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Guia litúrgico para o Jubileu da Misericórdia

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Guia litúrgico para o Jubileu da Misericórdia

Postado em 14 novembro 2015 por E. Marçal

Apresentação dos ritos do Jubileu da Misericórdia
e do livro litúrgico do Direto da Sacristia

 

O motivo dos Jubileus

Os Jubileus foram inspirados no jubileu judaico, um descanso para os trabalhos do campo após seis anos consecutivos de atividades. Mas também, após 7 jubileus a cada 7 anos, o 50º ano também era Jubileu. Portanto, após 49 anos de um jubileu, no ano seguinte um outro Jubileu era celebrado. Era uma comemoração e também tendo de perdão até mesmo de dívidas entre pessoas e troca de ajudas caritativas materiais.

O início dos Jubileus na Igreja e a sua frequência inicial

A Igreja inspirou-se nisso. O Papa Bonifácio VIII convocou em 1300 o primeiro Jubileu, para que fiéis acorressem para Roma e venerassem a relíquia do véu de Verônica, como aconteceu. Os frutos espirituais dessa celebração fizeram com que o mesmo Papa determinasse que aquilo acontecesse a cada 100 anos. Contudo, já em 1350, o quinto Papa depois de Bonifácio VIII, Clemente VI, estava fora de Roma, exilado em Avinhão (França) pelo rei Filipe IV porque o Pontífice o proibira de cobrar tributos da Igreja na França. Como forma de compensar a sua ausência em Roma e ser paralelo ao jubileu bíblico-hebraico, de Avinhão Clemente VI decretou que em 1350 fosse celebrado o segundo Jubileu da história, reduzindo para 50 anos o espaço entre um e outro Jubileu. E este foi o primeiro extraordinário.

As práticas devocionais durante os Jubileus

Os fiéis visitavam o túmulo de São Pedro, na Basílica no Vaticano. Portanto, desde o começo, houve essa disciplina de que o Jubileu pediria esforços físicos, peregrinações e orações para perdoar os efeitos temporais do pecado. Com o Jubileu de 1350, sem um Papa em Roma mas em Avinhão, a Basílica-Catedral do Latrão foi adicionada ao roteiro de peregrinação. Quarenta anos depois, Bonifácio IX proclamou um Jubileu extraordinário porque o Cisma do Ocidente (que deu origem à Igreja Ortodoxa) atrapalhara a sequência de anos e incluiu também a Basílica de Santa Maria Maior como destino dos peregrinos como forma de perdoar as penas dos pecados. Por fim, para respeitar o período de 50 anos entre os Jubileus, o mesmo Bonifácio IX convocou um novo em 1400 e incluiu também no roteiro de peregrinação a Basílica de São Lourenço Fora-dos-Muros (muito mais importante até antes do Vaticano II), a Basílica de Nossa Senhora no Trastevere e a Basílica de Nossa Senhora dos Mártires (o Panteão).

A nova frequência para os Jubileus

Em 1475, o periocidade entre os Jubileus foi reduzida para 25 anos, a fim de que mais pessoas pudessem participar deles, e essas celebrações receberam também o nome de Anos Santos. A invenção da imprensa ajudou a divulgar as primeiras orações que passaram a ser requeridas junto às práticas e às peregrinações em vista dos bens espirituais dos Jubileus.

A Porta Santa do Vaticano como a primeira

Em 1500, quando como Papa reinava Alexandre VI, foi determinado por ele que a primeira Porta Santa a ser aberta, inaugurando um Jubileu, fosse a da Basílica de São Pedro e não mais a da Arquibasílica do Latrão. Depois, seguir-se-iam a abertura das Portas Santas das outras 3 Basílicas Maiores de Roma.

Por que o símbolo da Porta, teológica e praticamente

O costume da Porta Santa surgiu tanto porque o próprio Cristo disse “Eu Sou a porta” e “ninguém vai ao Pai senão por mim”, porque “Eu Sou o caminho, a verdade e a vida”. Também a este costume aplicam-se as palavras do salmista “Esta é a porta do Senhor; por ela entram apenas os justos” (Sl 118, 20).

Mas por que uma porta? Porque o imperador Constantino (século IV) decretou que seria concedido o perdão aos criminosos do Estado quem se refugiasse na Basílica de São Pedro numa época previamente estabelecida. Contudo, passaram a abusar dessa medida graciosa, a ponto de a Igreja ter que internamente fechar a porta com um muro, cuja demolição esteve presente nos ritos de abertura de Jubileu até o de 1975. A Porta Santa da Basílica de São Pedro, à direita de quem entra, era uma porta de serviço, ainda na Basílica constantiniana, demolida no início de 1500. Primeiro era de madeira e depois passou a ser de metal, como bronze, ornada com imagens sagradas e significativas ao sentido teológico de seu contexto no Jubileu.

O rito nas dioceses

A novidade nas dioceses deste Jubileu

Pela primeira vez, o Jubileu terá celebrações simbólicas pelas dioceses: o Papa Francisco abrirá a Porta Santa da Basílica de São Pedro no dia 08 de dezembro próximo, Solenidade da Imaculada Conceição, e determinou que as dioceses realizassem um rito semelhante no domingo seguinte, 3º do Advento (Gaudete). Desta forma, os fiéis de todo o mundo participarão de alguma forma, ainda que simbólica, da abertura do Jubileu da Misericórdia, embora há várias décadas não só em Roma os fiéis podem se beneficiar dos frutos espirituais dos Anos Santos.

Lacre nas Portas das Catedrais e outras igrejas

As Portas Santas das dioceses será algo extraordinário e não como as já existentes nas Basílicas Maiores de Roma, à direita da porta principal. Sugere-se que sejam ornadas com ramos abundantes ou outras decorações litúrgica e teologicamente adequadas. Sendo assim, para maior significado, é muito conveniente que as portas principais das igrejas escolhidas nas dioceses sejam lacradas, para que a solene abertura (ou bênção, não se tratando da porta da Catedral) adquira caráter semelhante à abertura das Portas Santas de Roma.

Rito próprio aprovado e publicado

         Para tanto, o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização (responsável pelo Jubileu) publicou um rito feito por liturgistas e devidamente aprovado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Ambos os atos, portanto, têm a ação do Papa, para os devidos efeitos oficiais e legais.

O rito no Brasil e sua publicação

         O rito demorou muito para ser publicado; somente em outubro passado, há cerca de 1 mês. Primeiro em italiano. Depois surgiu a edição em Portugal e, agora, já está em processo para a aquisição no Brasil. Tudo isso pela Paulus Editora. O rito deveria ter sido disponibilizado há mais tempo, para o devido preparo pelo mundo, mas os trabalhos anteriores ao Sínodo dos Bispos e durante atrasaram o processo na Cúria Romana. Além disso, a edição publicada pela Paulus em todos os países onde está disponível é em formato de subsídio, de fascículos numa coleção de 8 unidades. Por isso que foi indicado pelos liturgistas que as dioceses adequadamente adaptassem o conteúdo para o formato litúrgico, de modo que fosse um livro digno para o uso na Liturgia, tais como os que já são publicados e usados oficialmente.

A estrutura do rito

O dia nas dioceses

Pela bula Misericordiae Vultus, do Papa Francisco, pela qual foi anunciado e convocado o Jubileu da Misericórdia, definiram-se as catedrais, santuários e outras igrejas importantes como lugares referenciais para o Ano Santo nas dioceses. Assim, há 2 ritos de abertura do Jubileu: o presidido pelo Bispo na Catedral ou na Concatedral e o presidido por um delegado episcopal nas outras igrejas escolhidas pelo Bispo. Por fim, também foi publicado um rito para a conclusão diocesana do Jubileu, em 13 de novembro de 2016.

O rito presidido pelo Bispo em sua Catedral

A statio

O rito recupera o antigo costume das estações romanas, statio, cuja referência podemos ver no Missal Romano do rito antigo, das quais um exemplo ainda atualmente praticado pelo Papa e pela Cúria Romana é a da Quarta-feira de Cinzas: a statio na Basílica de Santa Sabina. No resto do mundo, também podemos chamar de missa estacional as da Apresentação do Senhor, do Domingo de Ramos e da Vigília Pascal, que começam fora da igreja principal (a da “estação”) e para ela se dirigem.

O significado de statio

O termo “estação” tem origem militar, significando “guarda”, mas a Igreja encontra uma aplicação cristã no II século, no livro O Pastor de Hermas, significando jejum. Ainda hoje nos referimos a dias santos, ou por práticas de jejum ou por sua solenidade, como “dias de guarda”.

A statio no início da Igreja

Nos primeiros séculos, principalmente em Roma, as missas estacionais eram mais comuns a ponto de serem regra: os fiéis se reuniam em outra igreja ou outro lugar, no qual a Missa era iniciada, e depois clero e povo saíam em procissão para a igreja principal (a da “estação”), cantando a Ladainha dos Santos. Chegados à igreja, todos repetiam o Kyrie eleison 3 vezes, que tinha sido a resposta durante a procissão, no canto da Ladainha. Assim, hoje resultou o ato penitencial, ainda nele incluso o Kyrie eleison.

Resquícios hoje

O novo Cerimonial dos Bispos renomeou a Missa mais solene celebrada pelo Bispo: agora voltou a chamar-se de Missa estacional, embora nem sempre tenha a procissão da qual falamos há pouco.

O rito no 3º Domingo do Advento

Portanto, o rito de abertura do Jubileu nas dioceses pede que a Missa celebrada pelo Bispo comece numa outra igreja cujo percurso até catedral permita uma verdadeira procissão. Na primeira igreja, todos os ministros ordenados já devem estar paramentados com vestes de cor roxa (ou rósea, conforme permite o III Domingo do Advento): sugere-se que o Bispo Celebrante use pluvial, reservando a casula para após a procissão. Aqui ele começará a Missa, haverá proclamação do Evangelho com os ritos solenes próprios, leitura de um trecho específico da bula de convocação do Jubileu e a respectiva procissão. Durante esta, o diácono porta com grande destaque o Livro dos Evangelhos, enquanto todos assumem o seu devido lugar e cantam salmos indicados ou até mesmo a Ladainha dos Santos. Na procissão é usado incenso, abençoado pelo Bispo.

Diante da Porta Santa da Catedral, todos param e reservam um espaço conveniente para os ministros do serviço litúrgico, o diácono com a cruz processional, o diácono com o Evangeliário e o Bispo. São simples, mas de particular beleza e total explicação teológica os versos que o Bispo recitará diante da Porta fechada:

         Abri-me as portas da justiça, quero entrar para dar graças ao Senhor!
      Aperite mihi portas iustitiae; ingressus in eas confitebor Domino. (do Salmo 118)

Convém que ministros estejam desde antes dentro da catedral e a abram enquanto o Bispo diz o seguinte:

“Esta é a porta do Senhor: por ela entraremos para alcançar misericórdia e perdão”. Verso também inspirado no versículo 20 do mesmo Salmo 118, mas com uma modificação no original: não se diz que por esta porta somente os justos (santos, em estado de graça), entrarão.

Após isso, o Bispo recebe o Livro dos Evangelhos e o mostra ao povo, mas sem com ele abençoá-lo. Nisso, todos cantam a antífona do Evangelho de João: “Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem”. Concluído o canto, forma-se novamente a procissão e ela parte para o altar da Catedral, porém, o Bispo portará o Livro dos Evangelhos logo depois dos ministros com as velas; atrás dele seguirão os demais ministros auxiliares, o clero e o povo, lembrando um pouco a procissão de entrada com o Círio na Vigília Pascal.

Chegado ao altar, o Bispo coloca sobre ele o Evangeliário e, se tiver usado pluvial, de modo discreto e reverente o troca pela casula; beija o altar, põe novo incenso e o turifica. O ato penitencial deverá ser sob aspersão, para o que é prevista a fórmula de bênção da água e adição do sal abençoado, conforme o rito, se assim for decidido.

A Missa segue o seu curso normal, sem o canto do Glória, em razão das rubricas do Advento. Antes da bênção final, porém, são comunicadas as outras igrejas que terão a Porta da Misericórdia e é cantada ou a Salve Rainha ou a Alma Redemptoris Mater, antífona mariana própria do Tempo do Advento. A seguir, o Bispo abençoa segundo o texto próprio para o Tempo litúrgico.

O rito presidido por um delegado episcopal

A diferença do rito episcopal

Nesta forma o rito é simplificado em relação ao anterior, tanto para evitar a importância da Porta Santa na Catedral quanto para destacar que só uma abertura de Porta Santa na diocese, aquela que foi feita pelo Bispo. Não há procissão de outra igreja e nem o mesmo rito diante da porta principal da igreja.

Nas outras igrejas e santuários, o rito pode ser presidido ou pelo próprio Bispo ou por um estreito colaborador seu no serviço da diocese.

Os ministros ordenados paramentam-se com vestes roxas ou róseas. Depois, eles e os demais ministros auxiliares formam a procissão e caminham até diante da porta principal da igreja, fechada, inicia a Missa, pronuncia uma oração laudatória e depois abençoa a porta. Note-se, portanto, que não é uma abertura solene de Porta Santa, mas a bênção da porta principal das igrejas escolhidas como pontos de peregrinação diocesana para o Jubileu da Misericórdia.

Após isso, convida a todos para serem aspergidos, o que é feito pelo Celebrante enquanto caminha no fim da procissão para o altar, segundo o costume da Missa solene, o inclusive com o turíbulo fumegando.

Chegado ao presbitério, se o Celebrante tiver usado pluvial, troca-o pela casula, beija o altar e o incensa. Em seguida, pronuncia a absolvição do ato penitencial e, omitindo o canto do Glória, recita a oração Coleta do III Domingo do Advento.

A Missa segue o curso normal, inclusive com a bênção solene para o Tempo do Advento.

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O Papa Francisco diminui o território da Abadia de Monte Cassino

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O Papa Francisco diminui o território da Abadia de Monte Cassino

Postado em 24 outubro 2014 por E. Marçal

Desde os anos 600 o Abade de Monte Cassino fazia as vezes de Bispo — ou o era de fato — da região de 20 cidades em volta da de Cassino. O Papa fez, portanto, do Abade, sucessor direto de São Bento, um Abade Territorial, administrador eclesiástico de um território, como faz um Bispo.

Os conventos e mosteiros, por si só, possuem uma certa independência canônica do Bispo local. Porém, questões sérias e que também envolvem os fiéis da Diocese são de competência do Bispo. No status de Abadia Territorial, o seu Superior responde diretamente ao Papa, como um Bispo. Além de nomear um Abade com tal jurisdição, o Pontífice pode decidir também em, atendendo ao que se espera de um Territorial, nomeá-lo Bispo. Assim, além de administrar sua Abadia Territorial, ele poderá, por exemplo, ordenar os sacerdotes, sem mais depender canonicamente de outro Bispo para isso tanto.

DSC05138Cátedra do Abade de Monte Cassino, na Catedral Basílica de Nossa Senhora Assunta,
cujo poder jurisdicional agora limita-se apenas ao Monte e não mais às 53 paróquias da Abadia Territorial

Ao longo da história, pela importância das Abadias e dos monges na Igreja e na sociedade, este privilégio papal foi dado a outros lugares pela Europa e alguns poucos lugares, somando uma dezenas de Abades Territoriais. Isto era a validação do poder espiritual e temporal que os superiores monásticos adquiriram com o esplendor de religiosidade e sabedoria emanados dos mosteiros. Muitos grandes e santos Abades ajudaram a Igreja em suas decisões e reformas.

Abade Dom Pietro Vittoreli
Dom Pietro Vittorelli, Abade de Monte Cassino entre os anos 2007-2013,
o último Abade Territorial das 53 paróquias, agora anexadas à Diocese de Sora

Na imagem, tal como permitido aos Abades Territoriais, com mitra e cruz peitoral com cordão,
embora não tenha sido sagrado Bispo.

Visita de Bento XVI à Abadia de Monte Cassino, em 24 de maio de 2009.

Contudo, o Concílio Vaticano II recolheu e decidiu pelo parecer dos Bispos participantes de não dignificar mais Abadias com a dignidade de Territorial e as existentes ou fossem drasticamente reduzidas ou até mesmo extintas, transformando seus territórios em verdadeiras dioceses. O motivo é que o Abade, como pai espiritual em seu mosteiro, deve se ocupar inteiramente de sua função, sem se preocupar também com o que é de função exclusiva dos Bispos. Por isso, nos últimos anos, vimos Abadias Territoriais perderem o seu status, como, no Brasil, aconteceu à Abadia Territorial de Claraval (Minas Gerais), em 2002, e à Abadia Territorial do Rio de Janeiro, em 2003, que, sediada no Mosteiro na capital do Estado homônimo, administrava, porém, o vasto territorial do atual Estado de Roraima e não uma área em torno do mencionado Mosteiro. Em 2005, pouco tempo após ser eleito como Papa, Bento XVI decretou o fim da Abadia Territorial de São Paulo Fora-dos-Muros, que governava um certo território ao seu redor em Roma. O Abade tornou-se um comum (chamado “de regime”), só governando o Mosteiro, e para a Basílica Papal foi nomeado um Arcipreste (delegado papal), um Cardeal para administrar em nome do Papa.

Abade Pietro Vittorelli barrete violáceo
Dom Pietro Vittorelli, de barrete violáceo (parte da veste episcopal, como é permitido também aos Abades Territoriais),
durante a sua bênção abacial, na Missa celebrada pelo Cardeal Re

Durante o rito, Sua Excelência recebeu a mitra e o báculo,
como numa sagração episcopal, mas que não se configurou a isto.

Em setembro de 2007, Bento XVI promoveu a Arcebispo Metropolitano de Gaeta o último Abade Territorial de Monte Cassino que foi Bispo. Um mês depois, os monges elegeram um novo Abade Territorial e, secretamente, enviaram o seu nome para aprovação papal, que só chegou em novembro seguinte. Dom Pietro Vittorelli recebeu a bênção abacial nos últimos dias de dezembro, em Missa celebrada — dada a sua relevância na Igreja — pelo então Prefeito da Congregação para os Bispos, Cardeal Giovanni Battista Re. Contudo, em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e as conhecidas sequelas disto, em junho de 2013, o então Abade Territorial apresentou sua renúncia ao cargo aos tenros 51 anos, enquanto continuava o tratamento para recobrar as faculdades físicas, uma vez que a metade de seu corpo permaneceu visivelmente comprometida.

Donato Ogliari

Dom Donato Ogliari, 57 anos, novo Abade de Monte Cassino
Sua Excelência já era Abade de Nossa Senhora da Escada, em Noci (Itália), portanto, não receberá nova bênção abacial

Foram 16 meses de suspense sobre o novo Abade de Monte Cassino, enquanto os poucos monges, as 53 paróquias e os 80 mil fiéis eram governados pelo Administrador Apostólico Augusto Ricci, Prior da Abadia Territorial de Subiaco (onde São Bento iniciou sua vocação monástica). Ontem, dia 23 de outubro de 2014, o Papa Francisco nomeou o novo Abade, previamente eleito pelos monges: Dom Donato Ogliari, 57, anos, então Abade de Nossa Senhora da Escada, em Noci. Contudo, a nomeação pontifícia esteve acompanhada de uma novidade inesperada:

Pelos mesmos motivos de supressão de outras Abadias ao longo dos anos — os pedidos no Concílio Vaticano II, a necessidade de o Abade permanecer sempre ocupado unicamente com seu Mosteiro e aplicando um decreto de Paulo VI, Catholica Ecclesia, de 1976 — o Papa Francisco retirou de administração abacial as 53 paróquias, espalhadas em 20 cidades, com 80 mil fiéis, 50 religiosas, 37 sacerdotes diocesanos e os seminaristas, e transferiu tudo isto para a vizinha diocese de Sora-Aquino-Pontecorvo, já uma junção de outras 2 dioceses, mas sediada em Sora. Agora, com a nova configuração, ela é intitulada como Sora-Cassino-Aquino-Pontecorvo.

Foi uma surpresa, apesar dos motivos apresentados, por tratar-se de Monte Cassino, a antiguidade do estado de Abadia Territorial e a sua importância não só para a Igreja universal, mas principalmente para a vida monástica. Não que isto interfira na atenção que a Igreja tem para com os monges de todo o mundo, mas era inesperado. Como Monte Cassino era uma vasta Abadia Territorial (e, portanto, não algo simbólico apenas), com uma vida como qualquer outra diocese, apesar de o então Abade não ser Bispo, pensou-se que ela estava imune da supressão.

Apesar disto, sobrou um alento na notícia da supressão: embora todo o clero diocesano, os seminaristas, os fiéis leigos e as 53 paróquias agora serem de outra diocese, Monte Cassino não deixou totalmente de ser uma Abadia Territorial: o Pontífice decidiu que ainda seja Territorial o lugar onde está o Mosteiro e a Igreja, ou seja, somente o Monte, ao lado da cidade.

Bento XVI Dom Pietro Vittorelli maio 2009
Dom Pietro Vittorelli, vestido como Bispo, acompanha Bento XVI
durante a visita do então Papa à Abadia de Monte Cassino, em 24 de maio de 2009.

O novo Abade Donato Ogliari não receberá bênção abacial, pois ele já o recebeu quando de seu cargo na Abadia de Nossa Senhora da Escada, em Noci, como dissemos. Resta agora a posse canônica em Monte Cassino. O Abade Territorial, ainda que não seja nomeado e sagrado Bispo (e mais: ainda que, como em Monte Cassino, só administre como Territorial o Monte onde está o seu Mosteiro), tem direito ao tratamento eclesiástico de “Sua Excelência Reverendíssima” e ao uso de todas as vestes prelatícias de um Bispo comum.

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O “Habemus Papam” terá voz italiana

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O “Habemus Papam” terá voz italiana

Postado em 12 junho 2014 por E. Marçal

O Protodiácono, as Ordens dos Cardeais e os processos de promoção

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A função mais conhecida e visionada do Cardeal-Protodiácono é o anúncio do novo Papa
Na imagem, o então Protodiácono Tauran anuncia a eleição de Jorge Bergoglio como Papa Francisco
© Getty Images

Protodiácono é o Cardeal-Diácono mais antigo segundo o dia e a precedência de sua criação cardinalícia. Quando o Papa anuncia os novos Cardeais que ele criará, ele o faz segundo uma ordem pré-determinada, com motivos próprios. Por exemplo, quis o Papa Francisco que Lorenzo Baldisseri fosse o prmeiro Cardeal-Diácono no anúncio do primeiro consistório de seu pontificado. Depois, o primeiro Cardeal-Presbítero deste consistório em 22 de fevereiro de 2014 foi Vincent Nichols, Arcebispo de Westminster (Inglaterra). Sendo assim, cada consistório tem seus Cardeais mais antigos em cada uma das 3 Ordens Cardinalícias, contudo, para ser o mais antigo de uma Ordem, prevalece o mais antigo prelado vivo naquela Ordem.

Isto acontece porque o próprio Colégio Cardinalício é dividido em três Ordens, segundo as origens destes prelados, membros do Clero de Roma, nas funções que desempenhavam na Cidade. Os cardeais-diáconos recebem simbolicamente antigas igrejas de Roma que eram confiadas aos diáconos, que no início da Igreja tiveram grande destaque principalmente nas obras de caridades. Os cardeais-presbíteros eram os sacerdotes de Roma e hoje, normalmente, são os Arcebispos de grandes dioceses que integram o Colégio. E, por fim, a mais nobre Ordem, a dos Bispos, recebem simbolicamente as catedrais das 6 dioceses suburbicárias (ao redor) de Roma, que remontam aos primeiros séculos, mas não as governam, pois elas possuem bispos diocesanos próprios. Contudo, com o apoio do Concílio Vaticano II, também os Patriarcas orientais são criados Cardeais-Bispos, mas não recebem igrejas latinas, permanecendo, portanto, com as suas igrejas catedrais como título.

Il-Papa-si-dimetteMetade dos Cardeais-Diáconos, num total de 30 nas três Ordens Cardinalícias,
criados por João Paulo II no consistório de setembro de 2003

 

Um Cardeal pode ou não permanecer até a sua morte na Ordem Cardinalícia na qual foi inscrito. Os Cardeais-Bispos latinos são os cardeais-chefes dos principais dicastérios da Cúria Romana. Portanto, ainda que algum chefe tenha ingressado no Colégio por outra Ordem (o que é mais normal e comum), vagando um lugar entre os Cardeais-Bispos, ele pode ser promovido.

Há outro processo de ascensão no Colégio mais comum: Optatio, do latim, “Opção”. Evidentemente no termo, significa que um Cardeal-Diácono tem a livre escolha, o direito de pedir para ser promovido à Ordem seguinte, a dos Presbíteros. Contudo, somente após 10 anos de sua criação cardinalícia.

As primeiras Optationes do pontificado do Papa Francisco e o novo Protodiácono

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O Cardeal Tauran é membro do serviço diplomático da Santa Sé
e, enquanto era o Cardeal-Diácono mais antigo, ocupava a função de Protodiácono.
Em março de 2013, anunciou pela primeira e única vez a eleição de um novo Papa,
mas com claros sinais do Mal de Parkinson do qual padece desde 2012,
quando desmaiou concelebrando a Missa de Páscoa com Bento XVI

Os mais antigos Cardeais-Diáconos são os criados por João Paulo II no consistório de 2003 e, deles, o Cardeal Tauran foi o primeiro nomeado da lista. Onze foram criados Cardeais-Diáconos em 28 de setembro de 2003. Portanto, passaram-se pouco mais de 10 anos e lhes assistiu o direito da Optatio.  O rito ocorre durante um consistório (reunião de cardeais com o Papa) para o voto das causas de canonização. O último fora o do voto para a canonização de João XXIII e João Paulo II, em 30 de setembro. Hoje, 12 de junho, no primeiro consistório após vigorar o direito da Optatio.

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O Cardeal Martino, novo Protodiácono, tem 81 anos e já serviu nas Nunciaturas da Santa Sé
no Brasil, Nicáragua, Tailândia, Singapura e Malásia, sendo inclusive Núncio em algumas delas

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O Cardeal Martino saúda o Papa Francisco, cujo sucessor ele anunciará do balcão central da Basílica de São Pedro no Vaticano
© Radio Vaticano

Portanto, tendo 6 Cardeais-Diáconos (5 morreram) de 2003 pedido para acender à Ordem dos Presbíteros, e, entre eles, o então Protodiácono Jean-Louis Tauran, a antiguidade na Ordem dos Diáconos passou o Cardeal Martino, que não solicitou a sua promoção à Ordem dos Presbíteros e, com 81 anos, já não é mais eleitor papal, mas pode receber votos em conclave.

Os Cardeais-Diáconos que solicitaram a ascensão à Ordem dos Presbíteros não mudam de igrejas (chamadas de “diaconias”) para as quais foram nomeados quando de sua criação cardinalícia. Ao contrário, as suas diaconias são chamadas títulos presbiterais pro hac vice (“por enquanto”, do latim) durante o tempo que eles as ocuparem.

As funções do Protodiácono são anunciar o nome do novo Papa e impor a ele o pálio pastoral no início da Missa de inauguração do pontificado.

*

Mais fotos da celebração do consistório de hoje, reunião de Cardeais com o Papa para decidir a canonização de Beatos e atualizações do Colégio Cardinalício, como a Optatio:

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O Cardeal Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos,
lê ao Papa Francisco e aos Cardeais residentes em Roma e reunidos em consistório
os nomes dos 6 beatos cuja canonização foi aprovada para o dia 23 de novembro de 2014
© Radio Vaticano

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Mons. Guido Marini, Mestre das Celebrações Pontifícias, anuncia aos presentes
o rito de
Optatio de 6 Cardeais-Diáconos para a Ordem Cardinalícia dos Presbíteros
© Radio Vaticano

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O Cardeal Tauran saúda o Papa Francisco, de quem anunciou sua eleição em 2013
e agradece a sua promoção a Cardeal-Presbítero
© Radio Vaticano

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