reconciliar-se com a Igreja: entre a publicação do decreto de remissão das excomunhões e da carta do Papa, foi divulgada em 21 de janeiro de 2009 (com intrigantes) dois meses de atraso da gravação) uma entrevista de Mons. Richard Williamson a um canal televisivo sueco, dizendo acreditar no revisionismo do Holocausto, que não haviam existido câmaras de gás e, portanto, os judeus não tinham morrido nelas, mas em campos de concentração nazistas. Tão pensamento é ilegal e punível como crime nos tribunais alemães, onde foi iniciado uma investigação criminal do bispo. À época, a situação tornou-se tão constrangedora para a Santa Sé de modo especial, em suas relações com a comunidade judaica e com governos que jamais negariam o genocídio de judeus e o número de vítimas da Segunda Guerra Mundial, que Bento XVI disse ao jornalista alemão Peter Seewald, no livro-entrevista “Luz do mundo” lançado em 2010, que se tivesse tomado prévio conhecimento das vergonhosas declarações de Mons. Williamson, havia separado o seu caso dos demais Bispos até então excomungados, e não revogaria a sanção canônica que pesava contra ele. Consciente da polêmica que tinha provocado, a ponto de ter sido expulso da Argentina pelo Governo e ser rechaçado por membros da Fraternidade, dirigiu um pedido de perdão ao Papa por suas palavras impensadas e se comparou ao profeta Jonas, que, jogado ao mar, fez com que toda a tempestade, ora deflagrada, acabasse. Foi advertido pelo Papa e por seu Superior, Mons. Fellay, a não mais apresentar declarações públicas como o tinha feito.

Mons. Tissier também não poupou duras críticas ao Papa Bento XVI em entrevista a uma revista, definindo-o como “um verdadeiro modernista com uma teoria completa de modernismo atualizado”.

Os sacramentos administrados por sacerdotes e bispos da Fraternidade São Pio X são válidos?

O próprio Bento XVI respondeu a isso na mesma carta enviada aos bispos do mundo inteiro, sobre a remissão das excomunhões, assinada em 10 de março de 2010: Enquanto a Fraternidade não tiver uma posição canônica na Igreja, também os seus ministros não exercem ministérios legítimos na Igreja. [...] Especificando uma vez mais: enquanto as questões relativas à doutrina não forem esclarecidas, a Fraternidade não possui qualquer estado canónico na Igreja, e os seus ministros — embora tenham sido libertos da punição eclesiástica — não exercem de modo legítimo qualquer ministério na Igreja.

Em 1996, Mons. Nobert Brunner, então bispo de Sion (Suíça) foi o primeiro a questionar sobre isso a Congregação para os Bispos. Esta, somando com uma resposta do Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, definiu que os sacerdotes ordenados ou por Mons. Lefebvre ou por algum dos quatros Bispos ilicitamente sagrados por ele e membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, são suspensos a divinis por pretenderem se incardinar numa instituição não canonicamente reconhecida pela Igreja e administrarem os sacramentos são acéfalos, não incardinados em diocese ou instituto canônico algum, que validamente lhes concederiam a jurisdição requerida para a lícita administração dos sacramentos do Batismo, Eucaristia, Matrimônio e Unção dos Enfermos. Do mesmo modo, são ilícitos os sacramentos da Ordem e da Confirmação conferidos por qualquer um dos quatro bispos da Fraternidade.

Reunião dos Superiores da Fraternidade na sede do Distrito italiano
sobre o conteúdo do Preâmbulo doutrinal entregue pelo Cardeal Levada.
Aparentemente, Mons. Williamson não compareceu ao encontro,
como ele não pode ser visto na foto junto aos outros três Bispos.
07-08 de outubro de 2011 

Todavia, primeiramente, a Igreja licita e valida qualquer sacramento administrado em perigo de morte por qualquer padre suspenso ou até mesmo laicizado (não mais clérigo), em favor da necessidade da salvação da alma do fiel. Os ministros ordenados da Fraternidade, em segundo lugar, advogam em causa da validade dos sacramentos administrados por eles em virtude da mesma necessidade universalmente defendida pela Igreja; alegam, ainda, que a jurisdição requerida para a mesma validade seria supressa pela Igreja (Ecclesia supplet) em favor dos fiéis que necessitam dos sacramentos e até mesmo em favor dos tribunais eclesiásticos instituídos pela Fraternidade para julgares casos de nulidade matrimonial.

Em maio de 1991, Mons. Ferrario, bispo do Havaí, emitiu um decreto de pseudo-excomunhão a alguns católicos de sua diocese que assistiram a missas celebradas por sacerdotes da Fraternidade e por receberem um bispo desta para administrar a Confirmação. Contudo, o Cardeal Ratzinger declarou que a atitude dos fiéis não constituía um delito de cisma e que, portanto, sem fundamento, o decreto episcopal não tinha nenhuma validez.

Contudo, para qualquer fiel católico que não pertence à comunidade leiga da Fraternidade São Pio X, é válida a mesma lei que rege a recepção dos sacramentos administrados pelo clero ortodoxo, que não reconhece a primazia de Pedro: só em caso de verdadeira necessidade, caso não haja ministro ordenado, incardinado e com legítima jurisdição, é que qualquer católico pode receber sacramentos administrados por qualquer ministro ordenado católico, independente de sua situação canônica.

* * *

Chegamos à “feria quarta” marcada pela Congregação para a Doutrina da Fé para a discussão da resposta dada pela Fraternidade, na pessoa de seu Superior-geral, Mons. Bernard Fellay. Talvez assistimos ao fim de um dos mais graves problemas canônicos (e por que não pastorais?) iniciado há quase um quarto de século. O Papa oferece a eles oportunidade de retorno como o fez aos anglicanos, aos luteranos e a todos quantos pedem e ainda pedirão para regressar à Igreja de Deus. Esse não é a primeira chaga na Igreja ao longo dos séculos. Nada desse cenário é novo. Se é verdade que um grupo de 25% dos membros da Fraternidade se recusarem, como ameaçam, não aceitar qualquer acordo com o Santo Padre, é obstinar-se no erro e adiar para dias desconhecidos a sua regularização canônica tão necessária!

O que mais importa, como já falamos, não é a discussão com um grupo de católicos que se opôs ao Vaticano II e que unicamente prefere o rito romano clássico como o que expressa a sua sensibilidade litúrgica; o que importa são milhares de fiéis, um clero acéfalo, o desejo do Papa de reunir todos em um só rebanho; o que importa é a glória de Deus, a exaltação da fé e da Igreja e a salvação das almas. Por tudo isso, rezemos; pois, na Igreja, como dizem, há lugar para todo mundo, mas “cum Petro et sub Petro”.

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Dossiê FSSPX – Parte II

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Dossiê FSSPX – Parte II

Postado em 07 maio 2012 por E. Marçal

Dossiê FSSPX – Parte II
De Êcone às excomunhões 

Depois de contar com o apoio do bispo onde estava situado o seminário de Êcone, o Cardeal Wright, então Prefeito da Congregação para o Clero, também elogiou os estatutos da Fraternidade.

Vista parcial do Seminário Internacional São Pio X
O primeiro da Fraternidade homônima 

Mas, os tempos de paz duraram até o momento que a recusa ao Novus Ordo foi publicamente declarada por Mons. Lefebvre, fato que aconteceu em 10 de junho de 1971, seguida por todos os alunos do Seminário São Pio X de Êcone. O mesmo tinha sido feito pelos Cardeais Ottaviani, então Prefeito do agora renomeado Santo Ofício, e Bacci em carta dirigida a Paulo VI. Até ao ano de 1974, porém, a nova fraternidade recebe sinais seguros de sua aprovação no Vaticano, até mesmo permitir a sua ereção canônica em duas dioceses suíça e uma italiana. A partir de então, iniciou-se o período mais difícil para a Fraternidade. Seguem-se os fatos:

Naquele mesmo ano, entre os dias 11 e 13 de novembro, aconteceu uma visita apostólica ao seminário de Êcone presidida pelo Cardeal Garrone, então Prefeito da Congregação para a Educação Católica (para os Seminários e Institutos de Estudos). Medidas como essas são normais em institutos de formação sacerdotal e religiosa. Ainda mais tranquilizantes foram as conclusões do Visitador, embora tenha sublinhado que o Seminário não aplicara a reforma litúrgica, e nisso havia “algo de espírito anticonciliar”.

Nos dias 13 de fevereiro e 03 de março de 1975, Mons. Lefebvre foi interrogado por uma comissão papal formada por três cardeais acerca de sua declaração redigida e publicada criticando alguns pontos da visita apostólica. No dia 06 de maio, por fim, foi condenado pela mesma comissão em virtude de erros encontrados na Declaração, e o Cardeal Jean Villot  ordenou ao Mons. Mamie, novo bispo de Friburgo, que retirasse a aprovação concedida por seu predecessor à Fraternidade São Pio X e que fosse, portanto, supressa. Em vão, Mons. Lefebvre apelou ao Tribunal da Assinatura Apostólica, pedindo ao seu Prefeito Cardeal Staffa que se realmente fosse encontrado algum erro em sua declaração, que a punição fosse a ele aplicação e não à Fraternidade, que estava fundada segundo a legislação canônica.

Em 29 de junho seguinte, Paulo VI confirmou a Mons. Lefebvre que aprovara tudo quanto tinha feito a Comissão cardinalícia.

Em 27 de outubro, o Cardeal Villot escreveu ao episcopado mundial dizendo que aos sacerdotes da Fraternidade não fosse concedida incardinação nas dioceses.

Em 26 de junho de 1976, Mons. Benelli, oficial da Secretaria de Estado e futuro Cardeal, prescreve a Mons. Lefebvre que não ordene sacerdotes sem permissão de seus bispos diocesanos. Três semanas antes de receber a comunicação epistolar, viajou por seis vezes a Roma onde lhe pediram que estabelecesse relações formais com o Vaticano. Foram inúteis as restrições de não ordenar mais sem a permissão dos Ordinários, pois três dias após prosseguiu com as ordenações previstas. Em 01 de julho, foi-lhe comunicada a suspensão a divinis do Arcebispo e dos sacerdotes recém-ordenados.

Audiência com Paulo VI: acusações mútuas e clima tenso

Em 11 de setembro de 1976, Lefebvre foi recebido por Paulo VI em seus últimos anos de vida. No início da audiência, o Papa estava alegre e receptivo. Depois, com o progresso e o rumo da conversa, seu ânimo foi mudando, e disse: “Você me condena! Você me condena! Me chama de modernista, de herege, de protestante! Não posso permitir isto. Você está fazendo um mal, não deve continuar, você está causando escândalo na Igreja”. E Lefebvre permanecia calado, até quando Paulo VI ordenou: “Fale, fale. O que você tem para dizer??”. E o Arcebispo começou a se explicar, enquanto Paulo VI estava nervoso, angustiado e com feições tristes.

Após pouco mais de dois meses de eleito Papa, João Paulo II concedeu-lhe uma audiência de 1h45 (fato raríssimo) em dezembro de 1978. Assim o que o viu, o Papa o abraçou, mas depois de ouvir os motivos de Lefebvre e seus questionamentos sobre o Concílio, repetiu exaltadamente: “A obediência! A obediência! A obediência! A obediência!”. A audiência, ao fim das contas, também foi tensa.

Não obstante, os anos avançaram e a formação sacerdotal na Fraternidade continuou normalmente. Mons. Lefebvre já contava com mais de oitenta anos e temia que, após sua morte, sem apoio e sem quem ordenasse seus sacerdotes, a Fraternidade desaparecesse. Por pensar assim, em abril de 1987 anunciou que sagraria bispos, mesmo sem autorização papal – que não possuíram, é verdade, jurisdição, pois só quem a concede é o Papa; mas administrariam os sacramentos da Confirmação e da Ordem. Contudo, como tentativa de aproximação e a fim de evitar um cisma, depois que o Cardeal Gagnon fez uma visita canônica à Fraternidade nos fins de 1987, em carta em abril do ano seguinte ao então Cardeal Ratzinger, o Papa João Paulo II reconheceu as disposições de Mons. Lefebvre. Portanto, seguiu-se uma série de encontros naquele mesmo mês com teólogos e canonistas da Congregação para a Doutrina da Fé e da referida Fraternidade. O resultado foi um acordo, e a assinatura de um protocolo em 05 de maio. Neste, Mons. Lefebvre declarou em seu nome e no da Fraternidade que prometia fidelidade à Igreja Católica e ao Romano Pontífice, cabeça do Colégio episcopal (reconhecendo, portanto, a colegialidade episcopal aprovada no Vaticano II); aceitava a doutrina conciliar contida no número 25 da Constituição dogmática “Lumen Gentium” do Vaticano II sobre o magistério eclesiástico e a adesão que lhe é devida; empenhava-se em estabelecer comunicação com a Sé Apostólica, evitando qualquer polêmica sobre os documentos conciliares e as reformas posteriores; reconhecia a validade da Missa e dos Sacramentos celebrados com a intenção requerida e segundo os ritos das edições típicas, promulgadas por Paulo VI e João Paulo II; reconhecia e respeitava a disciplina comum da Igreja e as leis eclesiásticas, especialmente aquelas contidas no Código de Direito Canônico de 1983, salvo as particularidades concedidas à Fraternidade. Na segunda parte do texto, era previsto que a Fraternidade seria constituída como sociedade de vida apostólica de direito pontifício e com certa isenção ao culto público, à cura das almas e às atividades apostólicas; seriam usados os livros litúrgicos anteriores à reforma litúrgica conciliar; uma comissão especialmente constituída mediaria as relações com os diversos dicastérios da Santa Sé; e seria sugerido ao Santo Padre um nome dentre os membros da Fraternidade para a eleição de um bispo próprio, que não seria o superior-geral.

Tudo aparentava acontecer bem e evoluindo para o fim daquele problema que já durava alguns anos. Contudo, em maio de 1988, Mons. Lefebvre escreveu ao então Cardeal Ratzinger exigindo que a sagração episcopal de um membro da Fraternidade fosse efetuada até o dia 30 de junho seguinte, acrescentando que se o seu pedido não fosse aceito, ele mesmo sagraria por dever de consciência. O Cardeal respondeu pedindo que reconsiderasse a decisão. No fim do mesmo mês, os dois se encontraram em Roma e foi comunicado a Mons. Lefebvre que o Papa nomearia um bispo da Fraternidade para que sua sagração fosse no dia 15 de agosto seguinte, clausura do Ano Mariano. Em carta posterior, o Arcebispo voltou a insistir na data de 30 de junho, e voltou a ameaçar que, do contrário, ele mesmo ordenaria por conta própria.

Bispos ilicitamente sagrados por Mons. Lefebvre e Dom Castro Mayer, da esquerda para a direita:
o suíço Bernard Fellay, em seu segundo mandato como Superior-geral da Fraternidade;
o cântabro Alfonso de Galarreta, reitor do seminário argentino de La Reja,
o franco-provençal Bernard Tissier de Mallarais; e o inglês Richard Williamson 

Em 09 de junho, o próprio João Paulo II enviou pessoalmente uma angustiosa carta desejando impedir o ato cismático, nestes termos: “Não somente o convido a isto [renunciar o projeto de ordenar bispos sem mandato da Sé Apostólica], mais ainda, peço-lhe pelas chagas de Cristo nosso Redentor, em nome de Cristo, que na vigília de sua Paixão orou por seus discípulos “para que todos sejam um”. Mas, o pedido do Papa não foi suficiente para desencorajá-lo do que aconteceu poucos dias depois. De fato, no dia 30 de junho, assistido pelo brasileiro Dom Antônio Castro Mayer, então Bispo emérito de Campos (só por um bispo, portanto, enquanto que a tradição pede dois co-sagrantes, embora que isso não invalide nada), Lefebvre ordenou quatro membros como bispos: Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallarais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta. Todos, válidos bispos sagrantes e ilícitos bispos sagrados, incorreram em excomunhão “latae sententiae” do cânon 1382 do Código de Direito Canônico de 1983, e reservada à Sé Apostólica (única competente a absolver da pena).

A sanção canônica foi oficialmente comunicada em 02 de julho, mediante o Motu proprio “Ecclesia Dei Adfflicta”. A Santa Sé acolheu os seminaristas e sacerdotes que se dispersaram da Fraternidade após consumado o cisma, e erigiu a Fraternidade Sacerdotal São Pedro. João Paulo II também erigiu o Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote e se dignou ele mesmo ordenar sacerdote o genovês que até hoje preside o mesmo Instituto, Mons. Gilles Wach. Foi a maneira encontrada para combater o cisma e atender tanto aos seminaristas, padres e fiéis católicos que têm a sensibilidade litúrgica do rito tradicional.

Enquanto isso, a Fraternidade apresentou argumentos, baseados em cânones do Código de 1983, entre eles que o estado de necessidade visto pelo Arcebispo invalidava a pena que seria aplicada em circunstância contrária; que o cisma só seria consumado se se quisesse constituir uma hierarquia paralela à oficialmente eleita e disposta pela Igreja, que aconteceria se também pretendesse conceder jurisdição, que se classificaria, portanto, em usurpação do ofício papal; e que, finalmente, o cisma não acontece simplesmente por desobediência, pois esta é apenas o não reconhecimento de uma ordem dada por uma autoridade, e não a dúvida da própria autoridade que formulou a ordem.

Justa ou não para eles, o fato é que as excomunhões foram lançadas e foi iniciado o período mais recente dessa história.

Continua…

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Dossiê FSSPX – Parte I

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Dossiê FSSPX – Parte I

Postado em 06 maio 2012 por E. Marçal

Deixamos claro que o presente artigo não representa uma apologia aos lefebvristas. Não somos nós habilitados para isto. A intenção do texto seguinte é apresentar os fatos como eles aconteceram, para que seja compreendida a situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X que, possivelmente, está às portas de ser solucionado, como tanto o deseja o Papa Bento XVI.

Esta explicação prévia se faz necessária em tempos que à menor citação da Fraternidade que não seja para julgá-la como um covil de “leprosos” e que deve ser para sempre banida pelos seus erros “imperdoáveis”, é interpretada como apologista. Portanto, seremos maduros o suficiente para tratarmos o assunto como uma apresentação sem qualquer juízo, e deixarmos às autoridades idôneas a decisão mais justa e melhor para a Igreja.

* * *

Dossiê FSSPX – Parte I
O início 

Às vésperas da reunião da Congregação para a Doutrina da Fé (em alguma “feria quarta” da primeira quinzena do mês de maio), quando será decidida a regularização canônica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, depois de recebida por parte daquela a resposta de Mons. Fellay ao Preâmbulo Doutrinal, é importante apresentar uma retrospectiva dos fatos que se seguiram desde o Concílio Vaticano II em torno, inicialmente, da pessoa do Arcebispo Marcel Lefebvre, e agora, da Fraternidade por ele fundada. À luz desta explicação, será mais fácil compreender a natureza das discussões e como este caso é caro ao Papa Bento XVI como, em último lugar numa escala de importância, prova de que existe uma solução; o que não foi possível em 1988, quando ele foi o mediador nas frustradas negociações.

1. Primeiro anos

Antes mesmo de nos determos no relato anterior às excomunhões de 1988, voltaremos alguns anos, afim de que seja conhecida mais detalhadamente a figura de Mons. Lefebvre e saber de seus motivos.

Procissão de ingresso dos Padres Conciliares

Vaticano, início da década de 60. Mons. Lefebvre é um dos mais de 2000 prelados presentes no Segundo Concílio do Vaticano – ele fora nomeado pelo Papa João XXIII para fazer parte de sua comissão preparatória. Ele tomou o seu assento, entre os milhares hierarquicamente dispostos na Basílica de São Pedro para os Padres Conciliares e peritos, como Superior-geral da Congregação do Santo Espírito, na qual professara votos 31 anos antes, depois de pedir excardinação da diocese de Lille (França) para o clero da qual tinha sido ordenado em 1929. Tinha um longo passado em terras de missão africanas. De fato, ainda sacerdote foi enviado ao Gabão, e em 1947 foi nomeado Vigário Apostólico do Dakar e lhe foi concedida uma sede episcopal titular (diocese extinta), e para tal cargo recebeu a sagração episcopal em sua terra natal em 18 de setembro do mesmo ano. No início do ano de 1948, foi-lhe acumulado o cargo de Administrador Apostólico de Saint-Louis du Sénégal. No mesmo ano foi promovido ao título de Arcebispo e nomeado Delegado Apostólico no Senegal. Pela promoção arquiepiscopal, Mons. Lefebvre foi privilegiado com o uso do pálio – embora não fosse sequer arcebispo metropolitano. Tal concessão era prevista até a sua ab-rogação por Paulo VI, de ser o uso do pálio arquiepiscopal concedido a qualquer bispo (e não somente aos arcebispos metropolitanos); contudo, como acontece a outros privilégios cancelados, o uso só continuou àqueles que já o haviam recebido. Mas, quando de sua nomeação para o arcebispado de Dakar, ele recebeu outro pálio, com o qual foi paramentado em suas exéquias em 1991.

2. Retorno da África e Vaticano II

Membros do Coetus Internationalis Patrum durante o Vaticano II

Mas, como poderia um bispo de apostolado tão numeroso em África, enviado pelo Papa Pio XII e, segundo dizem, de grande estima deste, em tão recentes 8 anos em missão africana, participar das quatro sessões do Vaticano II como Superior-geral (cargo estranho a um bispo) de sua Congregação e já tendo renunciado ao bispado de Tulle (a menor diocese francesa), após apenas 7 meses de sua nomeação? Quando Arcebispo de Dakar, Mons. Lefebvre foi veementemente contrário à instituição de uma hierarquia episcopal africana. Para ele, somente à França competia uma missão civilizadora e evangelizadora em África, e disto não poderia se abrir mão. Ciente e preocupado com isso, o então presidente senegalês Leopold Senghor, católico, pediu ao Papa João XXIII que o retirasse de África; apesar de ter conquistado o respeito de muitos senegaleses, incluindo muçulmanos. E, como foi dito anteriormente, participou do Vaticano II como Superior-geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, como havia sido eleito após retornar a França. E foi muito assíduo nos debates conciliares, sendo membro do Grupo Internacional de Padres, que se opôs às inovações da Aliança Europeia, animada pelo teólogo jesuíta Karl Rahner. Essa sua resistência iniciara-se nos anos de estudos na Universidade Gregoriana, com a influência vinda do então Pe. Louis Billot, seu professor, que em 1911 foi criado cardeal – título retirado pela defesa de suas ideias na Ação Católica francesa. Aprendeu a rejeitar o liberalismo como sendo “a heresia por excelência após o modernismo” e que fazia os cristãos não crerem na imutabilidade dos artigos da fé.

Assinatura de Lefebvre (a quarta de cima para baixo) no documento, entre outros, sobre a liberdade religiosa

Apesar de participar da primeira à quarta sessões e assinar todos os documentos, começa a discordar dos relativos à liberdade religiosa, ao ecumenismo e à colegialidade dos bispos, que, para ele, poderia diminuir a autoridade papal. As suas intervenções causaram tanta polêmica que os bispos seus confrades na Congregação solicitaram-lhe uma audiência e perguntaram se falava em seu nome ou em nome dos mais de 4000 padres de quem era superior-geral.  Era em seu nome que falava.

3. O gérmen da FSSPX

Em 1968, não concordando com as reformas que deveria executar dentro da Congregação e devido à oposição que lhe foi feita, renunciou ao cargo de seu Superior-geral.

Um ano depois, alguns seminaristas descontentes o procuraram e o animaram a formá-los segundo a espiritualidade e a teologia que desejavam.

Em 1970, decidiu fundar um seminário destinado à formação de sacerdotes exclusivamente no espírito pré-conciliar. O então bispo de Friburgo, na Suíça, Mons. François Charrière, concede licença para a ereção do seminário de Êcone, e o mesmo Bispo erige canonicamente a Fraternidade Sacerdotal São Pio X em 1º novembro de 1970.

Continua…

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