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O Papa Francisco diminui o território da Abadia de Monte Cassino

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O Papa Francisco diminui o território da Abadia de Monte Cassino

Postado em 24 outubro 2014 por E. Marçal

Desde os anos 600 o Abade de Monte Cassino fazia as vezes de Bispo — ou o era de fato — da região de 20 cidades em volta da de Cassino. O Papa fez, portanto, do Abade, sucessor direto de São Bento, um Abade Territorial, administrador eclesiástico de um território, como faz um Bispo.

Os conventos e mosteiros, por si só, possuem uma certa independência canônica do Bispo local. Porém, questões sérias e que também envolvem os fiéis da Diocese são de competência do Bispo. No status de Abadia Territorial, o seu Superior responde diretamente ao Papa, como um Bispo. Além de nomear um Abade com tal jurisdição, o Pontífice pode decidir também em, atendendo ao que se espera de um Territorial, nomeá-lo Bispo. Assim, além de administrar sua Abadia Territorial, ele poderá, por exemplo, ordenar os sacerdotes, sem mais depender canonicamente de outro Bispo para isso tanto.

DSC05138Cátedra do Abade de Monte Cassino, na Catedral Basílica de Nossa Senhora Assunta,
cujo poder jurisdicional agora limita-se apenas ao Monte e não mais às 53 paróquias da Abadia Territorial

Ao longo da história, pela importância das Abadias e dos monges na Igreja e na sociedade, este privilégio papal foi dado a outros lugares pela Europa e alguns poucos lugares, somando uma dezenas de Abades Territoriais. Isto era a validação do poder espiritual e temporal que os superiores monásticos adquiriram com o esplendor de religiosidade e sabedoria emanados dos mosteiros. Muitos grandes e santos Abades ajudaram a Igreja em suas decisões e reformas.

Abade Dom Pietro Vittoreli
Dom Pietro Vittorelli, Abade de Monte Cassino entre os anos 2007-2013,
o último Abade Territorial das 53 paróquias, agora anexadas à Diocese de Sora

Na imagem, tal como permitido aos Abades Territoriais, com mitra e cruz peitoral com cordão,
embora não tenha sido sagrado Bispo.

Visita de Bento XVI à Abadia de Monte Cassino, em 24 de maio de 2009.

Contudo, o Concílio Vaticano II recolheu e decidiu pelo parecer dos Bispos participantes de não dignificar mais Abadias com a dignidade de Territorial e as existentes ou fossem drasticamente reduzidas ou até mesmo extintas, transformando seus territórios em verdadeiras dioceses. O motivo é que o Abade, como pai espiritual em seu mosteiro, deve se ocupar inteiramente de sua função, sem se preocupar também com o que é de função exclusiva dos Bispos. Por isso, nos últimos anos, vimos Abadias Territoriais perderem o seu status, como, no Brasil, aconteceu à Abadia Territorial de Claravel (Minas Gerais), em 2002, e à Abadia Territorial do Rio de Janeiro, em 2003, que, sediada no Mosteiro na capital do Estado homônimo, administrava, porém, o vasto territorial do atual Estado de Roraima e não uma área em torno do mencionado Mosteiro. Em 2005, pouco tempo após ser eleito como Papa, Bento XVI decretou o fim da Abadia Territorial de São Paulo Fora-dos-Muros, que governava um certo território ao seu redor em Roma. O Abade tornou-se um comum (chamado “de regime”), só governando o Mosteiro, e para a Basílica Papal foi nomeado um Arcipreste (delegado papal), um Cardeal para administrar em nome do Papa.

Abade Pietro Vittorelli barrete violáceo
Dom Pietro Vittorelli, de barrete violáceo (parte da veste episcopal, como é permitido também aos Abades Territoriais),
durante a sua bênção abacial, na Missa celebrada pelo Cardeal Re

Durante o rito, Sua Excelência recebeu a mitra e o báculo,
como numa sagração episcopal, mas que não se configurou a isto.

Em setembro de 2007, Bento XVI promoveu a Arcebispo Metropolitano de Gaeta o último Abade Territorial de Monte Cassino que foi Bispo. Um mês depois, os monges elegeram um novo Abade Territorial e, secretamente, enviaram o seu nome para aprovação papal, que só chegou em novembro seguinte. Dom Pietro Vittorelli recebeu a bênção abacial nos últimos dias de dezembro, em Missa celebrada — dada a sua relevância na Igreja — pelo então Prefeito da Congregação para os Bispos, Cardeal Giovanni Battista Re. Contudo, em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e as conhecidas sequelas disto, em junho de 2013, o então Abade Territorial apresentou sua renúncia ao cargo aos tenros 51 anos, enquanto continuava o tratamento para recobrar as faculdades físicas, uma vez que a metade de seu corpo permaneceu visivelmente comprometida.

Donato Ogliari

Dom Donato Ogliari, 57 anos, novo Abade de Monte Cassino
Sua Excelência já era Abade de Nossa Senhora da Escada, em Noci (Itália), portanto, não receberá nova bênção abacial

Foram 16 meses de suspense sobre o novo Abade de Monte Cassino, enquanto os poucos monges, as 53 paróquias e os 80 mil fiéis eram governados pelo Administrador Apostólico Augusto Ricci, Prior da Abadia Territorial de Subiaco (onde São Bento iniciou sua vocação monástica). Ontem, dia 23 de outubro de 2014, o Papa Francisco nomeou o novo Abade, previamente eleito pelos monges: Dom Donato Ogliari, 57, anos, então Abade de Nossa Senhora da Escada, em Noci. Contudo, a nomeação pontifícia esteve acompanhada de uma novidade inesperada:

Pelos mesmos motivos de supressão de outras Abadias ao longo dos anos — os pedidos no Concílio Vaticano II, a necessidade de o Abade permanecer sempre ocupado unicamente com seu Mosteiro e aplicando um decreto de Paulo VI, Catholica Ecclesia, de 1976 — o Papa Francisco retirou de administração abacial as 53 paróquias, espalhadas em 20 cidades, com 80 mil fiéis, 50 religiosas, 37 sacerdotes diocesanos e os seminaristas, e transferiu tudo isto para a vizinha diocese de Sora-Aquino-Pontecorvo, já uma junção de outras 2 dioceses, mas sediada em Sora. Agora, com a nova configuração, ela é intitulada como Sora-Cassino-Aquino-Pontecorvo.

Foi uma surpresa, apesar dos motivos apresentados, por tratar-se de Monte Cassino, a antiguidade do estado de Abadia Territorial e a sua importância não só para a Igreja universal, mas principalmente para a vida monástica. Não que isto interfira na atenção que a Igreja tem para com os monges de todo o mundo, mas era inesperado. Como Monte Cassino era uma vasta Abadia Territorial (e, portanto, não algo simbólico apenas), com uma vida como qualquer outra diocese, apesar de o então Abade não ser Bispo, pensou-se que ela estava imune da supressão.

Apesar disto, sobrou um alento na notícia da supressão: embora todo o clero diocesano, os seminaristas, os fiéis leigos e as 53 paróquias agora serem de outra diocese, Monte Cassino não deixou totalmente de ser uma Abadia Territorial: o Pontífice decidiu que ainda seja Territorial o lugar onde está o Mosteiro e a Igreja, ou seja, somente o Monte, ao lado da cidade.

Bento XVI Dom Pietro Vittorelli maio 2009
Dom Pietro Vittorelli, vestido como Bispo, acompanha Bento XVI
durante a visita do então Papa à Abadia de Monte Cassino, em 24 de maio de 2009.

O novo Abade Donato Ogliari não receberá bênção abacial, pois ele já o recebeu quando de seu cargo na Abadia de Nossa Senhora da Escada, em Noci, como dissemos. Resta agora a posse canônica em Monte Cassino. O Abade Territorial, ainda que não seja nomeado e sagrado Bispo (e mais: ainda que, como em Monte Cassino, só administre como Territorial o Monte onde está o seu Mosteiro), tem direito ao tratamento eclesiástico de “Sua Excelência Reverendíssima” e ao uso de todas as vestes prelatícias de um Bispo comum.

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O “Habemus Papam” terá voz italiana

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O “Habemus Papam” terá voz italiana

Postado em 12 junho 2014 por E. Marçal

O Protodiácono, as Ordens dos Cardeais e os processos de promoção

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A função mais conhecida e visionada do Cardeal-Protodiácono é o anúncio do novo Papa
Na imagem, o então Protodiácono Tauran anuncia a eleição de Jorge Bergoglio como Papa Francisco
© Getty Images

Protodiácono é o Cardeal-Diácono mais antigo segundo o dia e a precedência de sua criação cardinalícia. Quando o Papa anuncia os novos Cardeais que ele criará, ele o faz segundo uma ordem pré-determinada, com motivos próprios. Por exemplo, quis o Papa Francisco que Lorenzo Baldisseri fosse o prmeiro Cardeal-Diácono no anúncio do primeiro consistório de seu pontificado. Depois, o primeiro Cardeal-Presbítero deste consistório em 22 de fevereiro de 2014 foi Vincent Nichols, Arcebispo de Westminster (Inglaterra). Sendo assim, cada consistório tem seus Cardeais mais antigos em cada uma das 3 Ordens Cardinalícias, contudo, para ser o mais antigo de uma Ordem, prevalece o mais antigo prelado vivo naquela Ordem.

Isto acontece porque o próprio Colégio Cardinalício é dividido em três Ordens, segundo as origens destes prelados, membros do Clero de Roma, nas funções que desempenhavam na Cidade. Os cardeais-diáconos recebem simbolicamente antigas igrejas de Roma que eram confiadas aos diáconos, que no início da Igreja tiveram grande destaque principalmente nas obras de caridades. Os cardeais-presbíteros eram os sacerdotes de Roma e hoje, normalmente, são os Arcebispos de grandes dioceses que integram o Colégio. E, por fim, a mais nobre Ordem, a dos Bispos, recebem simbolicamente as catedrais das 6 dioceses suburbicárias (ao redor) de Roma, que remontam aos primeiros séculos, mas não as governam, pois elas possuem bispos diocesanos próprios. Contudo, com o apoio do Concílio Vaticano II, também os Patriarcas orientais são criados Cardeais-Bispos, mas não recebem igrejas latinas, permanecendo, portanto, com as suas igrejas catedrais como título.

Il-Papa-si-dimetteMetade dos Cardeais-Diáconos, num total de 30 nas três Ordens Cardinalícias,
criados por João Paulo II no consistório de setembro de 2003

 

Um Cardeal pode ou não permanecer até a sua morte na Ordem Cardinalícia na qual foi inscrito. Os Cardeais-Bispos latinos são os cardeais-chefes dos principais dicastérios da Cúria Romana. Portanto, ainda que algum chefe tenha ingressado no Colégio por outra Ordem (o que é mais normal e comum), vagando um lugar entre os Cardeais-Bispos, ele pode ser promovido.

Há outro processo de ascensão no Colégio mais comum: Optatio, do latim, “Opção”. Evidentemente no termo, significa que um Cardeal-Diácono tem a livre escolha, o direito de pedir para ser promovido à Ordem seguinte, a dos Presbíteros. Contudo, somente após 10 anos de sua criação cardinalícia.

As primeiras Optationes do pontificado do Papa Francisco e o novo Protodiácono

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O Cardeal Tauran é membro do serviço diplomático da Santa Sé
e, enquanto era o Cardeal-Diácono mais antigo, ocupava a função de Protodiácono.
Em março de 2013, anunciou pela primeira e única vez a eleição de um novo Papa,
mas com claros sinais do Mal de Parkinson do qual padece desde 2012,
quando desmaiou concelebrando a Missa de Páscoa com Bento XVI

Os mais antigos Cardeais-Diáconos são os criados por João Paulo II no consistório de 2003 e, deles, o Cardeal Tauran foi o primeiro nomeado da lista. Onze foram criados Cardeais-Diáconos em 28 de setembro de 2003. Portanto, passaram-se pouco mais de 10 anos e lhes assistiu o direito da Optatio.  O rito ocorre durante um consistório (reunião de cardeais com o Papa) para o voto das causas de canonização. O último fora o do voto para a canonização de João XXIII e João Paulo II, em 30 de setembro. Hoje, 12 de junho, no primeiro consistório após vigorar o direito da Optatio.

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O Cardeal Martino, novo Protodiácono, tem 81 anos e já serviu nas Nunciaturas da Santa Sé
no Brasil, Nicáragua, Tailândia, Singapura e Malásia, sendo inclusive Núncio em algumas delas

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O Cardeal Martino saúda o Papa Francisco, cujo sucessor ele anunciará do balcão central da Basílica de São Pedro no Vaticano
© Radio Vaticano

Portanto, tendo 6 Cardeais-Diáconos (5 morreram) de 2003 pedido para acender à Ordem dos Presbíteros, e, entre eles, o então Protodiácono Jean-Louis Tauran, a antiguidade na Ordem dos Diáconos passou o Cardeal Martino, que não solicitou a sua promoção à Ordem dos Presbíteros e, com 81 anos, já não é mais eleitor papal, mas pode receber votos em conclave.

Os Cardeais-Diáconos que solicitaram a ascensão à Ordem dos Presbíteros não mudam de igrejas (chamadas de “diaconias”) para as quais foram nomeados quando de sua criação cardinalícia. Ao contrário, as suas diaconias são chamadas títulos presbiterais pro hac vice (“por enquanto”, do latim) durante o tempo que eles as ocuparem.

As funções do Protodiácono são anunciar o nome do novo Papa e impor a ele o pálio pastoral no início da Missa de inauguração do pontificado.

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Mais fotos da celebração do consistório de hoje, reunião de Cardeais com o Papa para decidir a canonização de Beatos e atualizações do Colégio Cardinalício, como a Optatio:

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O Cardeal Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos,
lê ao Papa Francisco e aos Cardeais residentes em Roma e reunidos em consistório
os nomes dos 6 beatos cuja canonização foi aprovada para o dia 23 de novembro de 2014
© Radio Vaticano

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Mons. Guido Marini, Mestre das Celebrações Pontifícias, anuncia aos presentes
o rito de
Optatio de 6 Cardeais-Diáconos para a Ordem Cardinalícia dos Presbíteros
© Radio Vaticano

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O Cardeal Tauran saúda o Papa Francisco, de quem anunciou sua eleição em 2013
e agradece a sua promoção a Cardeal-Presbítero
© Radio Vaticano

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“Fominha” também prejudica a vida social

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“Fominha” também prejudica a vida social

Postado em 12 junho 2014 por E. Marçal

Queridos amigos,

É com grande alegria que me dirijo a vocês todos, amantes do futebol, por ocasião da abertura da Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

A minha esperança é que, além de festa do esporte, esta Copa do Mundo possa tornar-se a festa da solidariedade entre os povos. Isso supõe, porém, que as competições futebolísticas sejam consideradas por aquilo que no fundo são: um jogo e ao mesmo tempo uma ocasião de diálogo, de compreensão, de enriquecimento humano recíproco. O esporte não é somente uma forma de entretenimento, mas também – e eu diria sobretudo – um instrumento para comunicar valores que promovem o bem da pessoa humana e ajudam na construção de uma sociedade mais pacífica e fraterna. Se, para uma pessoa melhorar, é preciso um “treino” grande e continuado, quanto mais esforço deverá ser investido para alcançar o encontro e a paz entre os indivíduos e entre os povos “melhorados”! É preciso “treinar” tanto…

O futebol pode e deve ser uma escola para a construção de uma “cultura do encontro”, que permita a paz e a harmonia entre os povos. E aqui vem em nossa ajuda uma segunda lição da prática esportiva: aprendamos o que o “fair play” do futebol tem a nos ensinar. Para jogar em equipe é necessário pensar, em primeiro lugar, no bem do grupo, não em si mesmo. Para vencer, é preciso superar o individualismo, o egoísmo, todas as formas de racismo, de intolerância e de instrumentalização da pessoa humana. Não é só no futebol que ser “fominha” constitui um obstáculo para o bom resultado do time; pois, quando somos “fominhas” na vida, ignorando as pessoas que nos rodeiam, toda a sociedade fica prejudicada.

A última lição do esporte proveitosa para a paz é a honra devida entre os competidores. O segredo da vitória, no campo, mas também na vida, está em saber respeitar o companheiro do meu time, mas também o meu adversário. Ninguém vence sozinho, nem no campo, nem na vida!

Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé.

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